15 ago 2016

Por que o bebê chora quando você sai do quarto?

por
Gabi Miranda

Bebê, Destaque, Filhos, Livros, Puericultura

Porque o bebê chora quando você sai do quarto?

 

por que o bebê chora

Imagem do Google

Do livro Bésame Mucho – Como criar seus filhos com amor
Dr. Carlos González

O imediatismo é uma das características do choro infantil que assombra e irrita algumas pessoas. “É deixá-lo no berço e ele começa a chorar como se o estivessem matando”. Para alguns especialistas em educação, essa é uma desagradável faceta da personalidade infantil, e o objetivo deve ser vencer o seu “egoísmo” e a sua “obstinação”, ensiná-los a atrasar a satisfação dos seus desejos. Por que não pode ter um pouco mais de paciência, por que não pode esperar um pouco mais?

Nossos filhos pequenos começam a chorar com todas as suas forças quando se separam da mãe. Choram ainda mais forte em cinco minutos e somente param de chorar por esgotamento. Não parece lógico! Mas, sim, é lógico. Começar a chorar de maneira imediata é o comportamento “lógico”, o comportamento adaptativo, o comportamento que a seleção natural favoreceu durante milhões de anos, porque facilita a sobrevivência do indivíduo. Naquela tribo de 100.ooo anos atrás, se um bebê separado de uma mãe chorasse de forma imediata e com toda a potência do seu pulmão, sua mãe provavelmente voltaria imediatamente para pegá-lo. Porque essa mãe não tinha cultura, nem religião, nem conhecia os conceitos de “bem, “caridade”, “dever” ou “justiça”. Não cuidava de seu filho porque pensava que era sua obrigação, nem porque tinha medo da prisão ou do inferno. O choro do bebê simplesmente desencadeava nela um impulso forte, irresistível, de acudi-lo e acalmá-lo.

E, se pensarmos um pouco, veremos que esse comportamento que parece “lógico” e “racional” diante da separação da pessoa amada, esperar um tempo e ficar nervoso pouco a pouco, semente temos nós, os adultos, quando esperamos com confiança o regresso do ausente. Imagine que sua filha de 15 anos está na escola. Durante o horário escolar você não se preocupa nem um pouco com essa separação porque sabe perfeitamente onde ela está e quando voltará (será que seu filho de dois anos sabe aonde você está e quando voltará? Mesmo que lhe expliquem ele não pode entender!). Se passarem 30 minutos da hora em que ela costuma voltar para casa, será fácil descartar seus primeiros temores (o ônibus deve ter atrasado, ela deve estar falando com os amigos, etc…). Se ela demora mais de uma hora você começa a ficar nervosa. Se ela demora duas ou três horas, você começaráa a ligar para as amigas dela para ver se ela está na casa de alguém. Se em cinco horas você não tem notícias, estará chorando e ligando para os hospitais, para saber se ela foi atropelada. Depois de 12 horas você vai chorar ainda mais e vai procurar a polícia.

Mas imagine agora que você tem uma forte discussão com sua filha de 15 anos na qual são proferidas amargas reprovações e graves insultos, e finalmente ela mete umas roupas em uma mochila e grita: “te odeio, odeio vocês, estou cheia dessa família, vou embora pra sempre, não quero te ver nunca mais na vida…” e sai batendo a porta. Quantas horas você vai esperar, alegre e despreocupada, antes de começar a chorar? Não começara a chorar antes mesmo que ela saia de casa, não a seguirá pelas escadas, não correrá atrás dela pela rua, não tentará agarrá-la sem medo de dar um show na frente de todos os vizinhos, não se ajoelhará os seus pés e lhe suplicará, não continuará até que o esgotamento a impeça de seguir correndo? Você acha que esse comportamento seria “infantil” ou “egoísta” da sua parte? Você acha que escutaria os vizinhos comentando: “veja que mãe mais mal-educada, não faz nem cinco minutos que a filha saiu e ela já está chorando como uma histérica. Com certeza ela está fazendo isso para chamar a atenção”?

