12 jul 2017

15 sugestões para educar crianças feministas

Criar crianças feministas quer dizer educar crianças para que não haja diferença entre gêneros. Porque feminismo é isso, um movimento social que busca por direitos iguais entre gêneros. Nunca o feminismo esteve tão em alta e mulheres se sentem mais à vontade para falar como se sentem num mundo onde a desigualdade no mercado de trabalho, assédio e estupros são fatos crescentes. Sempre me preocupei em como educar um menino de forma a não criar uma diferença entre gêneros. Lá em casa, antes de existir a Stella, nunca teve esse negócio de rosa é de menina e azul é de menino. Mas então a Stella chegou e essa preocupação cresceu em mim. Ter uma menina significou pra mim um aumento gigante de responsabilidade. Eu vivo preocupada com os perigos que ela pode correr pelo simples fato de ser mulher.

O mesmo aconteceu com a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, conhecida como um dos nomes mais importantes entre os leitores de literatura africana. Conheci a história dela através de um artigo que ela escreveu para a revista Vogue, no qual ela conta como a gravidez a levou para um momento de reflexão profunda.  Há anos ela se preocupava com a maternidade e a forma de educar uma criança. Mas foi quando uma amiga de infância lhe perguntou como deveria fazer para criar uma filha feminista, que Chimamanda colocou os pensamentos em ordem.

Ela então escreveu uma carta para sua amiga com 15 conselhos para educar uma menina feminista. E foi aí que nasceu o livro “Para Educar Crianças Feministas”, lançado esse ano no Brasil pela Companhia das Letras. Eu li o artigo, recortei e colei no meu planner para não esquecer de comprar o livro. Poucos dias depois, ao completar 36 anos, ganhei de uma amiga muito especial esses dois livros da autora. E independentemente de ser, mãe/pai de menina ou menino, todos precisam ler esses dois livrinhos.

“Sejamos todos feministas” e “Para educar crianças feministas”

No mesmo artigo que li na Vogue, a autora afirma que só agora sendo mãe, ela percebeu o quanto é fácil dar conselhos para os outros criarem seus filhos sem enfrentar na pele essa realidade tão complexa. Mesmo assim, ela acredita na urgência em termos conversas honestas sobre outras maneiras de educar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens.

No livro, além dos conselhos, Chimamanda relembra alguns episódios da própria vida. Como quando foi numa loja comprar um presente para uma menina, mas não encontrando nada que a agradasse na seção, achou na seção de meninos, uma roupa azul linda que cairia bem na criança. Ao pagar, a moça do caixa disse que era o presente ideal para um garotinho e ela falou que era para uma menininha. Então, a atendente falou horrorizada: azul para uma menina?. Ela também faz muitas comparações que percebia existir desde quando era criança. Os meninos era tratados diferentes das meninas.

Enquanto elas tinham que trançar os cabeços aos sábados, não sabiam o que os meninos faziam nesse mesmo período. Elas ouviam muito “varra direito, como uma menina”, o que significava que varrer direito tinha a ver com ser mulher. E vários outros exemplos afirmando que o mundo começa a inventar papéis de gênero desde cedo. Por isso, precisamos nos policiar e ficar atentos ao que falamos às nossas crianças. O livro traz muitas reflexões. No meu caso, me fez pensar na minha própria infância e no que quero ou não repassar aos meus filhos.

Os “conselhos” são voltados para a amiga que tem uma filha, mas todos valem para mães/pais de meninas e meninos. Basta inverter os papéis. Fiz um resumo bem rápido de cada sugestão, mas acho que vale muito, muito a pena ler esse livro inteiro.

15 sugestões para educar crianças feministas

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1. A maternidade é uma dádiva maravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade

Seja uma pessoa completa. Todo mundo vai dar palpites, dizendo o que você deve fazer, mas o que importa é o que você quer, e não o que os outros querem que você queira. Criar os filhos é uma questão de prática – e de amor.
O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue “dar conta de tudo”, e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.

2. Pai deve fazer tudo o que a biologia permite – ou seja, tudo, menos amamentar

Quando há igualdade não existe ressentimento. Abandone a linguagem da ajuda. O pai não ajuda a mãe a cuidar da filha dele. Ele está fazendo o que deveria fazer. Ao dizer que os pais estão “ajudando”, o que sugerimos é que cuidar dos filhos é território materno, onde os pais se aventuram corajosamente a entrar. Pai não merece elogio ou gratidão especial, nem a mãe – ambos escolheram pôr uma criança no mundo, e ambos têm igual responsabilidade por essa criança.

3. Ensine sua filha que “papéis de gênero” são totalmente absurdos

Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa “porque você é menina”. “Porque você menina” nunca é razão para nada. Jamais. Veja sua filha como um indivíduo. Não como uma menina que deve ser de tal ou tal jeito. Veja seus pontos fortes e fracos de maneira individual. Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.

4. Cuidado com o perigo que chamo de Feminismo Leve

Feminismo leve é a ideia de uma igualdade feminina condicional. É uma ideia vazia, falida, conciliadora. Ser feminista é como estar grávida. Ou se é ou não se é. Ou você acredita na plena igualdade entre homens e mulheres, ou não.

