03 set 2014

A difícil arte de ser mãe e fazer escolhas

por
Gabi Miranda

Livros

Menino de ouro

A decisão de ter filhos está ligada a um desejo que nem sempre temos a consciência plena do que significa se tornar mãe. Ter filhos é totalmente diferente de como imaginamos. Ser mãe significa fazer escolhas e tomar decisões importantes e muitas vezes definitivas. Não dá para viver pensando nas coisas possíveis e sem priorizar coisas que antes a gente nunca havia pensado.

menino de ouro

Um livro e suas reflexões sequestraram minhas horas de sono durante alguns dias. Foi o livro “Menino de ouro“, da escritora britânica Abigail Tarttelin, de apenas 27 anos, dona de uma narrativa invejável. Nessa obra, ela conta a história de Max Walker e sua família. Max é um garoto de 16 anos que guarda um segredo – que revelarei aqui porque é algo dito nas primeiras páginas e não estraga o enredo. Ele é interssexual, conhecido também como hermafrodita – pessoa que possui os dois órgãos sexuais: feminino e masculino.

A trama é toda envolvente, impossível o leitor não se comover e se colocar no lugar de cada personagem (narrado em primeira pessoa, deixando clara a identidade de cada um): a mãe, o pai e o irmão de 9 anos. O livro me fez refletir muito sobre vários aspectos, inclusive sobre a questão de gêneros – sempre tão em voga. Existe um conflito entre a mãe e o pai do menino. Um acha que devia ter tomado a decisão pelo filho. O outro não. Mas ambos se questionam se podem ter atribuído ao filho o sexo errado.

As questões morais sempre são motivos de grandes discussões. É errado ser preconceituoso, assim como é errado matar, é errado roubar, é errado abortar. Só que é errado também menino gostar de coisas de meninas e vice-e-versa, quem dirá ter os dois sexos ou ser de um sexo e querer ser de outro. É errado ser diferente.  A sociedade impõe o certo e o errado de ser.

Mas o quanto a escolha de sexo de uma pessoa pode definir o que ela realmente é como ser humano? O quanto isso a torna pior ou melhor? O quanto isso prejudica a vida dela e da sociedade? O quanto desfavorece uma menina se ela jogar bola? E um menino se brincar com panelinhas? Crianças não deveriam ser e fazer o que gostam (respeitando, é claro, limites que coloquem sua vida em perigo)? O que significa ter um gênero?

As pessoas deveriam ser simplesmente como são. Nós deveríamos criar nossos filhos somente pelas nossas crenças, sem se pautar pelo certo e o errado imposto pela sociedade. Deveríamos nos importar com as escolhas que fazemos diariamente, lembrando que podem sim afetar de forma positiva ou negativa o comportamento de nossos filhos – que às vezes acabam agindo de determinada forma com medo de nos desagradar, pois muitas vezes a pressão e expectativa dos pais podem gerar uma ansiedade tão grande na criança que ela involuntariamente quer sempre acertar, ser perfeito, o melhor (ou ao contrário, vai saber!).

Outra questão perceptível no livro é como a falta de diálogo entre a família pode tornar tudo mais difícil. É claro que não se pode falar tudo e de qualquer jeito para uma criança. Mas para cada idade, é possível promover o diálogo com respeito e de acordo com o entendimento. Há tantas coisas que não conversamos e deveriam ser conversadas ao longo da vida para saber como todos se sentem a respeito delas…

Não sabemos o que vai ser do futuro. Eu nunca havia pensado antes sobre como a vida é tão acidental, ela pode ser tão fácil e rapidamente criada e se acabar de repente, no espaço de minutos. Isso me faz apreciar tudo muito mais, mas também me faz pensar sobre quanto do nosso destino é definido pelo acaso, e quantos pequenos acidentes tiveram que acontecer para me fazer o que e quem eu sou“. (Max)

Muitas coisas dão certo. Outras não.

E voltando ao início do texto, ser mãe significa conviver com a responsabilidade de todos os movimentos, sabendo que não podemos controlar tudo. O inevitável pode acontecer e a mãe não pode fazer nada. As mudanças são mais fortes que a gente. Ser mãe é se preocupar a todo instante, cada minuto do dia. Exagero? Ok. Então pelo menos uma vez ao dia e outra vez a noite: será que ele comeu na escola? será que ele está descoberto? Então, você liga na escola para se certificar se está tudo bem. Levanta no meio da noite para cobrir a cria. E vez ou outra está acontecendo coisas com os filhos dos outros e você sempre pensando que poderia ser o com o seu e como seria se fosse. Coração de mãe vive apertado.

E como diz Karen, mãe do Daniel, “a mãe sempre será quela que sacrificou mais – mais tempo, mais amor, mais dor de cabeça e até o corpo físico – para trazê-los ao mundo e cuidar deles, e sempre será quem eles irão culpar, de quem irão se ressentir pelo domínio que a mãe exerceu sobre eles, para transformá-los em quem são, quem eles irão lembrar que se sentou ao lado deles em seus piores momentos.” Eu mudaria a palavra “sacrificou” por “dedicou” ou “investiu”. Porque sacrificar pra mim tem um sentido de martírio, de sofrimento e, embora, ser mãe chegue causar dores físicas e emocionais, é acima de tudo gratificante, motivo de imensa felicidade. Então, ser mãe é também dedicar mais tempo e mais amor, independente de qualquer coisa.

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3 respostas para “A difícil arte de ser mãe e fazer escolhas”

  1. Lizandra disse:

    Adorei o texto, como sempre você provocando várias reflexões nessa mãe aqui. E fiquei com vontade de ler o livro. Bjo

  2. Lele disse:

    Que post lindo Gabis!
    Fiquei com vontade de ler o livro.
    Eu também não considero sacrifício, considero amor!
    beijos
    Lele

  3. Opi disse:

    E esse mais tempo e mais amor parece que brotou em minha vida além do que eu já tinha disponível.
    Adorei suas colocações. Sempre penso o quanto é necessário freiar nossas expectativas nos filhos (e não só no que refere-se ao gênero, mas às milhares de escolhas sobre que tipo de indivíduo eles desejam ser).
    Penso nisso todos os dias no convívio delicioso com a pequena Abeille.

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