02 abr 2014

Um lugar na janela

por
Gabi Miranda

Livros

Nenhuma viagem é igual; nenhum viajante, idem…Muitas pessoas consideram viajar uma fuga. Pra mim, é encontro”. (Martha Medeiros, em Um Lugar na Janela)

Sempre fui uma pessoa de fazer planos. Minha vida sempre foi muito planejada: conseguir um emprego, juntar dinheiro, casar, ter um filho aos 30, nas férias fazer uma viagem e assim por diante. Acho que nunca estive aberta para imprevistos e, hoje sem dúvida nenhuma, sei que é preciso estar.

Em janeiro marquei minhas férias. Março. Um mês antes de sair de féria fechamos o destino. Cartagena, Colômbia. Duas semanas antes da viagem O imprevisto aconteceu  em nossas vidas. A morte da minha mãe. Pensamos em cancelar a viagem, mas diante de tantos “vai ser bom para você viajar”, viajei ou… fugi.

Nenhuma viagem é igual, mas essa foi uma fuga, uma tentativa de esquecer a realidade. Não esqueci. É algo impossível. Todos os dias e todas as noites revivi mentalmente tudo o que aconteceu do dia 10 ao dia 12 de março.

Acredito que toda viagem muda algo dentro de nós. Eu já fui para essa um pouco mudada. Descobri-me outra pessoa na tristeza. Desde a madrugada do dia 11, eu choro e quando não saem lágrimas, estou explodindo por dentro. Eu grito, esperneio, bato o pé que nem criança, dou muitas porradas, saltos mortais, brigo com Deus e até com a minha mãe. O inferno está dentro de mim. Ninguém desconfia. Quem vê por fora, acha até que estou bem.

Cartagena foi mais um dos lugares que sonhei ir. Mas não foi a viagem da minha vida. Aprendi mais uma lição: não posso fazer tantos planos. A vida tem que ser vivida um dia de cada vez e da melhor forma que eu poderia viver. Lição que minha mãe tentou me transmitir a vida inteira.

Mas a viagem serviu para refletir muito sobre essa reviravolta que minha vida deu. É difícil aceitar e acreditar, mas tento fazer um exercício: me apegar em como minha mãe vivia e enxergava as coisas. Na sua alegria, na sua forma positiva em ver tudo que acontecia – seu nome é Salete, mas ela era muito parecida com a personagem Polyana – , na fé que tinha. Quero manter viva a melhor parte de mim, em mim. Pelo meu filho, pela minha irmã e por mim. Essa será a minha salvação.

É o começo de uma nova jornada. Uma vida que não escolhi, totalmente diferente do que já foi um dia e, infelizmente, não tem como ser diferente – a morte é a única coisa inexorável.  Preciso pegar um lugar na janela, segurar na mão das pessoas que tenho ao lado e aprender a viver essa nova caminhada.

Sem título-1

“Ah, em mim toda está doendo largar o que me era o mundo. Largar é uma atitude tão áspera e agressiva que a pessoa que abrisse a boca para falar em largar deveria ser presa e mantida incomunicável – eu mesma prefiro me considerar temporariamente fora de mim, a ter a coragem de achar que tudo isso é uma verdade”. (Clarice Lispector)

Leia aqui: como perdi a melhor parte de mim

 

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Uma resposta para “Um lugar na janela”

  1. Oi Gabi, faz tempo que não comento por aqui, mas tenho acompanhado tudo pelo Facebook!
    Sinta-se abraçada. Tenho pensado muito em você, na sua perda, me coloco na sua situação e acho que ficaria assim também, sem chão. Acho que só fui me dar conta que um dia perderia a minha mãe, quando perdi a minha avó, desde então tenho procurado ser grata e dizer que amo sempre que possível, pois a gente nunca sabe o dia de amanhã, como ela mesma diz “essa é uma dor que nunca sara, a gente apenas aprende a conviver com ela”. Muita, mas muita mesmo, força pra você! 🙂

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