08 ago 2018

Assédio Moral na gestação e no pós parto

por
Gabi Miranda

Destaque, Gravidez, Maternidade

Outro dia, falava no Instagram sobre como nós, mulheres, quando nos tornamos mães e trabalhamos fora, precisamos lidar com o assédio moral na gestação. Eu nunca passei por isso, tá? Mas imagino o sofrimento. Às vezes é uma brincadeirinha, mas que tem impacto muito forte sobre as nossas emoções. Então, a seguidora Luciana Santos, comentou comigo que já havia sofrido assédio moral durante a gestação e também no pós parto. Convidei Luciana para escrever seu depoimento aqui no Bossa Mãe. Ela aceitou!

Luciana é mãe de Beatriz e Breno, Engenheira Ambiental e de Segurança do Trabalho. Ela trabalhou por 13 anos na empresa onde sofreu o assédio. É uma empresa de Engenharia e Consultoria voltada para saneamento e urbanismo ambiental.

Com essa histórias, queremos disseminar a informação e ajudar outras mulheres que passam pela mesma situação.

assédio moral na gestação

Sofri assédio moral na gestação e no pós parto

No dia 11/03/2013, anunciei para as pessoas que trabalhavam comigo que estava grávida. Nesse dia recebi muitos abraços e muito carinho. Mas recebi também olhares preconceituosos. E um discurso do meu gerente, dizendo que ele seria o “Pai” dessa criança (nunca tive relação com essa pessoa, a não ser profissional). O mesmo gerente falou para todas as outras mulheres que o anticoncepcional delas deveriam estar na mesa dele no próximo dia. Para ele garantir que todas estariam se “precavendo” de uma indesejável gravidez.

Os meses passaram e as brincadeiras eram constantes. Muito desmotivada, aguentei firme os 8 meses de assédio sofrido diariamente. Sempre tinha uma “brincadeira” nova. A pior sempre era na volta do almoço quando ele me perguntava se eu tinha alimentado bem “o filho dele” – falava assim para quem quisesse ouvir, que ele era o pai. Porque pai é o provedor e, como era ele que pagava o meu salário, ele que sustentava a minha família.

Beatriz, minha filha, nasceu no dia em que eu ia me afastar do trabalho, e acho que ela não queria ver ou se despedir daquele ambiente ou “daquela” pessoa. Beatriz nasceu prematura, e diagnosticada com uma Encefalocele. Aos 4 meses fez a cirurgia para tirar o tumor cerebral indesejado e graças a Deus se recuperou muito bem. Depois de 1 mês da cirurgia, os médicos confirmaram o que há 2 meses o pediatra já alertava: uma hidrocefalia. Outro choque, mas sempre ela esteve nas mãos de excelentes médicos, que tranquilizaram eu e o meu marido dizendo que ela ia tratar a Hidro com remédios e não seria o caso para outra cirurgia.

Dia 01/04/2014 voltei ao trabalho, voltei sendo muito bem recebida pelos meus colegas. O gerente quando me viu me olhou dos pés à cabeça e disse: por que esse cabelo preso? E essa unha sem fazer?? Odiei esse seus óculos novos, e essa roupa só mostra que você realmente virou mãe. Amanhã para não ter que olhar para você assim, por favor, passe pelo menos uma maquiagem! 

Ele sabia o que eu tinha passado naqueles últimos 5 meses. E naquele dia, o único gesto que eu precisava era de conforto, ou gentileza por tudo estar bem. E a motivação para estar ali era a minha profissão. Mas a minha maior vontade era estar perto da minha pequena guerreira.
Amo minha profissão e já tinha sofrido muito preconceito por ser mulher, dentro daquele contexto tentava ignorar o que ele dizia. Eu simplesmente ignorava… tratava profissionalmente com respeito e evitava qualquer assunto que caísse para minha vida pessoal. As “brincadeiras” eram feitas e eu respondia com desprezo ou com um sorriso amarelo para não ter conflito.

