05 abr 2016

A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória

por
Gabi Miranda

Destaque, Livros, Puericultura

A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória, mostra como a sociedade não acolhe a mãe

Li o livro “A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória” grávida da Stella. Ao ler achei um pouco pesado para o momento, mas na época fiz anotações no próprio. Dia desses estava refletindo sobre como a maternagem nos transforma e nos faz questionar, no quanto a prática de maternar é diferente da teoria. Isso tudo porque eu pensava no esquema de vida que tenho com as duas crianças e traçava com os conselhos alheios. Porque sempre tem alguém, na tentativa de querer ajudar, pronto para “aconselhar” o que é melhor para você e sua família – e acredito mesmo que não seja por mal. Mas a realidade é sempre bem diferente da teoria. Foi quando procurando um livro, me deparei com esse novamente e peguei para folhear. Lá estavam todas as questões grifadas por mim, todas que nessa licença maternidade me assombraram ainda mais do que em qualquer momento desde que me tornei mãe.

Em “A mãe e o tempo”, a autora Carolina Pombo expõe abertamente seu olhar sobre a maternidade e como ela está inserida nas questões culturais, políticas, religiosas e morais. Ela, acima de tudo, questiona e inquieta o leitor com seus questionamentos. Mostra como toda a sociedade, não só o vizinho, mas o Estado, a publicidade não acolhe a Mãe. Nós próprias, mães, nos julgamos, nos cobramos e nos culpamos constantemente. Separei alguns trechos para compartilhar aqui, mas vale lembrar que estão fora do contexto, mas são partes que por si dá para refletir a respeito.

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A mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória

Silêncios, divergências e convergências

“Ainda, a maternidade reside num paradoxo quase intransponível. Ela não é um estado estável, como o senso comum atribui, mas é um rótulo ambíguo. Mãe é tanto um adjetivo quanto um substantivo (cheio e ao mesmo tempo vazio de sentidos). Todo mundo tem uma palavra para completar a frase ser mãe é… Ao mesmo tempo, basta engravidar para ser incluída na categoria. É or isso que quando a grávida não corresponde à qualidade materna esperada, ela não perde o rótulo, mas ganha um complemento, passa ser a mãe desnaturada. É interessante o que a expressão guarda. Se minha atitude para com a criança que eu pari não for coerente com o que o meu intelecutor considera ser uma mãe, imediatamente a natureza é convocada para explicar o fenômeno – não é ele que está equivocado quanto ao que espera de mim, sou eu quem tem um problema, um grande e bizarro problema, o de ser anormal, contrária ao que a natureza reza. Mas ainda assim vou seguir sendo mãe, e nada nem ninguém poderá me tirar esse pode!”

“Porém, não falar da maternidade por um olhar libertário não significa que outros deixem de falar com viéses conservadores e que seus discursos repercutam sobre nossas vidas. Os debates internacionais sobre a queda da fertilidade na Europa, o controle da natalidade na China, a proibição do aborto na América Latina, a epidemia de cesarianas no Brasil, a adoção de crianças por casais homossexuais e a fertilização in vitro nos EUA e na Europa, dentre outros temas, continuam a trazer a maternidade fundamentada na reprodução, na função biológica de um corpo feminino útil. Ainda que apareçam ideias progressistas e desafiadoras, esses debates também reavivam as afirmações mais ultrapassadas da psicanálise e da antropologia estruturalista sobre o papel do parentesco e da heterossexualidade na cultura e na vida saudável do sujeito, e reforçam o poder da Mãe como entidade universal.”

“São conservadores os que se opõem, por exemplo, ao reconhecimento pelo Estado de laços parentais entre ciranças e casais não heterossexuais. Ou aqueles que continuam defendendo que as mulheres são as incumbidas, por excelência, das funções de cuidado com as crianças, idosos e doentes.”

Trabalho, saúde, política

“…não houve a promoção de mudanças na organização familiar e no mercado de trabalho que acompanhassem essas novidades. A maternidade parece manter-se como pedra no sapato – de quem decide maternar, de quem produz políticas públicas para as mulheres e de quem milita o Feminismo. Como falar de igualdade de gêneros quando partimos da premissa de que ser mãe é um estado sempiterno e instransferível do gênero feminino? Como podemos participar de tamanhas conquistas e ao mesmo tempo assistir (e sofrer com) à manutenção de uma identidade materna tão ultrapassada?”

