16 maio 2016

Bebês são detetives emocionais

Bebês – detetives emocionais

bebês

A revista ÉPOCA da semana passada (9 de maio, nº934), trouxe uma entrevista com o psicólogo americano Andrew Meltzoff, uma das maiores autoridades mundiais no estudo da infância, sobre o desenvolvimento infantil. Achei muito interessante algumas coisas ditas por ele, como o fato da criança ser capaz de assimilar os preconceitos mais sutis de seus pais e de perceber ambientes hostis. Eu, por exemplo, vivo em busca da melhor forma e jeito de falar, pois um volume de voz mais alto ou um tom pouco mais alterado, meu filho Benjamin já acha que estou brava. Acredito muito em tudo o que psicólogo diz na entrevista, inclusive que os bebês são detetives emocionais, até porque nosso humor reflete também no dele. Essa entrevista também me fez refletir na importância da escolha com quem deixamos nossos filhos, seja um cuidador ou escola. Compartilho agora com vocês.

ÉPOCA – Por que o senhor privilegia em suas pesquisas a importância da fase entre o nascimento e os 5 anos de idade?Andrew MeltzoffHá evidências científicas de que o desenvolvimento da criança no começo de sua vida ajuda a determinar o adulto que ele será. O cérebro do bebê é esculpido pelas experiências. Ele é profundamente afetado pelas interações sociais e físicas que tem com o mundo. Nesse período o bebê aprende mais do que aprenderá em qualquer outro período cronológico similar.

ÉPOCA – A incrível capacidade de aprendizado da criança pequena faz parecer que ela aprenderá de qualquer forma. Essa percepção é um equívoco?
Andrew MeltzoffSim, é um equívoco. O meio em que a criança vive é de vital importância para seu desenvolvimento. A criança aprende sobre si mesma através da observação e da interação com outras pessoas. Elas precisam de nós para aprender. Os pais, avós, tios e qualquer outro cuidador são extremamente importantes para a criança porque ela assimila mais facilmente os comportamentos daqueles em quem ela confia. Por isso, a atitude dos pais ou de uma babá é mais importante para ela do que a de outras crianças.

ÉPOCA – Que tipo de cuidados os pais deveriam tomar para não atrapalhar o desenvolvimento da criança?
Andrew MeltzoffDeixar que a criança brinque e prestar atenção nela. Ela sabe quando é observada. Isso faz com que a criança se sinta segura, cuidada e apreciada. Em vez de ficar na internet procurando como cuidar melhor de seu filho, os pais podem deixar os celulares, o tablet e a TV de lado e observá-lo. As crianças são diferentes umas das outras e têm necessidades distintas. Mas uma coisa sabemos sobre todas elas: se saem melhor quando recebem a atenção daqueles que amam. Acho que hoje em dia os pais já têm bastante consciência de que as crianças aprendem enquanto brincam. Só não devem achar estimulantes, educativos e caros! Para os bebês de zero a 5 anos, “os seus” adultos são o brinquedo favorito. A face, a voz e a interação dos pais, irmãos ou cuidadores são o brinquedo mais educativo de que podem precisar. Molho de chaves, panelas, panos, batom e torre de potes de comida podem ser brinquedos mais interessantes do que qualquer um encontrado em lojas especializadas em bebês.

ÉPOCA – Há diferença entre crianças que vão para o berçário e aquelas que crescem em sua própria casa?
Andrew MeltzoffEm testes de desenvolvimento, extraímos os mesmos resultados de desenvolvimento de crianças que ficam em casa, num ambiente saudável, e das que vão para a escola de alta qualidade. Berçários de alta qualidade são aqueles em que há um número menor de crianças por professor e que têm um ambiente apropriado para elas. Esses testes confirmaram também algo que já sabíamos. O que importa é a qualidade de tempo que a criança tem com seus pais. Os pais podem trabalhar o dia todo. Mas devem, quando estão juntos com a criança, prestar atenção e assegurar, pelo comportamento, como ela é importante e apreciada.

ÉPOCA – A criança é capaz de perceber ambientes hostis?
Andrew MeltzoffTemos uma série de estudos que mostram como as crianças pequenas são sensíveis à raiva e a qualquer tipo de hostilidade. Elas percebem a hostilidade entre adultos mesmo enquanto dormem. Crianças pequenas são capazes de fazer qualquer coisa, por mais antinatural que seja para raiva. Num dos vários testes que fizemos, bebês com menos de 2 anos assistiram à demonstração de rispidez de um adulto. Menos de uma hora depois disso, um outro adulto chegou e pediu o bichinho que o bebê carregava, aquele preferido com o qual ele dormia. Ele naturalmente não quis entregar o brinquedo. Em seguida, o adulto raivoso entrou na sala, sem mostrar raiva, e pediu o brinquedo. Os bebês entregaram o brinquedo para ele.

ÉPOCA – O que ocorre com criança pequenas expostas a cenas de violência?
Andrew MeltzoffSabemos que crianças expostas a muitas situações de violência (imagens ou sons) tendem a ser violentas. De novo, é a tendência a imitar padrões, principalmente se eles vieram de fontes de confiança. O importante nesses casos é ajudar a criança a processar efetivamente aquilo tudo que presenciou para que ela não absorva comportamentos danosos às cegas.

