24 ago 2016

Janela, Janelinha

por
Gabi Miranda

Desenvolvimento, Destaque, Filhos

janela

Eu não sei o que acontece com as crianças, mas elas sempre querem tudo o que o amigo tem. E não falo só de brinquedos não. Entre elas rola uma certa competição amistosa para ser o maior, o mais velho, o mais rápido. Reparo quando Benjamin está com os amigos. É um tal de “mas eu já tenho 6 anos e você 5”, “tudo bem, mas eu sou mais alto que você”. E basta o dente de um cair, para todos entrarem na expectativa de ter a primeira janela na boca.

Já faz algum tempo que Benjamin pedia quase todo santo dia para nos certificarmos se tinha algum dente mole em sua boca. Não tinha. Até que um belo dia, apareceram dois dentes moles. Mas moles de um jeito imperceptível, daquele de fazer o menino ficar congelado, sem mover um músculo para percebermos algum mínimo movimento quando mexêssemos no dente. Estavam mais sólidos do que um prédio. Talvez para não desapontá-lo, confirmamos que tinham dois dentes moles, mas que ainda demoraria um tanto para cair. Até que há um mês e meio, um dente que estava firme, apareceu mais mole do que os outros que aparentemente estavam moles. Mas o dente estava tão mole que daquela vez tivemos certeza, em breve o Benjamin teria um sorriso banguela, sua primeira janela. Não sei, mas acho que de tanto ele desejar, o dente ficou mole – o mesmo que foi o primeiro a nascer.

O dente foi ficando rapidamente muito mole. Indicava que na festa de aniversário de 5 anos do menino, ele já estivesse com uma janela. Eu fui começando a ficar preocupada, pois estávamos de férias (eu e Ben) e comecei a pensar que o dente poderia cair na escola. A louca da mãe começou a dar conselhos do tipo “toma cuidado para não engolir o dente quando estiver na escola”. E já arquitetava uma estratégia para o menino não perder o primeiro dente de leite na escola. Escrevi mentalmente um bilhete para as professoras:

Querida (querida não, soa meio falsoEstimada professora, o Benjamin está com um dente mole. É seu PRIMEIRO dente mole! Imagina a nossa alegria. Quero pedir, encarecidamente, para que fique de olho para o dente não se perder por aí ou para o Ben não levar uma bolada na cara jogando futebol (como se a coitada da professora tivesse controle sobre isso), ou para o dente não parar no estômago da criança. Quero muito guardar o primeiro dentinho de leite do meu pequenoAss: a mãe maluca.

Reescrevi esse bilhete várias vezes. Tem que ser muito maluca pra enviar um bilhete para escola pedindo às professoras que fiquem de olho no dente mole do filho, né?!

Era final de um sábado, dia 23 de julho, e se minha mãe estivesse viva seria o aniversário de 62 anos dela. Era um daqueles dias em que a gente tenta não pensar muito nos acontecimentos tristes para não deixar a tristeza tomar conta, faz esforço para a saudade não corroer nossa alma. Benjamin pediu para comer um Alpino – único chocolate que ele come. Estou eu no computador quando ouço o pai falando “sabe o que é isso? <<<silêncio>>> Seu dente!”. A mãe maluca nada eufórica saiu correndo para ver. Quando ele abriu a boca me mostrando sua janela, fiquei tão, mas tão emocionada. Tentei me controlar e só demonstrar o tamanho da minha alegria diante daquele sorriso genuíno (com uma janela) do meu primogênito.

As lágrimas que segurei o dia todo escorreram na hora do banho. Dessa vez tinham um doce sabor de alegria e não o sabor amargo da saudade de quem se já se foi. Por um instante pensei que minha mãe poderia estar aqui. Quanta coisa sobre meus filhos gostaria de dividir com ela… é vida que segue. Sem palavras para descrever a emoção de compartilhar dessas primeiras vezes dos nossos filhos, que são nossas primeiras vezes também no papel de mãe.

Naquela noite convidei o Benjamin para dormir conosco. Ele não curte muito dormir na nossa cama, prefere o espaço dele. Até eu prefiro assim, mas naquele dia senti uma vontade incontrolável de dormir agarradinha com meu pequeno. E dormimos. Não antes que o pai, pois eu e o menino ficamos ansiosos falando sobre a novidade, sobre a volta às aulas e ele me dizendo que ia mostrar aos amigos e professoras sua janela. No dia seguinte, Benjamin acordou e a primeira coisa que fez foi olhar embaixo do meu travesseiro para ver se a Fada do Dente tinha lhe deixado algum presente. Não. Correu até sua cama e não encontrou nada lá. “Olha direito, Ben”, e então ele encontrou R$50. “Use com sabedoria”, aconselhamos. Como ele não é de doces, até porque se fosse, certeza que a Fada deixaria uma quantia menor, ele usou o dinheiro para comprar um super herói que queria muito.

Depois mostrei ao pequeno meu primeiro dente de leite e o da minha irmã Luana. Herança que ficou da minha mãe – que guardou nossos primeiros dentinhos e mandou fazer um pingente de ambos. Seguirei a mesma tradição. 😉

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Uma resposta para “Janela, Janelinha”

  1. Ai, Gabi… tô aqui emocionada também! Que lindo momento! Registro super válido.
    Ah! E adorei o bilhete mental para a professora (eu faço muito isso!) hehehe

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