19 nov 2013

Qual o segredo dos pais franceses? (parte 2)

por
Gabi Miranda

Livros

As mães francesas não se importam com o tipo de parto que terão. “Na França, o modo como você dá à luz não insere você em um sistema de valores nem define o tipo de mãe que você será. É, de um modo geral, um meio de tirar o bebê em segurança do útero e colocar em seus braços.” Acho interessante esse ponto de vista quando penso o quanto as mães de parto cesárea são “condenadas” por sua escolha. É claro que tem casos e casos. Tem as mães que marcam mesmo o parto como se fossem no salão de beleza. Tem as mães que simplesmente sentem medo.  As que não tem conhecimento nenhum sobre o assunto. E tem aquelas que precisam fazer cesárea por necessidade, que foi inclusive o meu caso, e preferem sentir a certeza de que logo estará com o bebê em seu colo e em segurança.

Bebês/crianças franceses são alimentados em horários certos. Existe um planejamento para as refeições, logo as crianças não comem fora de horário. Os finais de semana aqui em casa são tão irregulares que cheguei até a sentir vergonha disso. Mas o que mais me chamou a atenção nessa área é que, na França, não existe frescura na alimentação. Logo que introduzem os alimentos na vida dos bebês, os fazem experimentar todos os alimentos, numa variedade invejável e, detalhe, não começam a alimentação do bebê com grãos sem gosto, sabor e cor.

Mesmo depois já maiores, as crianças são incentivadas a pelo menos experimentar o alimento. Só se não gostarem, podem deixar de lado. As refeições são sempre feitas à mesa. (nada de comer no sofá, em frente à televisão ou fazendo qualquer outra coisa). E as crianças só saem da mesa após terem comido tudo ou se não comerem, após todos terminarem de comer. Para eles não existe “comida de criança” e a variedade é fundamental.

Os pais franceses demonstram autoridade e tem limites firmes. Acreditam que é ruim ceder aos caprichos das crianças e que ceder desperta um ciclo perigoso e também vicioso. Ou seja, se ela esperneia um pouco e os pais logo atendem a um pedido, elas aprendem a não esperar, pois o grito e seu mal comportamento estão sendo recompensados. Falam muito em cadre, que significa que as crianças tem limites firmes. Dentro desses limites, as crianças tem muita liberdade, mas sabendo que não podem fazer tudo o que querem. O psicólogo francês Didier Pleux diz que é preciso respeitar os gostos da criança, os ritmos e sua individualidade. “Mas a criança precisa aprender desde cedo que não está sozinha no mundo e que tem uma hora para tudo”.

E aí entra também a questão de aprender a ter paciência. Segundo o livro, uma criança que consegue brincar sozinha pode usar a capacidade de esperar quando a mãe está ao telefone, por exemplo. Inclusive, as mães francesas acreditam ser importante a criança saber brincar sozinha. E isso requer que os pais não interrompam quando a criança estiver fazendo isso. Dizem também que as mães que interrompem a criança que está ocupada, distraída com alguma coisa sozinha, sem ser solicitada, está estragando a experiência da criança com o mundo. Tem que tomar cuidado para não sufocar e ao mesmo tempo não ser ausente.

Na França, as creches e escolas públicas são as melhores e é preciso entrar numa lista de espera. A creches pregam e incentivam a socialização e o despertar. E as mães francesas acham que seus filhos estão mais seguros com os profissionais da creche, do que sozinhos em casa com um cuidador “estranho”. Os pais franceses estão mais preocupados se os filhos estão felizes na creche do que com o desenvolvimento cognitivo.

Os pais franceses, principalmente as mães, não deixam a vida de lado por conta dos filhos. Elas sempre são lembradas que tem vida própria. Isso significa não abdicar de outros papéis que desempenham, não são apenas mães, mas são mulheres com desejos, trabalho, sexo e vida social. A vida sexual, por exemplo, não é deixada de lado jamais. O filho não invade o espaço dos pais, assim como os pais precisam também dar espaço ao filho. Não quer dizer que sejam menos mães, mas que também pensam em coisas não relacionadas com os filhos e que prezam momentos de liberdade sem culpa. Pensam também que ser mãe em tempo integral tem sim a vantagem de não perder o crescimento dos filhos, mas traz isolamento e solidão. Tentam então, buscar um equilíbrio.

