04 fev 2015

Como harmonizar maternidade com a vida sexual de forma segura

por
Gabi Miranda

Casamento, Entrevista, Maternidade

vida sexual

Desde que o mundo é mundo (ou é coisa da mulher pós-moderna?!) nós mulheres sabemos que após o pós-parto, entramos numa verdadeira crise sobre nosso papel entre ser mãe e mulher. Com a chegada do bebê, nos vemos diante de uma nova vida e diferentes descobertas. Nosso corpo está modificado, os hormônios à flor da pele. Vivemos concentradas em função do bebê, um ser dependente de nós para tudo – das necessidades mais básicas à alimentação. Vivemos a experiência da amamentação. Ganhamos um aumento da ocitocina, hormônio que produz o vínculo afetivo com o bebê e que inibe o desejo sexual pelo parceiro. A vida sexual fica um gelo. É tudo conflitante, mas não é o fim do mundo, é natural sentirmos tudo isso.

Fui a campo para entender melhor todas essas transformações e como harmonizar a vida sexual. Conversei com o Dr. Eliano Pellini, ginecologista, chefe do Setor de Saúde e Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, que destacou três componentes hormonais que entram em ação no pós-parto e favorecem todas essas alterações físicas e emocionais que nos arrebatam. São eles: 1) a queda do hormônio feminino após a saída da placenta. Isso faz com que a vagina fique ressecada, promovendo a redução da receptividade feminina, ocasionando a diminuição do interesse pelo parceiro – fato comum também na menopausa; 2) o aumento da prolactina, hormônio produtor de leite, altamente inibidor da sexualidade; 3) a queda da serotonina, responsável pelos quadros depressivos pós-parto. Sintoma que nem toda mulher apresenta, mas que existe e é comum.

Ou seja, nosso corpo está em transformação, consequentemente, o lado emocional também. O parceiro talvez nem tenha a noção exata do que acontece, por isso podem haver cobranças. Mas a mulher, ao mesmo tempo em que vive um momento mágico e está feliz, se sente mais sensível, insegura, ansiosa e vive uma crise de como conciliar a maternidade com a vida sexual.

Detalhe: isso precisa acontecer de forma segura, tranquila, sem pressão e, ainda por cima, protegida por um contraceptivo ideal para a fase de amamentação. Afinal, na maioria das vezes, não queremos (e não devemos!) parar de amamentar e nem engravidar seguido de um parto, pois estamos passando também por uma fase de recuperação. “Cabe lembrar que o útero ainda está aberto e as relações sexuais nesse momento podem promover infecções, o que é chamado na medicina de infecção puerperal”, enfatiza o Dr. Eliano Pellini. Por isso, a importância de nos resguardar durante a famosa temporada conhecida como “quarentena” – período que começa após o parto e se estende de 40 a 45 dias. Exercícios físicos e atividade sexual, teoricamente só estão liberados após o término da quarentena.

O Dr. Achilles Cruz, especialista em ginecologia e obstetrícia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, certifica: “após cerca de 6 semanas do parto, a mulher estará liberada para a retomada da atividade sexual. Entretanto, é importante destacar a necessidade da utilização de um método contraceptivo, uma vez que mesmo nas mulheres que amamentam, a partir deste momento já pode ocorrer ovulação. Existem diferentes métodos contraceptivos hormonais e não hormonais que podem ser utilizados e a escolha por um ou outro método deve levar em conta as características individuais, a preferência pessoal e principalmente se a mulher está amamentando ou não”.

O ideal é consultar o médico para ver qual o método é mais indicado para cada mulher. Existe o mito de que a mulher que está amamentando pode tomar qualquer tipo de pílula, mas na verdade, as pílulas de progestagênio, como o desogestrel, são as mais indicadas para esse período, pois inibe a ovulação e é livre de estrogênio. Dessa forma, não interfere na qualidade ou no volume do leite, não havendo interferência na alimentação do bebê. E pode ser utilizada a partir da sexta semana após o parto.

A Organização Mundial de saúde adverte: o aleitamento materno deve ser exclusivo até os 6 meses de idade. Após esse período, a criança deve receber outros alimentos, mas pode continuar sendo amamentada até completar dois anos. Dr. Achilles afirma que a fase de amamentação, além de ser importante para o bebê, contribui para recuperação da mulher puérpera.

Todas essas transformações não significam que nosso desejo sexual vai sumir para sempre. Também não existe um prazo exato de duração do período puerpério. Pode durar 50 dias, como levar de seis meses a um ano. Tudo depende da sintonia do casal, da forma como eles vão encarar essa fase. De preferência que seja de uma forma leve, sem cobrança e com muita conversa franca entre eles.

Agora, se tem um conselho para que possa ajudar a mulher a enfrentar esse conflito entre maternidade e sexualidade, Dr. Eliano Pellini arrisca:

Primeiro, voltar ao trabalho o mais rápido possível. É importante para a mulher, voltar a se sentir útil, desejada e bonita. Entender que além de mãe – mesmo que seja o primeiro filho – ela continua a ser mulher. Ela deve retomar sua vida sexual rapidamente para exercer sua feminilidade como antes da gravidez. Por isso, é fundamental que ela tenha um parceiro ativo e participante de todos os momentos de sua vida. Além disso, ela deve conquistar o seu espaço para não ser vista somente como mãe. Também é oportuno evitar os apelidos como chamar o parceiro de papai para que isso não seja um fator que descaracterize seu parceiro sexual. O truque está nessa mãe voltar a atuar como mulher e não apenas como mãe”.

selo_publieditorial

compartilhe!

3

comente!

3 respostas para “Como harmonizar maternidade com a vida sexual de forma segura”

  1. Mislene disse:

    Adorei o texto. Muito esclarecedor !
    Na minha opinião um homem e uma mulher que permanecem íntimos, na função de pais, parceiros e amantes tem muito mais chances de continuar unidos e felizes por longos anos. Além disso, os filhos vendo e convivendo numa relação assim são muito mais felizes.

  2. Lele disse:

    Importante mesmo voltar à rotina de casal. Senão ficamos focados só nos filhos e quando vamos ver…. perdeu o entrosamento!!
    Ótimas dicas dos especialistas!
    beijao
    Lele

  3. Amanda disse:

    É, temos q voltar a vida normal… Mas p mim não foi uma tarefa difícil, depois da maternidade a gente fica muito focada no bebê né…

Comente!