ÉPOCA – Traumas físicos e psicológicos em crianças pequenas podem ser superados?
Andrew MeltzoffCrianças são impressionantemente resilientes. São capazes de superar experiências extremas vivenciadas nos primeiros anos de vida, desde que tenham uma relação saudável em que se apoiar. Todas as pesquisas mostram que essa é a diferença entre o estresse tóxico que ama e tem uma relação de confiança com quem cuida dela será capaz de gerenciar seu próprio estresse. Por outro lado, crianças que passam pela mesma experiência e não têm um adulto com quem contar vão experimentar um estresse prolongado. Isso poderá interferir negativamente na forma como essas crianças reagirão a outras fontes de estresse no futuro.

ÉPOCA – Crianças podem assimilar preconceito?
Andrew MeltzoffCrianças pequenas são detetives emocionais. Elas observam cuidadosamente como reagimos a pessoas e situações, detectam e assimilam as informações mais sutis. A ciência moderna mostra que as crianças assimilam os preconceitos e estereótipos sobre raça, classe social, gênero e nacionalidades desde muito pequenas. Um estereótipo amplamente difundido no mundo dos adultos é que matemática é mais para os meninos do que para as meninas. Numa das pesquisas que fizemos na Universidade de Washington constatamos que 70% das meninas de 2 anos de idade que recrutamos já assimilaram a ideia de que garotos se dão bem com matemática e garotas não. É notável porque isso ocorreu antes de elas começarem a calcular. Os bebês começam muito cedo a dividir as pessoas em nós e eles. Numa outra pesquisa, distribuímos aleatoriamente camisetas laranja e camisetas verdes entre crianças de 3 e 4 anos. Daí mostramos, individualmente, fotos de crianças vestindo camisetas com essas cores. Sem exceção, cada uma das crianças agiu da mesma forma: escolheu como as crianças mais legais aquelas com camisetas iguais à dela. Os pesquisadores contaram a essas crianças histórias com pessoas usando as camisetas de mesmas cores. Na história, o mesmo número de pessoas em cada cor tinha  boas e más ações. Na hora em que pediam para as crianças recontarem a história, elas reportavam como aquelas com boas ações as que usavam as camisetas da mesma cor que a delas, enquanto as que usavam a outra cor teriam feito as coisas ruins. Uma série de pesquisas mostra quem as bases para os preconceitos são construídas nos primeiros anos de vida. O papel de pais, professores e sociedade é mostrar à criança que todos são como ela e precisam ser tratados da mesma forma. Transmitir valores éticos é responsabilidade de adultos.

ÉPOCA – O que as pesquisas em curso sobre crianças pequenas tentam descobrir agora?
Andrew Meltzoff – Nós e outros cientistas trabalhamos para entender de onde vem a compaixão. As crianças a sentem naturalmente ou ela lhe é ensinada? E de que forma pode ser ensinada? Sabemos também que crianças de 4 e 5 anos já demonstram ter mais ou menos autoestima – e isso tem um impacto importante no aprendizado delas. Estudamos a origem da autoestima e também como aumentá-la no  caso das crianças que têm mais dificuldade em lidar com seus microfracassos cotidianos. Não temos ainda a resposta para isso, mas sabemos que esse é um aspecto detectável na infância e com grande impacto por toda a vida.

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10 respostas para “Bebês são detetives emocionais”

  1. Karina Alves disse:

    Perfeita a entrevista Gabis.. Obrigada por compartilhar com nós mães..
    bjs
    Kah

  2. Tatiane disse:

    Ameii essa matéria, na verdade a ciência só provou oque já sabiamos né eles são antenas espertas rsrs

  3. Eu acho sensacional como eles observam e… repetem!!!
    beijos
    Lele

  4. Tatiana disse:

    Nossa adorei! Realmente eles são anteninhas que captam tudo ao redor, e muitas vezea nos auxiliam sem nem mesmo percebemos. Adorei Gabis

  5. melissa disse:

    Essa fase é essencial para a formação de um adulto consciente de seus limites, de seus deveres. Sempre falo com os pais da minha creche que o mais importante é a qualidade do tempo que passam com seus filhos, pois muitos se sentem culpados por deixarem os bebês o dia todo na creche!!
    Muito bom!!

  6. Sensacional a entrevista! Obrigada por compartilhar. Ah! E adorei a expressão “detetives emocionais”!

  7. Gabis, muito legal você trazer a matéria da revista pra cá. Além do assunto ser muito interessante e útil, ajuda a quem não tem acesso a revista e não teve a oportunidade de lê-la.
    beijos
    Chris

  8. materniarte disse:

    Sensacional a entrevista. Eu sabia de algumas coisas e a ciência sempre nos surpreende com novas pesquisas e mais aprendizados..
    Então mostrar que somos todos iguais desde cedo é o caminho!!!
    Amei!!!

  9. Que bacana esse texto! Como a fala é desenvolvida mais tarde, os bebês desenvolvem outras habilidades. Basta a família tentar manter a calma e o equilíbrio para passar esse exemplo as crianças.

    Beijo!

  10. Que matéria incrível, amei! De fato, a qualidade do tempo com os pais é essencial para o desenvolvimento infantil.

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