24 jan 2013

Vende-se essa casa

por
Gabi Miranda

Terapia do lar

(Esse post vai ser grande, pode ser lido em doses homeopáticas)

Era uma vez…

Sempre morei de aluguel, não por essa ser a minha maior aspiração. Em minha existência de 30 anos, morei em 5 casas. Foram períodos bem longos em duas delas, sendo que nas três primeiras foi com minha mãe e minha irmã. Uma das maiores lembranças da minha vida é o dia em que chegamos (eu e minha mãe) na primeira casa. Antes, pelo que entendo das lembranças, morávamos de favor na casa de parentes de 2º grau da minha mãe. Minha irmã, bem pequena, ficou nessa casa enquanto eu e minha mãe passamos a primeira noite na casa nova, só nossa, da minha mãe.

Era a maior conquista dela…

Conseguir alugar uma casa para morar com suas filhas, construir sua vida. A casa até era espaçosa: dois quartos, sala, cozinha, banheiro (que ficava na parte externa) e um quintal. Não tínhamos nada, nenhum móvel, eletrodoméstico, utensílio, NA-DA! Acompanhou-nos apenas um colchão de casal – onde dormimos a primeira noite e o eco das nossas vozes e dos nossos passos. Compreendi o motivo da Luana, minha irmã, tão pequena, não estar ali com a gente.

Eu vi aquela casa ganhar forma, personalidade, cores, vida.

Lembro da chegada do armário (azul claro) da cozinha, a geladeira, a mesa, o barzinho, a cadeira de balanço, nossas camas, a piscina de plástico… Vi aquela casa construir sonhos e memórias. Ali presenciei minha mãe tomando coragem e seguindo a orientação do médico “mãe, isso é frescura, manha de criança, quando sua filha fizer isso novamente faça o que lhe digo que passa rapidinho”. E não é que depois de ter a enfiado na água fria do tanque, minha irmã nunca mais chorou prendendo a respiração até ficar roxa, como era de costume, deixando minha mãe apavorada achando que a menina ia morrer.

Chorei a morte da Xuxa – minha primeira cachorra, quando a encontrei morta envenenada em nosso quintal. Chorei quando num Natal não encontrava meu presente, pensando que Papai Noel tivesse me esquecido. Foi naquela casa que começou a construção das minhas memórias. É de lá que guardo as primeiras fotografias de um tempo que passou assim, num piscar de olhos.

 Vende-se essa casa

Tinha muito amor naquele lugar

Mesmo sendo uma casa alugada, minha mãe sempre cuidou com afinco, amor, como se fosse dela. Nunca agiu como se não fosse, nunca sentiu peso. A segunda casa, antes de morarmos nela, TO-DA VEZ que passávamos em frente, minha mãe profetizava “essa casa vai ser minha, vamos morar nela”. Assim foi, moramos nela por 14 anos. E foi como vi minha mãe fazer a primeira vez, quando decidi sair de casa e ir morar sozinha. Aluguei uma casa que mais parecia um apertamento, reformada, bonitinha, a qual eu me referia carinhosamente “a casa de boneca”.

Eu, meu colchão e o eco dos meus passos (já que falar, eu falava só quando tinha alguém comigo). Assim como a outra casa, essa também foi criando forma, personalidade, cores, vida, memórias… Foi lá que tive uma crise de pedra no rim e acordei no meio da madrugada sozinha e com dor. Pra lá que voltei depois da lua de mel com meu marido e vimos a casa com seu pouco espaço livre preenchida com caixas de presentes. E foi de lá que viemos para a casa em que estamos hoje. Um sobrado que de início eu achava enorme para duas pessoas: três quartos (sendo dois com varanda), dois banheiros, sala e cozinha grandes, área de serviço, garagem.

Vende-se essa casa (parte I)

No final do ano passado foi com muita braveza que recebi a notícia da boca do marido “ligaram da imobiliária, o proprietário quer vender a casa”. Como assim, e o contrato vigente? Primeiro ofereceram pra gente, como é de praxe. Como não temos interesse nenhum em comprar a casa, divulgaram a venda. O contrato pouco importa, a casa é do cara, ele quer vender, vai pagar multa (se for o caso) pra gente. O fato é que temos que sair da casa e ponto final. Esse é um dos motivos que sempre tive o sonho da casa própria. Inquilino passa por situações humilhantes – essa é a palavra.

Sei que tem inquilinos e INQUILINOS. Fazemos parte do grupo de inquilinos que honra com todos os compromissos, desde pagar o aluguel na data certa até cuidar bem da casa. E um belo dia o proprietário pede pra você sair, pouco importa se você está em dia com o aluguel, se você não estragou a casa (não fez mais que sua obrigação), se você tem um filho pequeno. Não existe respeito, não existe nenhum tipo de sentimento, nenhuma relação – nem a contratual (porque se é o inquilino que quebra o contrato, meu deus, coitado! Mas se é o proprietário…).

