12 nov 2015

Birra e os momentos que ninguém vê

por
Gabi Miranda

Desabafo, Destaque, Maternidade

Imagem Google

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Sexta-feira passada comecei o dia bem. Acordei ao lado dos meus dois filhos amados, até postei uma foto nas redes sociais dizendo o quanto Benjamin é fofo com a irmã, o quanto é bacana ver a relação deles se construindo. Levantamos, preparei o café da manhã, tomamos, ajeitei as coisas e fui me arrumar. Benjamin sempre prestativo disse que ficaria brincando com a Stellinda. Era dia de pediatra e quando estava perto de sairmos, começou um daqueles momentos que ninguém vê. Benjamin começou fazer a maior birra dos últimos tempos. Benjamin é uma criança de ouro, muito comportada, boazinha, educada, mas ele tem tido momentos de birras. Ele nunca fez birra em público (meu maior pavor) e a birra aqui não é algo constante, no entanto, quando acontece dura um tempo interminável e nunca acaba como eu gostaria.

Geralmente, começam do nada e mesmo que eu o alerte sobre seu comportamento, ele continua. Não foi diferente na última sexta. Falei e respirei fundo uma, duas, três, quatro, cinco vezes e nada dele parar. Ele começou a gritar e eu perdi a paciência. Pareço boa mãe, mas fiz uma ameça horrível: “Benjamin, o prédio inteiro está ouvindo você gritar desse jeito, vão chamar a polícia pra mamãe. Quer que eu seja presa?!”. Obviamente ele disse que não, mas esse aviso não foi suficiente para ele parar. Pela primeira vez na vida, senti vontade de dar umas boas palmadas no Benjamin, mas eu continuava a respirava fundo. Stella só olhava atenta a tudo. Chegamos no carro e Benjamin continuava chorando e gritando. Foi terrível. Fiquei tão nervosa que mal conseguia dirigir. E nesse meio-tempo já havia dado a sentença a ele: sem televisão o final de semana inteiro, de sexta a domingo.

Chegamos à pediatra, nervos mais contidos, tirei Benjamin do carro, ele me abraçou, eu correspondi e ele ficou cheio de amor para dar enquanto esperávamos na sala de espera. Uma sra. também na espera, observava o jeito do Benjamin e sorria como quem diz “que garotinho adorável e carinhoso”. Enquanto isso, eu conversava baixinho com ele sobre o ocorrido, perguntava se ele havia entendido o motivo dele ficar sem ver televisão e pedia desculpas por ter me excedido. A sra. observava encantada Benjamin me abraçando. E devia se perguntar o que conversávamos.

Quando percebo que Benjamin está prestes a iniciar uma birra, tento fazer uma ação preventiva, que é levar a situação de forma mais leve, falando com ele sobre o que ele quer fazer naquele momento ou sugerindo algo para fazermos, faço certo esforço para que ele não fique triste, para não chegarmos no resultado que aquele comportamento vai nos levar.

A maternidade é cheia de momentos que ninguém vê. Nas redes sociais estamos sempre mostrando momentos felizes. Não é comum alguém postar foto do filho esperneando. Ninguém quer se expor e expor a criança desse jeito. Preferimos divulgar a parte fofa dos filhos. Até porque tudo é interpretado de uma forma diferente. A atriz posta uma foto do filho dormindo todo protegido envolto de protetores e é acusada de poder sufocar a criança; a apresentadora que não conseguiu amamentar diz que dá fórmula e afirma que isso não compromete o vínculo entre ela e seu bebê, é tachada de desinformada; você cuida sozinha de um recém-nascido, da casa, da família, não dorme direito e precisa estar bem humorada 100% do tempo, além de ter que se cuidar, se alimentar bem (afinal, você tem que amamentar!) e ouvir “mas você ficou em casa o dia todo” como se fosse simples assim. E todas as mães que fazem qualquer coisa diferente do que deveria ser o certo, ganha o título de menas mãe. Tem sempre 10 dedos apontados para você, centenas de pessoas gabaritadas em julgamento. Mas é importante separar o joio do trigo, o que o outro às vezes vê nem sempre condiz com o todo da realidade. Nenhuma mãe é perfeita mas estamos constantemente fazendo tentativas para que tudo fique bem. Mesmo assim, nunca vamos fugir da sentença de quem nos julga.

Sabemos o motivo das birras dos últimos tempos do Benjamin: sua nova condição de filho. Ele tem uma irmã muito novinha em casa que depende da mãe para tudo. Ele ama sua irmã, não demonstra ciúmes, mas quer atenção pra ele, percebeu que houve uma divisão do que era só seu – o tempo disponível dos seus pais. Eu sei que sou a melhor mãe possível (e impossível) para meus filhos. Mas não sou perfeita. Em alguns momentos perco a razão, grito, imponho castigo. Depois choro, abraço, peço desculpas. Tenho consciência dos meus atos e, assim como ele, também estou numa nova condição: a de mãe de dois. Estamos todos em adaptação nesse novo formato de família.

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2 respostas para “Birra e os momentos que ninguém vê”

  1. Gabriela, faço das suas as minhas palavras… Me identifiquei totalmente com o que passou e com o que disse. Tenho uma filha de 2 anos e 3 meses e um menino de 6 meses. Estou passando por um período de muitas birras, e muitas são em público. Seu pesadelo é a minha realidade. rs Falo sempre do lado B da maternidade, que todas as mães têm, mas poucas comentam e ainda julgam quando vêem outra passando por um aperto. É ruim isso, mas felizmente existem pessoas que pensam diferente e tornam a minha experiência mais leve. Um fim de semana tranquilo para nós! Bjs

    • http://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabi Miranda disse:

      Luciana,
      Obrigada pelo comentário.
      Constantemente eu me julgo ao ver por aí qd só o lado A da maternidade é comentado. Minha ideia é justamente falar de todos os lados. É ótimo ser mãe? É! Mas tem muita coisa que envolve a maternidade. E nenhuma mãe é perfeita. Eu não sou. rs
      Super beijo

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