27 jun 2016

O poder do discurso materno

O poder do discurso materno

As lembranças se organizam na consciência por meio de palavras, que quase sempre foram proferidas por nossa mãe. Assim, organizamos as lembranças do ponto de vista do discurso materno – que em geral está distante da nossa real experiência infantil – e acabamos por vestir certos personagens, atuando sempre da mesma forma na esperança de obter amor e aceitação. Quantas de nossas dificuldades afetivas, profissionais e familiares advém daí? – (O poder do discurso materno)

o poder do discurso materno

Tenho muitas opiniões sobre o livro de Laura Gutman: O poder do discurso materno. A autora me decepciona um pouco ao final da obra, quando fala sobre abuso sexual. Na verdade, a Laura me decepcionou na palestra que assisti recentemente, quando afirmou que a culpa dos abusos sexuais que algumas crianças sofrem, é da mãe. Mas não quero falar sobre isso nesse momento. Quero falar do aprendizado positivo do livro. Achei um pouco dolorido lê-lo porque nos reconecta com a nossa infância, com a criança que fomos, com os rótulos e personagens que ganhamos ao longo da vida. Por outro lado, essa conexão é importante para nos fazer enxergar o mundo e os nossos filhos a partir da nossa vivência.

Inconscientemente ou não, mal o bebê nasce e já o rotulamos. Nem conhecemos aquele ser indefeso que ficou 9 meses dentro da nossa barriga, que não sabe de nada desse mundo e já o colocamos num determinado grupo. O de chorão, por exemplo. O bebê chora sim, pois é o seu único meio de comunicação e ele busca conforto. Não podemos ignorar seu choro, muito menos rotulá-lo de chorão. Precisamos ficar atentos para não classificar as crianças entre chorona, brava, boazinha, manipuladora, danada, encapetada, bem dotada, etc. Esses rótulos marcam nossa personalidade e traz consequências para o bem ou para o mal, para a vida toda.

O conceito de Laura Gutman sobre o discurso materno nos alertar para as consequências do que falamos aos nossos filhos desde que nascem, pois carregamos em nossa personalidade tudo o que nos foi dito durante a infância para a vida adulta. O poder do discurso materno tem influência em todos os setores de nossa vida, inclusive, na cozinha, como bem exemplificou a jornalista Patricia Cerqueira e quem me presenteou com essa obra.

A leitura desse me trouxe outro olhar para o modo como falo com Benjamin e Stella. Eu devia ter lido ainda na gravidez da Stella e com certeza não a teria rotulado como fiz algumas vezes. Com relação ao Benjamin passei a reparar o quanto eu o rotulo e elogio – não que elogios não sejam bons, mas algumas vezes desnecessário, porque não precisamos elogiar nossos filhos a todo instante, muitas vezes até por coisas bobinhas. Mesmo os comentários positivos fazem moldar um personagem. Se parar pra pensar é difícil você não rotular. Às vezes queremos um filho bonzinho, mas na verdade basta ele ser uma boa pessoa (tem diferença). Educar e formar pessoas é um trabalho difícil! Vivemos procurando a melhor forma de fazê-lo, mas a verdade é que não existe fórmula pronta. O segredo, no meu ponto de vista, é encher o nosso discurso e os nossos atos, de muito amor e paciência.

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7 respostas para “O poder do discurso materno”

  1. Eu amo esse livro! Foi muito importante para mim… e sempre pego para ler uns trechinhos…
    bjs
    Lele

  2. Julia Costa disse:

    Gabi, eu amei esse livro! Muito porque ele reforça diversos pontos que me deparei enquanto fiz terapia, há pouco mais de um ano. É um grande processo de autoconhecimento, entender o que achamos que aconteceu, segundo o discurso materno, e tentar resgatar na memória o que realmente aconteceu durante nossa infância e até mesmo adolescência. Às vezes, contamos tanto uma história da maneira que lembramos dela (muitas vezes, da maneira como nos foi contada), que acabamos esquecendo detalhes da realidade… Enfim, eu adorei! 😉 Concordo com vc, não só na parte que ela fala sobre o abuso, como em diversas outras, a culpa é sempre da mãe… Na terapia era a mesma coisa. Saí quando comecei a ficar com raiva da minha mãe por causa disso. rs Adorei o post! Bjs

    • http://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabi Miranda disse:

      Ju, eu gostei muito também, mas achei meio dolorido. Sofrido ler esse livro quando minha mãe já nem está mais aqui. E eu nunca gostei de culpá-la por nada, sabe?! No final do livro já estava de bode, mas por conta do abuso sexual. Em resumo, acredito muito no poder do nosso discurso e lendo o livro também achei que é um processo de autoconhecimento. 😉

  3. Tenho algumas ressalvas com a autora também, mas não há dúvidas de que o discurso materno é poderoso.
    Sobre os rótulos que damos/dão aos nossos filhos, tenho uma história: a primeira coisa que a enfermeira que acompanhou o parto do Vinicius me disse foi que ele era brabo. Nossa! Odiei ela na mesma hora!
    Contei essa história aqui: http://somelhora.com.br/index.php/2015/09/24/o-milagre-poesia-e-o-nascimento-de-um-filho/ (não sei se já visse).

    • http://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabi Miranda disse:

      Ta,
      também não tenho dúvida do poder do nosso discurso. Por isso temos que nos policiar e tomar cuidado o tempo todo.
      Sabe que na maternidade disseram o mesmo do Benjamin. Eu fiquei puta e ele não era bravo nada. Nunca foi.
      Já eu falo isso da Stella e desde que comecei a ler o livro comecei a me policiar para não falar.
      Todo mundo falou isso de mim a vida toda, inclusiva minha mãe. Então, adivinha o resultado do meu personagem, né….rs
      Vou lá ver seu post.
      beijos

  4. patricegu disse:

    Gabis,
    Eu gosto muito desse livro da Laura. Acho até que tenho de reler ele para voltar a exercitar as conclusões apressadas sobre os meninos, pois tendo a concordar com a autora sobre o quanto o discurso materno nos influencia. Até hoje, por exemplo, não chego perto de caju porque minha mãe disse que era uma fruta ruim. Olha que poder!
    Beijos

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