13 abr 2015

Como usar a dor e o sofrimento a nosso favor

por
Gabi Miranda

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Mês passado completou um ano que minha mãe faleceu. Durante esse ano recebi mensagens de muitas pessoas tentando me confortar e outras que também tinham perdido a mãe depois de mim. São histórias diversas. Homens e mulheres. Meninos e meninas. Algumas histórias particularmente me tocaram de maneira diferente, casos de pessoas bem mais novas do que eu, adolescentes até. Todos os depoimentos me fizeram refletir muito, me ajudaram a ver a situação de outra perspectiva e me deram força. Nesse período pesquisei e li (e continuo pesquisando e lendo) muito sobre dor, sofrimento e felicidade.

Aos 14 anos perdi um primo. Essa foi a primeira perda significativa em minha vida que me fez sofrer e ver pessoas muito próximas sofrerem, inclusive minha mãe. Depois de alguns anos perdi meus avós materno e paterno, respectivamente – claro que foram perdas que causaram dor, mas relativamente superáveis rapidamente. Até que perdi minha mãe e o sofrimento me pegou de forma avassaladora.

Ainda lembro, não sei se um dia esquecerei, de todos os minutos do momento que recebi a notícia de sua morte até tudo o que ocorreu nos 3, 4 dias seguintes. Lembro exatamente da dor que senti e de todo o sofrimento que veio pela frente. Entre velório e enterro, as pessoas realmente não sabem o que dizer e as que já passaram por isso afirmam que vai passar – isso é de fato a certeza que elas tem, embora você não acredite. Como vai passar? Parece impossível. É uma dor física, que dói na alma, no peito, no estômago que piora a cada amanhecer de um novo dia. Sim, quando você pensa que não pode piorar, a dor aumenta e cavoca um buraco dentro de ti.

Mas nada como o tempo para ajudar a fechar e cicatrizar esse estrago todo. E nada como os amigos, os filhos, irmãos, pai para nos amparar. E nada como ouvir as histórias dos outros. Porque nesses momentos nos colocamos numa posição de coitados, como se no mundo isso pudesse ter acontecido com qualquer um, mas foi acontecer justamente com a gente. E na verdade, quando nos abrimos para escutar os outros, a nossa dor diminui, pois descobrimos que não estamos sozinhos no mundo. Descobrimos também que o sofrimento não alcança só os maus, mas os bons também. O que nos resta a fazer?

sofrimento

Entre várias histórias que ouvi ou li, uma foi sobre uma menina que perdeu a mãe logo depois de mim. Uma garota universitária, que já não tinha pai e ficou sem mãe. Ela com uma vida toda pela frente, mas sem os pais para acompanhar essa jornada. Quando penso nisso, volto à minha infância e lembro do medo que eu tinha em perder minha mãe, era algo surreal. E ao contrário dos meus fantasmas, minha mãe não só criou eu e minha irmã, como nos viu crescidas montarmos nossas famílias… E ainda me viu conquistar o que ela não tinha conquistado. O sonho da casa própria. Porque foi logo depois de me ver com o apartamento montado, lugar onde recriei várias histórias juntas, ela se foi.

Outras coisas me confortam como lembrar do dia em que saí de casa para morar sozinha. Eu que nunca imaginei viver solta da barra da saia da minha mãe. Eu não sabia, mas naquele dia, eu estava sendo preparada para vida e para essa separação. Penso que foi tudo perfeito. Podia ter sido mais. Podia, claro. Mas foi como tinha que ser. Lembro também de sair do hospital após a notícia da sua morte e pensar que aquilo tudo era justo. A dor era tão insuportavelmente grande que eu não achava justo se fosse minha mãe que tivesse perdido alguma de suas filhas. Mãe nenhuma merece isso.

Durante esse um ano, percebi que só tinha uma saída: aproveitar o sofrimento e tirar a lição que ele vinha me trazer. São inúmeras. E tenho consciência que ainda tenho um percurso enorme a percorrer. Com a dor a gente aprende que estamos aqui para aprender, com a finalidade de evoluir como seres humanos. Pois tem limitação maior que a dor? Acredito que não. É na hora do sofrimento que nos vemos diante das nossas maiores dificuldades: a superação dos nossos limites, nossos problemas de relacionamentos, nossa falta de fé, nossa arrogância. Então são nesses momentos avassaladores que evoluímos como pessoas – espiritualmente, moral e até intelectualmente.

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Das lições que tirei estão: sempre tentar ver o copo meio cheio e não totalmente vazio. Ter um olhar positivo para a vida, principalmente ao acordar (pois é aquele tal negócio: todos os dias você pode escolher ser feliz ou resmungar). Sentir e ter gratidão.

Como usar a dor e o sofrimento a nosso favor?

Quando temos consciência da dor e do sofrimento, isso nos ajuda a desenvolver a capacidade para a empatia, a capacidade que permite que nos relacionemos com os sentimentos e o sofrimento das outras pessoas. Portanto, ao passar por dor e sofrimento, temos que pensar em ajudar outras pessoas. Devemos encontrar significado no sofrimento, porque isso nos ajuda a encará-lo. Mudar de perspectiva, nos tirar do plano de injustiçados, contribui para enxergamos algum significado no meio de tanta dor. Não podemos esquecer que a morte é uma mudança natural em nossas vidas. E vida é transformação. Aceitar essa mudança pode reduzir o sofrimento e nos fazer enxergar as coisas por outra perspectiva.

É claro que na teoria é tudo mais simples.

Dizem que para superarmos a morte de uma pessoa muito próxima, levamos dois anos. Sendo o primeiro ano o pior. Pra mim ainda é muito difícil toda essa transformação, mas sinto que aos poucos estou me desapegando dos aspectos negativos dessa perda irreparável. Uma das coisas que me ajuda muito, é lembrar da alegria de viver e otimismo da minha mãe. Um dos exercícios que faço toda vez que a tristeza aparece, é pensar que quero isso pra mim, aquela energia positiva que ela deixava. E, principalmente, é esse legado da avó que quero deixar para meus filhos.

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