Sonhos

Em 2010 realizamos 3 sonhos, assim de supetão e meio que sem a ordem que planejávamos. Tudo começou acontecer em meados de agosto: 1º fechamos a viagem para Paris; 2º assim que compramos a viagem, coisa de uma semana depois, lançou o apartamento que namorávamos desde fevereiro, fomos lá e compramos; 3º na primeira semana de setembro descobrimos que estávamos grávidos – o que era planejado para 2011. Conclusão: fechamos o ano de 2011 na cidade luz, grávidos (a louca morrendo de tanto passar mal) e pagando um empreendimento.

A previsão de entrega do apartamento sempre foi abril de 2013. Quando compramos parecia longe. Eu sempre fui uma pessoa ansiosa, nunca soube esperar. Acho que a viagem e, principalmente, a gravidez me fez esquecer essa espera. Em algum momento do segundo semestre de 2012, olhei a minha volta e me dei conta que estava com um filho de um ano e que o apartamento já tinha ganhado estrutura.

Quer dizer, o tempo voou! A última informação recebida é que a incorporadora mantém o prazo de entrega: abril/2013. Eu já contava com atraso e nem me importava muito (afinal o que mais se ouve dizer é que os apartamentos nunca são entregues na data, sempre tem atraso, blá, blá, blá), mas agora precisamos mesmo que cumpram este prazo, é uma questão de necessidade. Fiquei esperançosa porque o negócio está andando mesmo e aparentemente não corre o risco de fugir da data prevista.

Vende-se essa casa

Vende-se essa casa (parte II)

Ontem ao chegar em casa, uma não surpresa. Demos de cara com um acessório novo enfeitando o portão da entrada. Uma placa: vende-se. Já tínhamos sidos avisados que a imobiliária passaria lá para colocar a placa. Mas avisaram que passariam no sábado passado e ninguém apareceu. Simplesmente foram ontem na minha casa, quer dizer, na casa onde moro, e colocaram a placa sem avisar. Ok, já tinha o aviso prévio, mas pensei que seria feito com a nossa presença. Ou eles pretendem levar os interessados para visitar a casa na ausência dos moradores?!

Ainda moramos lá, pago aluguel e as contas, será que não merecemos um tiquinho só de respeito?! A sorte (não sei pra quem) é que minha mãe estava lá em casa, mas a verdade é que eles colocariam mesmo que não tivessem ninguém, afinal é só amarrar a porcaria da placa no portão. Eu fiquei meio puta da vida! Um sentimento dúbio percorreu minhas veias. Raiva (porque os caras apareceram lá sem a nossa presença), mágoa (pela falta de respeito, pela impotência de não ter nada o que fazer, a não ser sair da casa), certa melancolia (que beirou a tristeza), aflição (porque agora começamos a contar o tempo cair em grãos, uma sensação de que viraram a ampulheta)…até a hora que deitei a cabeça no travesseiro e bateu o saudosismo.

Vende-se essa casa

Imagem do Google

A casa é um templo

Apesar de todos os problemas que a casa apresenta (sim, ela tem problemas como qualquer outra casa alugada e esse é um dos motivos de não ter interesse nenhum em comprá-la), foi lá que passei os últimos 4 anos e meio da minha vida. Outro dia li em uma revista de decoração:

“A casa é um templo. O seu templo. O lugar onde você guarda o que lhe é sagrado. Filhos, objetos, cores, amores, memórias, escolhas”.

E foi isso mesmo que minha mãe a vida inteira me transmitiu. Mas ao contrário da minha mãe, exceto cuidar bem da casa, eu nunca senti essa casa como se fosse minha, nunca me senti a vontade nela, nunca achei – até a visita da revista Pais & Filhos – que essa casa transmitia a minha história. A história da minha família. E de fato ela tem muito de nós. É pra lá que voltamos todos os dias depois de um dia cansativo de trabalho. É pra lá que voltamos após cada viagem que fazemos. Foi lá que vivi um tempo curto, porém um do mais intenso da minha vida. Onde passei várias emoções: festas, comemorações, enjôos…foi pra lá que voltamos da maternidade com o Benjamin nos braços e foi lá que vi ele ensaiar seus primeiros passos.

 Vende-se essa casa

Felicidade

Além de todos os sentimentos pejorativos, existe a alegria que sinto ao pensar que estamos bem próximos de realizar mais um sonho: a entrega do nosso apertamento. Existe o risco de ter que sair da casa e não ter pra onde ir (em último caso, temos a possibilidade de montar uma barraca na praça. Doamos os móveis ou fazemos um bazar a um preço módico – já que 90% deles não vamos mesmo levar com a gente para o apertamento e usamos esse dinheiro para preservar os novos brinquedos da querida pracinha), mas não existe o risco de tirarem da gente o direito de ir (e vir) para nosso apertamento (não, enquanto honrarmos com os compromissos).