Dizer bonjour é primordial, as crianças devem fazer isso. Mas não são obrigadas a cumprimentar quando vão à casa de alguém. E as pessoas não devem se incomodar com isso. Eu gosto da ideia de não ser obrigado a cumprimentar, pois acho chato pra caramba pais que ficam obrigando a criança dizer ‘”oi”, dar beijo, etc. Fica chato tanto para os pais quanto para a outra parte adulta que acaba ficando constrangida com a situação. Lembro que minha mãe fazia isso o tempo todo e eu achava um saco. Quando tive Benjamin fiz um acordo comigo de que não o forçaria a isso. Considero-me uma mãe de sorte, pois, por enquanto, Benjamin cumprimenta as pessoas espontaneamente.

Alguns acreditam que o jeito francês de criar os filhos é rigoroso demais. No entanto, não foi essa impressão que tive ao ler esse livro. Os pais franceses tem sim autoridade, só que de uma forma fácil que eu e nem outros pais que já observei tem. Para eles não existe a síndrome do “filho rei”. São os pais que decidem sempre. É claro para eles que as crianças devem entender que não são o centro das atenções, que o mundo não gira ao redor do umbigo deles. Estão a todo instante conversando com os filho, estabelecendo os limites, ensinando o que é aceitável e o que não é.

E sempre de igual para igual, os pais não demonstram serem o donos da verdade e explicam a razão de não poder fazer certas coisas. Não se incomodam tanto com pequenos atos de desobediência, pois acham que faz parte da infância e porque acham que se todo mau comportamento é tratado no mesmo nível, a criança nunca vai saber o que é verdadeiramente importante. Não proíbem a todo instante. São autoritários, mas autorizam as crianças fazerem certas coisas. O ponto é impor limites, mas construir cumplicidade e “se adaptar ao que a situação exigir”. Pais franceses não gritam com as crianças, conversam em tom de voz normal, mas firme e quando necessário usam les gros yeux” – que significa “os grandes olhos”. Ao ler sobre isso, lembro-me do quanto minha mãe usou les gros yeux e me dou conta de que já uso com Benjamin.

Tive alguns aprendizados com essa leitura, mas o maior, acho que foi sobre dar autonomia e liberdade às crianças. Os pais franceses sabem dosar esses dois ingredientes e deixam que a criança viva a vida dela. Eles protegem as crianças, mas não as controlam demasiadamente e não se cobram a todo instante para serem pais perfeitos. Talvez, esse seja o segredo deles.

A educação, na França, é guiada na prática por muitos conceitos da psicanalista francesa Françoise Dolto.

O livro é cheio de comparações do modo americano de criar filhos (que me pareceu bastante com o modo brasileiro) com o francês. Assim como a autora do livro Pamela Druckerman, passei a admirar o modo francês de criar os filhos. Gostei muito do livro e indico a leitura.

Qual o segredo dos pais franceses (parte 2)

 

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Uma resposta para “Qual o segredo dos pais franceses? (parte 2)”

  1. […] ler. Eu já tinha lido “Crianças francesas não fazem manha” (e falei do livro AQUI e AQUI, da mesma autora, a jornalista Pamela Druckerman). Quem conhece, sabe que ela foi morar na França […]

  2. Opi Matoaka disse:

    Adorei este post. Tinha acabado de escrever sobre a inserção de alimentos da família para a minha bebê de 8 meses e confesso que estava me sentindo um pouco receosa e precipitada, por ter tomado esta decisão por conta própria. Me identifiquei com muitas destas dicas, com esta forma mais natural de lidar com o bebê. Tenho tentado seguir algumas tradições indígenas para cuidar das crianças, acreditando que seja um meio menos afetado e capitalista. Mas percebo que muitas destas atitudes se comparam no interior da Amazônia ou lá do outro lado, na França.

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