Mães mamíferas versus mães profissionais

“…eu deveria exercer meu poder de maternar da melhor forma possível para o bem-estar da minha filha, porém isso me impunha o sacrifício de outros desejos diretamente relacionados ao meu bem-estar social e emocional.”

“Aquilo que se identifica como bom ou ruim, na maternagem, muitas vezes está voltado par uma realidade que não representa a média das famílias brasileiras – talvez por isso a desigualdade social entre mães pobres e mães de classe média e rica não seja diretamente encarada por esse ativismo virtual.”

“Geralmente, o que vejo nos relatos em sites e blogs, brasileiros ou estrangeiros, é que as mães que adotam e pregam os conselhos “mamíferos” expressam um desejo de maior convivência com os filhos e têm argumentado que essa proximidade não pode ser vista como um fardo – ao contrário, deve ser encarada como um privilégio -, o que é de certa forma resposta a um Feminismo que privilegiou a emancipação pelo trabalho remunerado e a um Estado que não incluiu a primeira infância  como alvo de suas políticas públicas fundamentais. Ainda que usem o apoio de empregadas domésticas e/ou babás, essas mulheres não querem se afastar da família como os homens geralmente os fazem. Quando elas identificam prazer nas práticas de cuidado que protagonizam, estão criticando também a terceirização do cuidado e a lógica econômica dominante, engrenagens das quais fazem parte, mas que desejam suplantar.”

“Ao mesmo tempo em que oferecem soluções para os constrangimentos mencionados, impõem a necessidade de uma disponibilidade temporal quase impossível de ser alcançada. Como carregar seu bebê no sling o dia inteiro se você trabalha fora de casa? Como antendê-lo prontamente diante do choro se você assume uma gama múltipla de atividades? Como deixar o bebê dormir todos os dias em sua cama, continuar fazendo sexo e dormindo razoavelmente bem? Como amamentar prolongadamente e em livre demanda e ter uma vida própria? Como fazer tudo isso e estimular a autonomia da criança? Claro que, colocar essas questões não significa tornar tais práticas inconciliáveis com a vida atual. Muitas mulheres tem criado estratégias para incorporar esses conselhos a seus próprios esquemas de vida. Mas, muitas não tem conseguido fazê-lo sem abrir mão de uma vida profissionalmente ativa, de parceiros participativos e da inserção escolar dos filhos – para não falar daquelas que se encontraram emocionalmente e fisicamente esgotadas depois de levarem a cabo todas as recomendações.”

“As campanhas publicitárias que jogam com a “culpa” não apontam para a solidariedade nem para a autorresponsabilização das empresas. Como seria diferente se dissessem às tais mães culpadas:

Não se culpe, porque o bem-estar e a saúde das crianças são de responsabilidade de todos nós, cidadãos, Estado, homens, mulheres, pais, professores, empresários, políticos, feministas, conservadores, hétero, homossexuais! Não se sinta tão mal nem tão importante, porque existem muitas famílias no mundo que se organizam de formas diversas e mesmo assim são capazes de amar e educar bem suas crianças!

Tempo, tempo, tempo

“A maternidade é transitória, porque é um conceito. Um conceito construído ao longo do tempo, da história da humanidade e de cada sociedade. Tem um caráter universal porque está ligada à reprodução da natureza, da nossa própria espécie, e de todas as outras. Por isso desperta tantas teorizações, tantos medos e regras. Mas entre conceito e a realidade, há tantas divergências! Ainda que se repita séculos a fio a identidade universal da Mãe, entre o tempo dela e o dia a dia há espaço para muitas teorizações. E se há necessidade de se teorizar tanto é porque não há uma resposta certa, pronta e acabada.”

“Em relação à maternagem, sou favorável à uma ciência que procure compreender o bem-estar das pessoas: daquelas que são cuidadas e das que cuidam.”

“Quero sim ter uma família que não se prenda aos modelos tradicionais que excluem e oprimem outras formas de existência. Quero ajudar minha filha a compreender que as pessoas não se resumem a rótulos e que os rótulos não são imprescindíveis.”

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Uma resposta para “A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória”

  1. Adri disse:

    Realmente a maternidade na teoria é bem diferente da prática, e sempre reflito o quanto eu mudei, sobre os conselhos, também creio que não sejam por mal.

    bjs

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