Estou um pouco desesperada, mas hiper-mega-ultra-feliz-empolgada com a ideia de que em poucos meses estarei de fato na MINHA casa – lugar que, enfim, vou poder traduzir de um jeito mais fiel os meus sentimentos, a minha essência, a minha alma. Onde terei mais prazer em receber (e acolher) as pessoas. Lugar que vou decorar do meu jeito e que vai contar a história da minha família. Serei tomada por certa sensação de alívio, vai sair esse peso de insegurança, instabilidade, sei lá como definir…Parafraseando a filósofa Viviane Mosé, enfim a casa onde vou me esparramar…

Aos que me leem: torçam por nós (?!).

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9 respostas para “Vende-se essa casa”

  1. Bossa Mãe disse:

    […] janeiro contei que a casa em moramos estava a venda e contei também que esse ano a construtora entregaria o apertamento que compramos em 2010 – […]

  2. Bossa Mãe disse:

    […] já disse que fui criada só pela minha mãe. Eu e minha irmã. Eita mulher porreta essa dona Salete. Nunca nos deixou faltar nada. Sempre […]

  3. […] a completar um ano desse post AQUI e depois de muito nervoso, stress e ansiedade, estamos de casa nova! Mudamos no sábado, 30/11. […]

  4. […] nesses trâmites agora em maio. E detalhe, a casa em que moramos atualmente está com a placa Vende-se e o tempo está correndo… Mas ao invés de deixar a frustração me contagiar, me apeguei nos […]

  5. Paola Preusse disse:

    Eeeeeeeeeeeeeeeee, comprar nossa casa própria deve ser uma sensação incrível, né?
    Eu ainda moro de aluguel, mas espero este ano dar o ponta pé inicial.
    Fico muito feliz por você e desejo que sua casa seja realmente seu canto de paz, alegrias, harmonia, felicidades.
    Beijos, beijos

  6. Já me mudei um bocado de vezes, inclusive de estado. Moramos de favor, de aluguel… até que pouco antes de casar, eu, meu irmão, minha mãe, meu tio (irmão mais novo da minha mãe e que morava com a gente nos últimos meses) e meu noivo (muita gente, né? mas só assim mesmo… rs) nos juntamos e conseguimos comprar nossa casa.
    Todos os lugares que morei também deixaram suas marcas: lembranças boas, outras não tão boas… mas todas partes da nossa vida.
    Tô na torcida para que tudo dê certo!

    • bossamae disse:

      Nossa, muita gente mesmo, Silvia! Mas o bom da vida é estar cercado das pessoas queridas, principalmente da família. As festas na sua casa devem ser super animadas.
      Muito obrigada!
      Um super beijo

  7. Julia Costa disse:

    Gabi, apesar de toda a angustia de imaginar como serao os meses ate abril, terminei de ler o post com uma sensacao tao boa! Nossa casa ‘e realmente nosso templo. Eh onde queremos estar quando nos sentimos cansadas, inseguras, quando queremos carinho e conforto. Seja num apertamento ou numa mansao. =) Vcs certamente encontrarao logo uma solucao, caso a casa seja vendida antes de abril. E o tempo vai voar ate vcs chegarem na casa de VCS! Um beijo enorme para vcs e bom final de semana!!

    • bossamae disse:

      Ju, é mais ou menos essa a sensação: de angústia misturada a uma sensação boa, positiva, animadora. Estou desesperada por vários fatores: casa a venda, dinheiro pra tudo (fica aquela coisa “ai meu deus será que vamos conseguir”), um monte de coisa pra decidir…mas estou mega empolgada, feliz de verdade. Não sou muito de chorar o leite derramado, sou de agir. Levantar a cabeça e por a mão na massa.
      E com a força das pessoas queridas, como vcs, não tem como fraquejar. Rs
      Muito obrigada!
      Super beijo

  8. Amanda disse:

    Vai dar tudo certo! Só vão conseguir vender essa casa em 2014 e vcs vão ter tempo de fazer as coisas de vcs c toda tranqüilidade q merecem!
    O apartamento novo vai ser perfeito! É ótimo a gente construir nosso canto c a nossa cara!
    Estou aqui torcendo, mas c certeza de que tudo dará mais do que certo!!!!

  9. Estou aqui torcendo para você. Moro na mesma casa a minha vida toda. Meu pai construiu, meu pai pagou e colocou a mão na massa, ele e minha mãe pagaram. Quando ela faleceu a casa virou herança minha e do meu irmão e não pretendemos vende-la. Moro aqui, a Bia nasceu aqui, e as vezes não me vejo longe daqui. Construímos outra casa e alugamos, sei como é ter inquilino, já tive de todos os tipos, aqueles que usam a casa para fins duvidosos, famílias numerosas, casais novos, vi crianças nascerem e correr no quintal. TUDO. Mas uma coisa que sempre tivemos foi respeito.
    E olha, procura seu direito, porque até onde sei não podem tirar você da casa sem avisar previamente ( se não me engano você tem direito de ficar 90 dias na casa depois de ser avisada), isso quem sabe, pode ajudar na espera do seu ap!
    Estou aqui torcendo por vocês!

    Beijos

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