5. Ensine sua filha a ler e o gosto pelos livros

Falo de livros que não têm nada a ver com a escola: autobiografias, romances, histórias. Se nada der certo, pague-a para ler. Dê uma recompensa. Seja dessa mãe nigeriana incrível, Angela, uma mãe solo, que estava criando a filha nos Estados Unidos. A menina não gostava de ler, então a mãe decidiu pagar cinco centavos para cada página lida. Mais tarde, ela dizia brincando: “saiu caro, mas o investimento valeu a pena”

6. Ensine sua filha a questionar a linguagem

A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. Mas, para lhe ensinar isso, você terá de questionar sua própria linguagem. Então decida o que não dirá para sua menina. Porque o que você diz a ela faz diferença. Ensina o que ela deve valorizar. Por exemplo, não creio que a gente deva ensinar às meninas que o casamento é algo a que elas devem aspirar.

7. Nunca fale do casamento como uma realização

Encontre formas de deixar claro que o matrimônio não é uma realização nem algo a que ela deva aspirar. Um casamento pode ser feliz ou infeliz, mas não é realização. Condicionamos as meninas a aspirarem ao matrimônio e não fazemos o mesmo com os meninos. As meninas crescem e se tornam mulheres preocupadas com casamento. Os meninos crescem e se tornam homens que não são preocupados com o casamento. As mulheres vão casar com esses homens. A relação é automaticamente desigual porque a instituição tem mais importância para um lado do que para o outro. Nosso mundo ainda dá ao papel conjugal e maternal da mulher um valor muito maior do que a qualquer outra coisa. Não se devem cobrar das mulheres mudanças devido ao casamento que não são cobradas dos homens.

8. Ensine sua filha a não se preocupar em agradar

A questão dela é se fazer agradável, a questão é ser ela mesma, em sua plena personalidade, honesta e consciente da igualdade humana das outras pessoas. Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser “boazinhas” com pessoas que lhes fazem mal. Muitas meninas pensam nos “sentimentos” de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar.

Então, ensine sua filha a ser agradável, ensine-a a ser honesta. E bondosa. E corajosa. Incentive-a a expor suas opiniões, a dizer o que realmente sente, a falar com sinceridade. E então elogie quando ela agir assim. Elogie principalmente quando ela tomar uma posição difícil ou impopular, mas que é sua posição sincera. Diga-lhe que ela também merece a bondade dos outros. Ensine-a a defender o que é seu. Se outra criança pegar o brinquedo dela sem permissão. Diga-lhe para pegar de volta, porque seu consentimento é importante. Diga-lhe para falar, para se manifestar, para gritar sempre que se sentir incomodada com alguma coisa.

9. Dê a sua filha senso de identidade

Faça com que ela, ao crescer, se orgulhe de ser, entre outras coisas, uma menina Igbo (brasileira, inglesa, etc, que tenha orgulho do seu povo, seus costumes). Ensine-lhe sobre o privilégio e a desigualdade e sobre a importância de dar dignidade a todos os que não querem prejudica-la – ensine-lhe que os trabalhadores domésticos são humanos como ela, ensine-lhe a cumprimentar sempre o motorista.

10. Esteja atenta às atividade e à aparência dela

Incentive-a a praticar esportes. É importante não só por causa dos evidentes benefícios a saúde, mas porque pode ajudar com todas as inseguranças quanto à imagem do corpo que o mundo lança sobre as meninas. Se ela gostar de maquiagem, deixe-a se maquiar. Se ela gostar de roupas da moda, deixe-a usar. Mas, se não gostar, deixe também. Não pense que cria-la como feminista significa obriga-la a rejeitar a feminilidade. Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes. Jamais associe a aparência de sua filha à moral. Nunca lhe diga que uma saia curta é “indecente”. Associe a maneira de se vestir com uma questão de gosto ou de beleza, e não de moral. Porque as roupas não têm absolutamente nada a ver com a moral. Cerque-a com muitas tias, mulheres com qualidades que você gostaria que ela admirasse.

11. Muitas vezes usamos a biologia para explicar os privilégios dos homens

E a razão mais comum é a superioridade física masculina. É claro que é verdade que, em geral, os homens são fisicamente mais fortes do que as mulheres. Mas, se realmente dependêssemos da biologia como fonte das normas sociais, as crianças então seriam identificadas pelas mães e não pelos pais, pois, quando a criança nasce, o genitor biológico – e incontestável – é a mãe. Então, ensine sua filha que a biologia é um assunto interessante e fascinante, mas que nunca a aceite como justificativa para qualquer norma social, pois são criadas por seres humanos, e não existe norma social que não possa ser alterada.

12. Converse com ela sobre sexo, e desde cedo

Não finja que o sexo é uma mera ação reprodutiva controlada. Ou uma ação “apenas no casamento”, pois isso é mentira. Diga-lhe que o sexo pode ser uma coisa linda e que, além das evidentes consequências físicas (por ser mulher!), também pode ter consequências emocionais. Diga-lhe que o corpo dela pertence a ela e somente a ela, e que nunca deve sentir a necessidade de dizer “sim” a algo que não quer ou a algo que se sente pressionada a fazer. Ensine-lhe que dizer “não” quando sentir que é o certo é motivo de orgulho.

13. Romances irão acontecer, então dê apoio

Assegure-se de que ficará a par dos romances na vida dela. E a única maneira para isso é começar desde cedo a lhe fornecer a linguagem necessária para falar com você sobre sexo e também sobre amor. Não estou dizendo para você ser “amiga” dela. O que digo é que você seja uma mãe com quem ela pode falar de tudo.

14. Ao lhe ensinar sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos

A santidade não é pré-requisito da dignidade. As mulheres não precisam ser boas e angelicais para ter reconhecido seus direitos de propriedade. Nos escuros sobre gênero, às vezes, há o pressuposto de que as mulheres seriam moralmente “melhores” do que os homens. Não são. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina.

15. Ensine-lhe sobre a diferença

Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao lhe ensinar sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado.

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