A empresa, como muitas outras no país nessa época, não estava nada bem. E eu fui para outros contratos, que me afastaram da gerência direta dele. Na volta para o escritório Matriz tive que atender um contrato em Belém do Pará, ainda amamentando a Beatriz, viajei passando por situações constrangedoras de ter que tirar o leite em banheiros de restaurantes ou em banheiros do cliente que atendíamos.
O gerente como sócio da empresa restituiu o seu cargo como diretor e por um bom tempo não tive contato profissional direto com ele.

Atuei em outros contratos ainda atendendo os escritórios parceiros (“filiais”) da empresa. Nesse período descobri que estava grávida novamente, uma linda surpresa que já estava com 5 meses de vida, o Breno! Um susto! profissionalmente tive que correr, pois a minha gestação já estava na metade e eu tinha que deixar tudo pronto para ficar afastada por pelo menos 4 meses. Tive que reestruturar a gestão dos contratos e treinar outro engenheiro para ficar no meu lugar. Foi assim que meu antigo gerente, agora diretor, retomou o contato profissional, retomando também as “brincadeiras”.

De várias brincadeiras, a pior foi o dia em que entrando em sua sala com uma colega de trabalho ele olha para a minha barriga já com 8 meses de gestação e diz: não gosto de mulheres fora de forma, olha a Luciana muito esquisito esse barrigão, prefiro fulana (minha colega) magrinha. 

Saí da sala respondendo ele: não estou aqui para agradar ninguém e sim ser a engenheira ambiental que atende o contrato do cliente XYZ.  Na mesma semana, eu já não estava me sentindo bem fisicamente e minha obstetra me afastou. Breno nasceu muito saudável e esperto!! E eu renasci pela 2° vez! Era muito amor! Na volta do hospital cuidando de 2 bebês, Beatriz estava com 1 ano e 11 meses, com um apoio ímpar no meu marido, tive que responder alguns e-mails de trabalho na madrugada ou em horários mínimos que eu poderia estar me cuidando ou cuidando da minha filha mais velha. Isso foi constante por e-mails, ligações e mensagem pelo WhatsApp. Fora a cobrança (ligações) de fornecedores, pois os seus pagamentos não foram feitos.

Como a situação da empresa não era das melhores e eu tinha férias vencidas, resolvi escrever para o RH da empresa para solicitar as minhas férias. E, como resultado, a resposta desse e-mail foi um NÃO bem grande! Organizei minha vida colocando a Beatriz na escola e mantendo o Breno aos cuidados da minha sogra e minha mãe. Por fim, voltei ao trabalho ouvindo que tinha passado 4 meses de “férias” e ainda queria ficar mais!

O escritório não tinha local para que eu pudesse tirar o Leite para abastecer a reserva para o meu bebê de 4 meses, que mamava leite materno e ficava longe da mãe por mais de 8 horas no dia. Chegaram a sugerir que eu tirasse o leite no banheiro! Depois de fazer uma plaquinha comecei a usar uma copa que era utilizada como área de serviço, que tinha entrada constante de outros funcionários que sempre reclamavam ou simplesmente não respeitavam a placa de não entrar (a porta do local não tinha tranca). E quando eu menos esperava tinha uma pessoa entrando e ficando constrangida (eu não, a pessoa) de ver a ordenha de uma mamífera recém parido.

Meu diretor, no auge da sua indelicadeza, me ofende pela última vez na frente de todos dizendo: e aí parou né? Daí não vai sair mais nada? Ou você quer ficar igual à sua mãe? (Minha mãe teve 4 filhos, eu sou a caçula dela). Respondi: suas perguntas são desprezíveis e eu não vou te responder. E quanto à minha mãe, quero sim ser igual a ela, ela é uma mulher incrível, criou 4 filhos tendo o meu pai ao seu lado e é uma honra pra mim ser filha dela. Estávamos próximo de outras pessoas, por isso, eu alertei ele para não utilizar do seu cargo para fazer ofensas a mim ou à minha família, pois isso constatava assédio.

