21 jul 2014

Quando dei um passo para frente e decidi deixar meu autoritarismo de adulto de lado

Há 4 meses, Benjamin que já havia passado pelo processo de desfralde com sucesso, voltou a fazer xixi na cama. No início era uma vez ou outra, depois começou a ser algumas vezes, até que se tornou repetidamente, todos os dias – o que estava gerando um stress aqui em casa. (dá banho logo cedo, troca a roupa de cama, lava – e não basta jogar na máquina e pronto, tem que por de molho, lavar à mão com sabão de coco, depois por na máquina para bater- cheiro de xixi é uma praga! Até outro colchão compramos). Você acaba não dormindo direito e acorda todos os dias com aquela expectativa: será que está seco?!

Sejamos claros: as mães vivem às voltas com o xixi que escapa das fraldas, as cuequinhas e os macacões molhados, os lençóis e os colchões ao sol, as montanhas de calças para lavar, e vão acumulando rancor, tédio e mau humor, sentimentos decorrentes do fato de acharem que seus filhos deveriam aprender a se controlar e da crença de que seriam capazes de fazê-lo quando completassem 2 anos. (Laura Gutman)

Semana passada foi uma semana de  decisão: voltei com a fralda noturna no Benjamin. Doeu tomar essa decisão e doeu ainda mais quando meu filho aceitou de boa colocar a fralda (eu não imaginei que ele aceitaria). Era uma resposta para minhas perguntas dos últimos dias, Benjamin estava cansado de tanta pressão e expectativa em cima dele. Fui dormir péssima. Como eu deixei chegar nesse ponto?! Meu filho estava se sentindo inseguro em vários sentidos: passou a fazer xixi na cama, disse que estava com medo do escuro, pedia para dormir com a gente.

As crianças, para atender à demanda dos adultos, fazem grandes esforços para controlar seus esfíncteres, mas,  diante de qualquer dificuldade emocional – por menor que seja –, desabam pressionadas pelo esforço desmesurado e o xixi escapa. (Laura Gutman)

Conversamos com a pediatra e ela também indicou voltarmos com a fralda noturna, nos explicou que ele já tem o controle das esfíncteres e que essa é uma fase normal por todas as mudanças que passamos. É um fator psicológico. Minha prima Domi, psicóloga, falou a mesma coisa que a pediatra, ambas identificaram os mesmos aspectos dos últimos quatro meses:

1. Ausência da minha mãe que sempre foi muito presente na vida do meu Ben, o que acaba desorganizando a cabecinha dele. Quando a criança se depara com a morte, ela entende que as pessoas podem ir embora sem volta. Gera a insegurança e a falsa ideia de controle “se eu ficar perto dos meus pais eles não vão embora”.

2. Completar 3 anos. Benjamin já está numa fase que entende o conceito de quantidade, ou seja, ele fez 3 anos, 3 é maior que 2. Simbolicamente, o xixi na cama o mantém mais criança. E aí minha prima me alertou: eu não posso dizer para ele que fralda é coisa de bebê (como disse no primeiro dia que colocamos a fralda). Dizer isso só reforça negativamente.

3. Processo maturacional: Ele está mais preparado para compreender o mundo, o que deixa a criança mais insegura. Então, se ele tem medo de escuro, por exemplo, devo fazer como já tenho feito de deitar ao lado dele em sua cama, esperar ele dormir. Mesmo fazendo isso, ao acordar de madrugada ele acordava chorando ao ver que eu não estava mais lá. Dia desses perguntei porque ele acorda chorando e ele respondeu “porque você não estava comigo”. Cortou meu coração. Expliquei “Ben, a mamãe não vai embora, aqui na sua cama não cabe nós dois, quando você dorme eu vou para minha cama que é maior e está aqui do lado, então quando você acordar e não me ver aqui lembra que estou aqui no quarto ao lado, pode me chamar que eu venho”. Depois desse papo, ele não acordou mais gritando e chorando.

Naturalmente, as crianças não fazem xixi apenas em decorrência da retirada precoce das fraldas. Há outros motivos. Em geral, são uma soma de problemas emocionais, mau funcionamento familiar, casos de violência explícita ou implícita, abandonos afetivos, etc. mas os casos mais comuns são resolvidos quando se permite às crianças que usem fraldas com tranquilidade durante um período mais prolongado. (Laura Gutman)

Como bem lembrou minha prima: toda e qualquer teoria do desenvolvimento lida com hipóteses. Essas sãos as nossas. E cada criança é um universo e esse universo é regido pelos pais. Assim como meu Ben, eu também queria minha mãe perto de mim. Como é difícil ser mãe (e não tê-la por perto nos momentos de angustia). Eu meio que estava fazendo vistas grossas e deixando a vida me levar. E meu filho estava sofrendo as consequências do meu momento. Mas ele precisa de mim, estou aqui e preciso cuidar dele. Sou imperfeita, incompleta e não queria ser.

Espero humildemente, que um dia percebamos o nível da violência a que submetemos as crianças, pressionadas por exigências que não podem satisfazer e acabam se transformando em outros sintomas (angústias, terrores noturnos, choros desmedidos, doenças, apatia) – sintomas gerados pelos adultos sem perceber. (Laura Gutman)

Percebi que estava submetendo meu filho a essa tal violência, então optei pela fralda e por colocar meus olhos e o coração bem abertos só para ele, para ele ter certeza do quanto é grande meu amor por ele e que estarei sempre perto dele.

Posso garantir que essa já foi uma semana de tranquilidade. Não farei da fralda comodismo, temos prazo para tirá-la, mas com calma, sem pressa. Na noite que voltamos com a fralda, me senti uma bosta, era como se estivesse dando vários passos para trás, mas na verdade estava ouvindo meu coração e me descobri dando um passo largo e confiante para frente.

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0 resposta para “Quando dei um passo para frente e decidi deixar meu autoritarismo de adulto de lado”

  1. […] feito na base da negociação (aliás, negociação é outra coisa que tem me incomodado fazer, não quero ser autoritária, mas acho sinceramente que não devia existir acordos com crianças para algumas coisas). E parece […]

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