22 mar 2014

A despedida das coisas e da casa

por
Gabi Miranda

Desabafo, Maternidade

Entramos no quintal da casa e Benjamin logo anuncia “a vovó está aqui sim”. Eu e minha irmã nos entreolhamos. Já havia explicado para ele que iríamos na casa da vovó guardar as coisas dela e que ela não estaria lá. Ao entrar na casa ele fala com aquele ar teatral de criança “ah, ela não está aqui não”.

A casa estava do jeito como ela deixou, tudo limpo e em seu lugar. Até o café de oito dias atrás estava no bule sob a mesa. Chegamos para imperar a desordem – aquela que da nossa vida já havia se apossado.

Dizem que essa é uma das partes mais difíceis: se desfazer das coisas da pessoa que se foi. Já havíamos decidido o que fazer com os móveis, roupas, utensílios de cozinha. Doaríamos para a casa de idosos que mamãe prestava serviço voluntário, todas as quartas, religiosamente.

Realmente, é muito estranho e doloroso encaixotar tudo, desfazer das coisas de uma vida. Você passa a ter nesse momento o entendimento exato de que a pessoa não existe mais, nunca mais vai entrar pela porta, pegar o telefone para te ligar, abrir a geladeira, escolher uma daquelas roupas para vestir. Vocês nunca mais sentarão àquela mesa para compartilhar um almoço de domingo, para elogiar um pudim que deu certo ou rir muito porque ele se despedaçou.

Despedaçado agora está o seu coração. Partido assim em pedacinhos miúdos. Por tudo o que você podia ter feito a mais e não fez. Por tudo que não fará. Por todos os anos que viveram juntos e por todos os que não viverão. Parece impossível juntar os caquinhos.

Já ouvi que toda essa dor com o tempo vai passar e se transformará em saudade gostosa. No entanto, os dias tem passado e a dor tem aumentado. O buraco que ficou parece aumentar a cada dia.

Um dia você acorda na esperança de receber aquela ligação diária desejando-lhe “um feliz dia”. No minuto seguinte se dá conta que não receberá nunca mais essa ligação. Num outro momento, é uma foto que encontra e você se dá conta que aquela pessoa não está mais nesse mundo. Como vai ser a vida?

A vida vai ser do jeito que você escolher. Você pode escolher ser a vítima, como se só você no mundo tivesse perdido a mãe e não fosse direito (na verdade, não devia ser direito de ninguém). Ou pode (ao menos tentar) ver o lado bom da vida.

Desfazer das coisas da minha mãe não foi de todo ruim. Eu quis fazer isso no dia seguinte do enterro, não queria prolongar ainda mais. Sempre preferi cortar o mal pela raiz. Mas respeitei a vontade da minha irmã, aguardamos o sétimo dia. Pra mim, quanto antes terminássemos com isso, mais rápido acabaria tudo. Fecharia o ciclo.

Fizemos em dois dias. O primeiro dia, foi o primeiro também que não choramos durante aquela semana. Pelo contrário, conforme encontrávamos objetos, dávamos risadas lembrando de vários momentos, do que nossa mãe falaria e até do seus gestos.

Encontramos coisas muito valiosas sentimentalmente. Nossa mãe era mesmo feita de coragem, fé, otimismo, generosidade. Esse é o lado bom da minha vida. A parte que ficou da melhor parte de mim. A pessoa que ela foi. Agora só preciso fazer disso a limonada. Talvez, a minha maior dificuldade, seja a falta de fé.

Eu vinha trabalhando isso esse ano. Vinha questionando algumas pessoas sobre fé e crença em Deus. Acredito até que esse fosse um dos sinais (aqueles que pensei tinham me faltado e descobri que os tive). Fazem 12 dias que tudo aconteceu e nem rezar, consegui. Estou brava e de mal com Deus (preciso acreditar que Ele existe).

