25 fev 2014

Desfralde: o controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos

por
Gabi Miranda

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Há 6 meses quando iniciamos o desfralde do Benjamin, fiz uma série de posts dizendo como foi o processo por aqui, além de algumas dicas. Na época queria ter postado um texto que acho interessante, do livro “A Maternidade e o encontro com a própria sombra”, de Laura Gutman. A obra traz um capítulo inteiro dedicado ao que é prazer das crianças e censurado pelos adultos: o controle das esfíncteres (diurno e noturno), sucção (chupeta/dedo), o banho cotidiano nos primeiros meses, alimentação. A parte que eu queria compartilhar aqui era sobre o controle das esfíncteres. Não coloquei antes porque o livro foi encaixotado junto com outros e não o encontrava. Talvez um sinal, porque o livro caiu novamente em minha mão num momento que eu precisava resgatar outros assuntos, uns até relacionados nesse capítulo (alimentação), que comentei num post semana passada – exigências e alternativas na hora das refeições.

O texto a seguir é grande, até cortei alguns trechos que não interferem no entendimento e na mensagem que a autora quis transmitir. Mas acho que vale a pena ler até o final. É uma ótima reflexão para quem está (ou pretende entrar) na fase do desfralde. Talvez encontre nesse texto o estímulo que precisa para tomar (ou voltar atrás de) alguma decisão. Boa leitura, boa reflexão!

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 O controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos

A cultura ocidental impôs a exigência de que os esfíncteres passem a ser controlados ao redor dos dois anos de idade e com isso essa questão se transformou em um problema. Se os padrões culturais tivessem decidido que o ser humano deveria começar a andar ao redor dos 9 meses, o ato de caminhar também teria virado um problema, dando margem ao aparecimento de discussões e de várias teorias sobre como incentivar as crianças a aprender a andar, com a inevitável preocupação dos pais de crianças de 12 ou 14 meses que ainda não estivessem maduras para caminhar. Na realidade, sabemos por simples observação que, em média, o ser humano começa a andar com cerca de 1 ano.

Se observássemos sem preconceitos o processo natural de controle dos esfíncteres, ficaríamos diante da evidência de que as crianças humanas passam a realiza-lo depois dos 3 anos, algumas, inclusive, depois dos 3,5 anos, sobretudo quando se trata de meninos.

No entanto, os adultos vivem muito preocupados com esta questão. Não querem perder tempo. A criança diz “xixi” e acham imediatamente que está pronta. Diz “cocô” e acham que chegou a hora de se livrar de uma vez por todas das fraldas. E tiramos as fraldas! Isso significa que lhes arrebatamos o apoio, a proteção, a segurança, o contato, o cheiro, enfim, uma parte dela mesma, e, como se não bastasse, acreditando estar ajudando a criança a crescer!

A criança mal nomeou algo que começa a existir para ela. As sensações de prazer provocadas pela evacuação têm um nome específico que a criança aprendeu com a mãe e ela simplesmente repete esse nome. Avisa. Percebe. Retém. Expulsa. Aproveita.

Entre o reconhecimento de um funcionamento específico do próprio corpo e a maturidade neurobiológica para controlá-lo, é necessário um tempo, às vezes de um a dois anos!

Tirar as fraldas porque “chegou o verão”, decidir que, por já ter feito 2 anos, precisa aprender, são comportamentos violentos que indicam incompreensão da especificidade da criança pequena e da evolução presumível de seu processo de crescimento.

Cabe a perguntar por que os adultos ficam tão ansiosos e se preocupam tanto com a conquista dessa habilidade, que, como acontece com outros aspectos do desenvolvimento normal das crianças, será alcançada na hora adequada, ou seja, quando a criança estiver madura.

Não se aprende a controlar os esfíncteres por repetição, como acontece quando se trata de ler e escrever. A criança adquire o controle naturalmente, quando está pronta, assim como aprende a andar e a usar a linguagem verbal.

Sejamos claros: as mães vivem às voltas com o xixi que escapa das fraldas, as cuequinhas e os macacões molhados, os lençóis e os colchões ao sol, as montanhas de calças para lavar, e vão acumulando rancor, tédio e mau humor, sentimentos decorrentes do fato de acharem que seus filhos de veriam aprender a se controlar e da crença de que seriam capazes de fazê-lo quando completassem 2 anos. Por outro lado, se deixarem as crianças em paz, depois dos 3 anos, até mesmo perto dos 4 (não podemos esquecer que cada criança é diferente), um dia simplesmente elas estarão em condições de reconhecer, reter, esperar, administrar sua vontade de ir ao banheiro, sem trauma e sem fazer rodeios em torno daquilo de que se trata: adquirir autonomia para controlar os esfíncteres.

As crianças, para atender à demanda dos adultos, fazem grandes esforços para controlar seus esfíncteres, mas,  diante de qualquer dificuldade emocional – por menor que seja –, desabam pressionadas pelo esforço desmesurado e o xixi escapa. Depois vêm as interpretações: “está acabando com meu tempo”, “faz isso comigo de propósito”, “ele sabe se controlar, mas não quer”. Essas afirmações ampliam as frustrações de todos, assim como a irritação e a incomunicabilidade.