Um mês depois, Beatriz ficou doente (contraiu a Gripe H1N1), que passou para o Breno, que passou para o meu marido, que ficou internado. Nessa situação, os médicos que cuidaram de todos em casa me afastaram do trabalho. Fiquei 10 dias fora do ambiente do trabalho por precaução dos médicos, para não passar o vírus para outras pessoas. Mas no meu retorno, ainda com o meu marido muito debilitado, fui demitida por esse chefe que tanto me humilhou. E dizendo para mim que a empresa estava passando por situações muito ruins e, por conta de toda essa situação familiar em que eu vivia, de cuidar de 2 crianças, para todos o melhor era eu ser desligada da empresa.

Era meio de 2016, já estava completando 4 meses que tinha sido demitida. Quando resolvi procurar um tratamento psicológico, estava trabalhando (não fiquei nem 24 horas desempregada) mas tinha medo. Muito medo de entrar em uma reunião e falarem comigo como meu outro chefe, ouvir novamente aquelas humilhações. A primeira consulta com a psicóloga foi um desabafo sobre e a constatação de todo o assédio que sofri. Por fim, em casa, rendeu uma conversa franca com o meu marido e nos dias posteriores tive vômitos e disenterias. Joguei tudo pra fora.

Com o tratamento, que dura até hoje, comecei estudar sobre a questão do assédio, gestação, mães no trabalho, feminismo, machismo, patriarcado. Como resultado, encontrei muitas páginas legais e uma delas foi a página da Cínthia – Mães At Work, onde lia e via muitas coisas legais, principalmente, histórias de mães que deram uma virada na vida por conta da maternidade. Participei com ela de um Workshop que o tema era “O momento da Virada”, e em uma das duas Lives em que teve a abordagem do assunto assédio na gestação e pós parto, resolvi não ficar mais calada! Na mesma Live, a advogada Dra. Cris deu ótimas explicações e, enfim, foi ela quem me defendeu e me ajudou com o processo trabalhista.

Tudo foi muito rápido, no mês de julho, já em 2017, conheci a Dra. Cris, entramos com o processo em agosto e em setembro foi a primeira audiência. Na segunda audiência, em março de 2018, resolvemos aceitar o acordo de conciliação. Assim virei a página. Tive medo, mas a coragem foi maior. Agora vida que segue!

Todos que ouviram a minha história, que acharam um verdadeiro absurdo tudo que passei, saibam que fui forte. Aguentei calada por muito tempo, mas fiquei firme e em tempo de mudar uma triste história de assédio no trabalho. A minha história, se um dia der força para uma mulher também lutar pelo seu direito, já será um bônus para toda a minha existência! Mas o meu alerta vai para todas as mulheres que sofrem caladas o abuso de um assédio… não achem normal! Falem! Não se sintam coagidas.

Mulheres não precisam ser tratadas como objetos por quem quer que seja. No meu caso foi no trabalho e de outras pode ser dentro da sua própria casa. O sofrimento não é normal, o medo não é normal, o não poder se expressar não é normal. Portanto, tudo que causa constrangimento em qualquer tipo de relação, não é normal para ambas as partes (homem ou mulher).

Quando a segunda audiência terminou fui parabenizada pela minha força e coragem de enfrentar um processo. E, de certa forma, ser ressarcida pelos atos que sofri. Por tudo, viro a página com a certeza de dizer para os meus filhos, amigos e familiares que lutei. Por isso, quando eles souberem, passarem ou ouvirem falar sobre assédio no trabalho, poderão contar a minha história e saber que existe justiça para isso.

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Luciana Santos, 36 anos, mãe da Beatriz e do Breno. Casada com o Marcio, filha, irmã, amiga e apaixonada pela sua enteada Bianca. Formada em Engenharia Ambiental e de Segurança do Trabalho. Desde 2013 concilia a maternidade e o seu amor pela sua profissão.

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2 respostas para “Assédio Moral na gestação e no pós parto”

  1. Analú Barbosa disse:

    Linda história de força, superação e amor. Beatriz e Breno tem muita sorte de ter essa mãe forte. Serão adultos de muito carácter sem duvidas!

  2. Renata disse:

    Que história incrível de superação! parabéns para essa mulher que transformou ódio/preconceito em amor! Como dizem: Lute como uma mulher!

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