05 nov 2014

Tem coisas que só a nossa mãe faz

por
Gabi Miranda

Família, Filhos, Maternidade

Outro dia, li a coluna “Travessuras de Mãe”, de Denise Fraga, na revista Crescer, onde ela comentava que um colega de trabalho, durante o inverno, era acordado pela mãe, com uma caneca de leite quente ainda na cama. Ele terminava o relato assim: esta memória é fundamental para minha existência. E aí Denise fala que na mesma hora sentiu como um golpe. A cupa de mãe. Pois nunca acordou seus filhos com caneca de leite ainda na cama. A diferença entre a mãe do colega e ela: a primeira não trabalhava fora e ela sim.

nossa mãe

Adoro a Denise, adoro todos os textos dela que leio, inclusive, adorei esse, que me fez lembrar da minha mãe e reafirmar a mãe que eu quero ser. Mas acho que não é desculpa o fator trabalhar fora, para esse tipo de ato (acordar o filho com canequinha de leite) ainda não ter acontecido. Minha mãe trabalhou fora desde que me conheço por gente, tinha dois empregos, afinal nunca foi fácil criar duas filhas sozinha. Saía cedo de casa e chegava com o dia acabando – sempre por volta das 23:30.

Ela não foi o tipo de mãe que costurava um botão nas nossas roupas, não as passava com maestria, não cozinhava como a minha avó, não fez um sapatinho de crochê para o neto e, creio, nem pra mim ou para minha irmã. Mas desempenhava seu papel de mãe e, posteriormente avó, com excelência, de um jeito que só a nossa mãe é capaz.

Todos os dias, religiosamente, minha mãe acordava a minha irmã com a tal caneca de leite quente, ainda na cama. Vi essa cena se repetir até o dia em que saí de casa para morar sozinha, aos 20 e poucos anos. O leitor deve estar se perguntando: pra você ela não levava leite? Nunca gostei de leite, mas minha mãe me recompensava de outras formas. Ela me acordava (de um jeito carinhosamente só dela) todos os dias para ir à escola. E depois ao trabalho, mesmo não sendo a hora que ela levantava. Montava o meu prato de comida, todas as noites, quando eu voltava da faculdade.

Muitas vezes eu chegava e ela estava dormindo no sofá a minha espera. Fazia questão de levantar e fazer meu prato. Ela preparava a minha comida preferida toda vez que eu pedia, mesmo já não morando juntas. Ela sempre soube o que me dizer para levantar meu ânimo. (eu com a arrogância que só os filhos possuem, nunca dei o valor merecido e nunca tinha dado conta do quanto isso me faria falta). Minha mãe sempre estava preparada para me confortar num abraço.

Não acordo Benjamin com a mamadeira ainda na cama, pouquíssimas vezes faço isso – tarefa que marido herdou naturalmente. Primeiro porque ambos já sabem que eu preciso dormir sempre mais um pouco. Segundo, acredito que seja porque ele é o que tem horário mais cedo para chegar no trabalho, então acorda primeiro. Sendo ainda mais sincera, até o leite noturno, é marido quem esquenta e leva na cama para o pequeno. Aí não tenho desculpa.

Outro dia mesmo fui cobrada pelo Benjamin “você nunca faz o meu leite, mamãe”. Não senti culpa, mas na mesma hora levantei e tomei a iniciativa de fazer. Já tinha lido a coluna da Denise sobre o leite quentinho na cama. E, confesso, mesmo achando a minha irmã uma folgada, eu achava o máximo ver minha mãe fazendo isso por ela. Porque tem coisas que só a mãe faz.

Dessa culpa materna não sofro. Porque sei que Benjamin pode ter a memória da mãe que não preparava o leite dele. Mas terá a lembrança de várias outras coisas que a mãe fazia por ele e que ninguém nunca fará igual. Como cantar (mesmo com a voz de taquara rachada) pra ele na hora de dormir, o cafuné, a festinha nas costas (passar as pontinhas dos dedos), o abraço, a compreensão e tantas outras coisas que só a nossa mãe faz, como voltar o caminho para buscar algo que o filho esqueceu, largar tudo no meio do trabalho para ir buscar o filho que está com febre na escola, comprar um casaco porque esqueceu de mandar um na mochila da escola, ficar acordada ao lado da cama porque o filho está ardendo em febre, Et cetera…

E por isso, depois que Benjamin nasceu, desenvolvi o medo de morrer, porque eu sei que não existe no mundo, alguém capaz de fazer por ele o que eu faria.

Ao ler essa afirmação do colega de Denise, pensei na minha irmã e no quanto essa memória deve ser fundamental para ela agora. Do quanto várias outras são essenciais para nós duas. Do quanto será na vida do Benjamin, através do meu desempenho como mãe. Do quanto nós mães somos melhores em algumas coisas e outras não. Trabalhando fora ou não.

Envio um recado à querida Denise, ainda dá tempo:

acorde, pelo menos uma vez, seus filhos com a canequinha de leite quente ainda na cama. Você pode fazer isso e ser a mãe que trabalha fora. Fazendo isso ou não, nunca duvide da sua performance como mãe. Só a nossa mãe tem habilidades que nenhuma outra pessoa terá. E tem coisas, repito, que só a nossa mãe faz por nós. 😉

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Uma resposta para “Tem coisas que só a nossa mãe faz”

  1. […] triste,  é nunca mais poder comer a comida de alguém que amamos, como sempre dizem minhas amigas Bossa Mãe e Fabiana […]

  2. Lele disse:

    Cada um tem as suas memórias fundamentais ne?
    Eu tenho muitas, da minha mãe me colocando pra dormir já adulta e do meu pai me acordando “sutilmente” para ir para a escola…
    beijos
    Le

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