Sim, é fácil ser paciente quando você está convencido de que a pessoa amada voltará. Mas você não será tão paciente quando tiver dúvidas a esse respeito. E quando tiver certeza absoluta de que a pessoa amada não pensa em voltar, não será nem um pouco paciente. Você não tem que esperar 15 anos para viver uma cena assim. Sua filha já se comporta assim agora, cada vez que você sai. Porque ela ainda é pequena demais para saber se você vai voltar ou não, ou quando vai voltar, ou se estará perto ou longe enquanto isso. E, por precaução, seu comportamento automático, instintivo, o que herdou dos seus antepassados ao longo de milhares de anos, será comportar-se sempre como se estivesse acontecendo o pior. Cada vez que se separar de você, sua filha chorará como se você tivesse ido embora para sempre (e o que dizer das mães que tentam “tranquilizar” os filhos com frases do tipo “se você não for bonzinho a mamãe vai embora”, “se você não se comportar a mamãe não vai gostar de você”?).

Em três, quatro, cinco anos, à medida que vá compreendendo que a sua mãe voltará, sua filha poderá esperar cada vez mais tranquila e por cada vez mais tempo. Mas isso não será porque ela é “menos egoísta” nem “mais compreensiva”, e muito menos porque você, seguindo os conselhos de algum livro, a “ensinou a prorrogar a satisfação dos seus caprichos”.

Os recém-nascidos precisam de contato físico. Foi comprovado experimentalmente que, durante a primeira hora depois do parto, os que estão no berço choram dez vezes mais que s que estão no colo da mãe.

Quando você deixa seu filho no berço, sabe que ele não vai passar fio nem calor, que o teto o protege da chuva e as paredes do vento, que nem os lobos  nem os ratos o devorarão, nem as formigas o picarão. Você sabe que estará a poucos metros, no quarto ao lado, e que poderá atendê-lo rapidamente no caso de qualquer problema. Mas seu filho não sabe disso. Não tem como sabê-lo. Ele vai reagir exatamente como reagiria um bebê paleolítico na mesma situação. Não é porque ele tem medo dos lobos, ele sequer sabe que os lobos existem. O que ele tem é pânico de ficar sozinho. O seu choro não é uma reação a um perigo real, mas sim a uma situação, a separação, que durante milênios significou invariavelmente perigo. Os bebês choram quando estão sozinhos, haja lobos ou não.

É verdade que existem diferentes níveis no comportamento dos bebês, que alguns choram desesperadamente diante da mínima separação enquanto outros se queixam pouco ou quase nada. No recém-nascido as diferenças se devem aos genes. Umas semanas depois, o ambiente e as experiências vividas já começam a interagir com a base genética e a mudar o comportamento do bebê (os bebês ocidentais, que passam muito tempo no berço, choram muito mais do que os de outras culturas, que passam a maior parte de tempo no colo).

À medida que vai crescendo, seu filho irá aprendendo a distinguir em que casos a separação implica um perigo real e em que casos ela não tem importância. Poderá ficar tranquilamente em casa enquanto você vai às compras, mas cairá no choro se fica perdido no supermercado e pensa que você pode ter voltado para casa sem ele…

O choro não serviria para nada se a mãe também não estivesse geneticamente preparada para responder a ele. O choro de um bebê é um dos sons que provocam uma reação mais intensa em um adulto humano. A mãe, o pai e até mesmo os estranhos sentem-se comovidos, preocupados, angustiados. Sentem o desejo imediato de fazer alguma coisa para que o choro pare. Dar o peito, passear com ele, trocar a fralda, pegá-lo no colo, colocar mais roupa, tirar a roupa… Seja o que for, mas que se cale. Se o choro é especialmente intenso e contínuo, os pais o levarão ao hospital (e muitas vezes com bons motivos).