Entendo a pressão social sofrida pelas mães. Há jardins de infância que não admitem que crianças usando fraldas frequentem as turmas de 3 anos. Alguns pediatras, psicólogos e outros profissionais da saúde – além de sogras, vizinhos e amigos bem-intencionados – dão palpites e se escandalizam.

Ao exigirmos que as crianças resolvam situações que não estão em condições emocionais ou não têm maturidade para resolver, estamos criando um problema. Parece-me que os adultos tentam travar inconscientemente os processos naturais relacionados ao prazer. Amamentar a cada três hoeas, como se tenta impor, acaba tuída de seu aspecto prazeroso. Com o controle dos esfíncteres acontece algo parecido, uma vez que está ligado ao prazer de reter, aliviar, molhar, evacuar, sentir calor, umidade, suavidade. Faz parte de um processo de busca pessoal do prazer que remete às experiências mais íntimas da criança. De fato, muitos pais tem dificuldade de trocar fraldas sujas, uma vez que as crianças desejam permanecer em contato com a matéria fecal. Esta situação se aguça quando lhes tiramos as fraldas prematuramente.

O controle das esfíncteres é lento, como todos os outros processos relacionados à criação de um filho. É árduo para as mulheres transitar entre a velocidade do tempo em que vivem e a lentidão da criação.

No entanto, quando tentamos acelerar os processos, logo aparecem as regressões, que, definitivamente, tem o dom de curar, representam um voltar a viver.

Alguns pais questionam se não é uma contradição voltar a colocar as fraldas, uma vez que foi tomada a decisão de tirá-las. Na realidade, ao longo da vida tentamos e voltamos a tentar, e, sempre que é necessário e saudável, damos marcha ré. Mas basta dizer o seguinte à criança: “Achei que você estava pronta para controlar os esfíncteres, mas é óbvio que me enganei, porque você ainda não dá conta quando tem vontade de fazer xixi. Vou lhe colocar a fralda para que se sinta mais confortável; quando crescer um pouco, terá melhores condições de conseguir”. Não é mais que bom-senso. Às vezes as tensões são aliviadas e, finalmente, os esfíncteres começam a ser controlados. Caso contrário, o problema se agrava, as crianças crescem e o controle dos esfíncteres se torna uma questão complexa, daquelas que nunca acabam.

Naturalmente, as crianças de mais de cinco anos não fazem xixi apenas em decorrência da retirada precoce das fraldas. Há outros motivos. Em geral, são uma soma de problemas emocionais, mau funcionamento familiar, casos de violência explícita ou implícita, abandonos afetivos, etc. mas os casos mais comuns são resolvidos quando se permite às crianças que usem fraldas com tranquilidade durante um período mais prolongado.

Além do mais, fazer xixi não é o mesmo que fazer cocô. Muitas crianças controlam perfeitamente a urina querendo usar fralda quando se trata de fazer cocô. É importante que, em vez de nos guiar por nossas próprias opiniões, ofereçamos o que estão pedindo, mesmo sem compreender o que acontece. Temos algum motivo para dizer não?

Outra confusão comum é uma que aparece quando chega o verão. Basta o verão chegar e começam a pipocar os conselhos de que se deve aproveitar a oportunidade para suprimir as fraldas. Algumas mães comentam comigo que seu filho vai fazer 2 anos em junho e, portanto, se ela não aproveitar esse verão, o controle das esfíncteres será adiado para o verão seguinte. Toda essa confusão me parece ridícula; no entanto, é moeda corrente em meu consultório.

Espero humildemente, que um dia percebamos o nível da violência a que submetemos as crianças, pressionadas por exigências que não podem satisfazer e acabam se transformando em outros sintomas (angústias, terrores noturnos, choros desmedidos, doenças, apatia) – sintomas gerados pelos adultos sem perceber.

Acompanhar nossos filhos é aceitar os processos de amadurecimento e crescimento.

E, se sentimos que rejeitamos uma coisa ou outra, então devemos nos perguntar a respeito de nossas relações com nossos excrementos, nossos órgãos genitais e nossas regiões baixas, que nos produzem tanta aflição. Deixemos as crianças crescerem em paz. Um dia, quando o momento adequado chegar, controlarão seus esfíncteres, assim como um dia conseguiram se arrastar, engatinhar, caminhar, pular e movimentar habilmente as mãos. Não há nada a mudar – a não ser nossa própria visão.

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4 respostas para “Desfralde: o controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos”

  1. […] Leia também: O controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos […]

  2. Ju Lund disse:

    Era o que estava precisando ler☺

  3. Mi disse:

    Muito bom! Estava (angustiada) buscando informações sobre o desfralde tardio, já que minha pequena de 3 anos e 2 meses ainda apresenta muuuuita resistência para retirar as fraldas. Acalmei meu coração!! Obrigada por compartilhar esse texto que é excelente e muito esclarecedor.

    • http://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabi Miranda disse:

      Oi Michelle, fico feliz que o texto tenha te acalmado. Esse é um momento que requer muita paciência. Fica tranquila que tudo dará certo. Boa sorte!!!
      bjsss

  4. Cha disse:

    Lindo texto. Obrigada e parabéns

  5. […] Leia também: desfralde, o controle natural esfíncteres e o autoritarismo dos adultos […]

  6. Bossa Mãe disse:

    […] Não tem nada de manual. E pode ser lido de trás para frente, sem seguir uma ordem. Assuntos como desfralde ganham capítulo […]

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