02 fev 2018

Alimentação saudável – o caminho do meio, sem radicalismo

por
Gabi Miranda

Chefe de Papinha, Colunas, Destaque

alimentação saudável

Nos dias atuais, a busca pela alimentação ideal para os filhos parece ter se tornado um caminho de 8 ou 80. Ou você se torna radical e corta todas as guloseimas, industrializados e alimentos não orgânicos e todos te chamam de “xiita” ou “natureba”; ou você desiste de vez desse caminho e libera geral os industrializados e fast food para “deixar a criança ser criança” e todo mundo rotula você como uma péssima mãe.

Como Chefe de Papinha, percebo isso no dia a dia. Basta postar uma foto da lancheira da Gabriela com uvas compradas no supermercado e logo surge o comentário, “você tem coragem de dar uva sem ser orgânica para sua filha?”. Se mostro o café da manhã com pão e requeijão, vem a indireta: “fala em alimentação saudável, mas dá requeijão para a filha”. Na hora do almoço, o prato da foto tem carne picadinha com legumes, salada de alface e tomate, feijão e arroz branco. “Que absurdo dar arroz branco para uma criança” é a sentença que eu recebo.

Sim, o alimento orgânico é melhor. Requeijão tem gordura e deve mesmo ser evitado. Arroz integral é melhor que o arroz branco. Mas quando determinamos que a alimentação só é saudável quando todos os componentes são orgânicos, integrais, funcionais, ou quando achamos que só salada é saudável, corremos o risco de criar um radicalismo alimentar que afasta as pessoas por se tornar quase inatingível.

E surge aí o outro lado.

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Já que não consigo mesmo dar macarrão integral, vamos logo de macarrão instantâneo. Se fruta tem agrotóxico, melhor nem oferecer. O mundo está chato, nada mais pode, chega. Vou liberar salsicha, nuggets, petit suisse, bolacha recheada, refrigerante, presunto e paciência. Desisto de ser saudável. É muito caro. Impossível. Ninguém vive só de salada. Utopia total.

É aí que mora o perigo. Quando nos prendemos na ideia de que a alimentação saudável é utópica, uma vez que nos dias de hoje nem sempre temos tempo de preparar do zero todas as refeições e utilizar somente ingredientes caseiros, vindos do nosso quintal, perdemos a chance de encontrar o caminho do meio. Quando eu penso que só é saudável quem come chia, linhaça, amaranto, quinoa, sal rosa do Himalaia e pipoca de sorgo, eu afasto a possibilidade de ser saudável com a comida do dia a dia.

O que é comer de forma saudável, afinal?

Para mim, vale a máxima do “desembale menos e descasque mais”. Gaste mais na feira e menos no supermercado. Mesmo que nem tudo que eu descasque seja orgânico, porque infelizmente não tenho acesso na minha cidade ou naquela semana faltou grana. Para mim, comida saudável é comida de verdade, com ingredientes honestos, quando eu sei o que eu coloco ali dentro.

Por isso que falamos da importância da leitura de rótulos. Não para que fiquemos bitolados, mas para que a gente tenha consciência das nossas escolhas e possa comprar o alimento industrializado mais próximo do verdadeiro. O requeijão que usa ingredientes que eu conheço e que tem menos química, que seja zero em gordura. Os alimentos menos processados.

A comida deixou de ser a essência do alimentar, nutrir, confortar, aquecer o estômago e o coração, para se tornar um mundo de regras. Restrições que deveriam ser aplicadas a quem realmente precisa delas, como pessoas alérgicas ou intolerantes, passaram a se estender a todo mundo. É criança fazendo dieta maluca dos pais, comendo refeição congelada gourmetizada sem nunca ter provado cenoura, chuchu. Criança deve comer comida de verdade e ponto. Arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, macarrão, torta, panqueca.

O fato é que você não precisa ser radical para oferecer uma alimentação de qualidade para o seu filho. Seria bom se todo mundo conseguisse, se tivesse recursos ou tempo para isso. Mas você pode sim encontrar o caminho do meio. Porque o caminho do meio também evita a obesidade infantil. Também ensina seu filho a ter um paladar bacana.

O que é o caminho do meio?

É o caminho da comida caseira. Feita pela mãe, pelo pai, pela avó. É aquela comida que você faz a mais e congela para os dias mais corridos. Claro, usando ingredientes naturais, sem dúvida, porque tablete de caldo industrializado não é de verdade. É aquele dia que seu filho vai comer macarrão alho e óleo com tomate picado porque não deu tempo de preparar outra coisa — e tenha certeza que é infinitamente melhor que o macarrão instantâneo.

Tudo bem se você não faz ideia de como preparar quinoa ou de como usar a linhaça nas frutas. Você pode aprender porque é bacana inserir isso na alimentação da criança. Mas você também pode ficar satisfeita se o seu filho comeu arroz integral ou mamão puro e ponto.

Faça preparos caseiros. Monte pratos coloridos, para garantir variedade nos grupos alimentares. Compre industrializados pouco processados, sem conservantes, com ingredientes que você conheça. Reduza o uso do sal. Troque o açúcar branco pelo demerara se puder, senão, use menos açúcar branco. Tente preparar arroz e macarrão integral algumas vezes. Senão, incremente o arroz branco com cenoura ralada, brócolis picado. Comece trocando uma das xícaras de farinha do bolo por integral. Se você não conseguir, já está na frente do bolo de pacotinho de qualquer jeito.

Descasque mais. Desembale menos. Gaste mais na feira do que no supermercado. Priorize a comida que você prepara. Comece por esse caminho e já se sinta feliz. Com o tempo você vai avançando na qualidade da refeição. Sem radicalismo.

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