Quando é impossível calar um choro, nossa própria impotência pode converter-se em irritação. É o que acontece quando se escuta um choro na casa se um vizinho: as convenções sociais nos impedem de intervir, e por isso é particularmente incômodo (“mas o que é que esses pais estão pensando? Eles não vão fazer nada”, “Esse bebê é um malcriado, os nossos nunca choram assim!”). Muitos vizinhos criticam pelas costas ou até repreendem diretamente as mães cujos filhos choram “demais”, e alguns chegam a bater na porta para protestar. Eu já escutei de mães ais de uma vez: “O doutor e disse que deveria deixá-lo chorar porque ele está me fazendo de boba, mas não posso fazer isso porque os vizinhos reclamam”. Com a mesma intensidade sonora, um bebê que chora no edifício é mais incomodo que um pedreiro dando marteladas ou um adolescente escutando rock pesado.

Quando as regras absurdas de alguns especialistas impedem que os pais respondam ao choro da forma mais eficaz (pegando o bebê no colo, ninando-o, cantando para ele, dando peito…), que saída resta? Você pode deixá-lo chorar e tentar ver televisão, fazer comida, ler um livro ou conversar com seu companheiro enquanto ouve o choro agudo, contínuo e pungente do seu próprio filho, um choro que ultrapassa as paredes finas das casas modernas e que pode durar 5, 10, 30 ou 90 minutos. E quando ele começar a fazer barulhos angustiantes, como se estivesse vomitando ou perdendo o ar? E quando parar de chorar tão subitamente que, longe de ser um alívio, você o imagina sem respirar, ficando branco depois azul? Será que aí então os pais estão autorizados a correr até o filho, ou isso seria “recompensá-lo pelo seu chilique” e também foi proibido?

A outra opção é tentar acalmá-lo, mas sem pegá-lo no colo, cantar para ele nem dar o peito. Por que não fazer isso também com as mãos amarradas às costas, para que seja mais difícil? Ou ligar o rádio, rezar, oferecer-lhe dinheiro? Um especialista, o dr. Estivill, propõe que lhe digam (de uma distância superior a um metro, para que ele não possa tocá-la) o seguinte:

“Meu amor, mamãe e papai te amam muito e estão te ensinando a dormir. Dorme aqui com o Joãozinho, o pôster, a chupeta…e até amanhã”.

Palavras de consolo e amor verdadeiro que sem dúvida inspirarão calma e sossego na alma de qualquer bebê, seja qual for a causa do seu choro, a partir dos seis meses! (É claro que Joãozinho é um boneco. Não pensem nem por um momento que um ser humano o faz companhia) Entretanto, talvez nem mesmo o autor cofie muito na eficácia calante dessas palavras, pois adverte os pais que, uma vez pronunciadas, voltem a sair do quarto, mesmo que o bebê continue chorando ou gritando (o mal agradecido!).

No nosso país, como em muitos outros, os maus tratos são um problema cada vez maior. Dezenas de bebês morrem a cada no nas mãos de seus próprios pais, e muitos sofrem hematomas, fraturas, queimaduras… A pobreza, o álcool e outras drogas, o desemprego e a marginalidade estão sem dúvida entre as causas profundas dos maus tratos. Mas também é necessário que haja um gatilho. Por que bateram nesse bebê hoje e, não ontem? O choro é um gatilho frequente. “Chorava, chorava, até que eu não pude mais suportar.” O que os pais podem fazer quando tudo o que serve para acalmar o choro dos bebês (peito, colo, cantigas, mimos) é proibido?

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2 respostas para “Por que o bebê chora quando você sai do quarto?”

  1. Patricia disse:

    Realmente absurdo não poder consolar seu bebe … Eu não deixo meu bebe chorando , logo que começa já corro para acolhe-la.

  2. Nossa é muito difícil quando eles choram… Amei o post Gabis…
    Bjs
    Kah

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