O segundo dia desfazendo da casa, foi mais doloroso. Sentadas no sofá, eu falava admirada para minha irmã sobre seu desapego. Eu não estava certa se queria doar todas as roupas da minha mãe. Podíamos guardar pelo menos o manto sagrado: uma camiseta e a jaqueta do Corinthians – praticamente uniformes da minha mãe. Minha irmã disse que eu pagasse caso fizesse questão. Na dúvida, questionamos uma amiga mais experiente, órfã de mãe a mais tempo que nós. “Guarde tudo que vocês tiverem dúvida. Não tomem nenhuma decisão radical. Depois, se quiserem doar, doem. Mas não faça nada na dúvida agora. Futuramente, você também pode mostrar para o Ben”.

Rapidamente abrimos a caixa de roupas. Cada uma pegou além dos mantos sagrados, uma jaqueta e mais alguma peça de interesse. Fechamos a caixa. Coração mais sossegado. O pessoal do abrigo chegou. Um dos caras lembrou “sua mãe era a corintiana?! Ela sempre estava lá com camiseta do time. Gente boa”. Parecia coisa divina. Resgatamos no tempo certo o tesouro.

Quando pensamos não ter mais o que ser encontrado, minha irmã encontrou outro presente para o neto querido. Uma caixa de potinhos para fazer bolinhas de sabão. Já havíamos encontrado várias outras coisas destinada a ele (parecia até que mamis sabia o seu destino), mas essa me abalou de forma profunda. Enfim, nos despediríamos daquela casa. Definitivamente tinha acabado.

O que mais me faz sofrer, é pensar que meu filho não terá a presença dessa avó. Ela que o amava com todas as forças. Soube por amigos dela e nas coisas que encontramos, que ela praticamente vivia por ele. Então lembro da lágrima que vi em seus olhos quando liberaram para vermos seu corpo, pouco depois de nos anunciarem sua partida. Aquela lágrima me doeu, mas foi também uma resposta. Ela lutou para ficar. Nunca foi de entregar os pontos. E se lutou foi porque pensou em nós. Pensou em Benjamin. Mas ficar já não podia mais.

Leia: quando perdi minha mãe

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5 respostas para “A despedida das coisas e da casa”

  1. Priscila Ferreira disse:

    Amiga, apenas ontem tive coragem de mexer em suas coisas… duas malas de perfume, cremes, batons e maquiagem era muito vaidosa, coisas que eu nem ligo ela tinha coleção e foi muito difícil separar, colocar no carro… estava adiando e foi pior, acabei até achando a sacolinha do hospital com sua roupa e por incrível ainda tinha seu perfume! Nunca vou esquecer seu cheiro! E o vazio aumentou, mas preciso ser forte tenho ctz que ela não gostaria de me ver triste! Amor de mãe é único e verdadeiro…

  2. Viviane disse:

    Me identifico demais com o que escreve. Minha mãe partir em uma situação muito semelhante… e as coisas que escreve, parece que saem da minha boca, do meu pensamento… Um beijo enorme….

  3. Julia Costa disse:

    Gabi, estou sofrendo com você. Se me vejo em você em tantas situações, nesta não poderia ser diferente. Minha mãe é muito presente na minha vida. O Lucas é a razão de viver dela. Todos os dias nos falamos, seja para desejar um bom dia, ou para saber como foi o trabalho. Eu sinto tanto, mas tanto por você, que eu nem sei se consigo expressar. Eu não lido bem com a morte, só de pensar nela me dá arrepios. Nessas horas, queria ser espírita, como meus pais e meu irmão. Mas não sei… Não sou… Não consigo deixar de sofrer por pensar que existe vida após a morte. Acho que sou muito apegada a essa vida aqui, às pessoas ao meu redor, às pessoas que eu amo no “hoje”. Uma coisa é certa: o tempo é um belo amigo. Ele vai ajudar, não tenho dúvidas. Espero que essa dor passe logo e que chegue logo o momento que as pessoas dizem que chega: de lembrar só das coisas boas, sem sofrimento. Um beijo grande no seu coração!

  4. flavia disse:

    Nossa me emocionou demais esse post…

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