30 abr 2014

Como lidar com a perda

por
Gabi Miranda

Comportamento, Maternidade

como lidar com a perda

Já fazia alguns dias que Benjamin percebia nosso humor e sentimentos. Ele andava perguntando “está blavo?” se percebesse algo diferente em nosso tom de voz ou feição. Parece que perto dos três anos, a criança passa a perceber essas variações. Um dos sentimentos que abateu nosso lar, foi a minha tristeza com a morte da minha mãe e toda vez que Benjamin me vê chorar, vem perguntar o que aconteceu, porque estou chorando, porque estou triste. Não escondi em nenhum momento o que aconteceu, contei para ele a verdade. Lembro de estar indo resolver algum processo burocrático na manhã do dia 11 de março e falar para o marido “algumas pessoas vão me julgar, mas quero que Benjamin participe do velório da minha mãe e se despeça dela”.

Nunca gostei de cemitério, velórios, nenhuma dessas cerimônias que “celebrassem” a morte. Ok, ninguém gosta. Mas eu sempre tive verdadeira repulsa. Sempre fugi disso e compareci apenas em ocasiões das quais as pessoas fizeram diferença na minha vida, meus avós, um primo, um tio querido, um amigo. Foram pouquíssimas vezes, contadas numa mão. Das poucas vezes que pensei no assunto, decidi que meu filho também seria poupado. Mas como poupá-lo de se despedir da avó? Como dizer que a vovó foi para outro lugar assim sem mais nem menos? Na noite anterior ele viu e brincou com a avó, depois me deixou no hospital que ela estava e foi embora de lá dizendo que não queria ir sem ver a vovó. Como explicar para ele?

Falamos pouco da morte e não sabemos lidar com a perda. Consequentemente, não sabemos agir quando nos vemos diante do inexorável, não sabemos como aceitá-la. Reparei que as pessoas, até gente da família, tem medo de perguntar como estou me sentindo, tem medo de tocar no assunto. Saber que essa é a única certeza da vida, não basta. Porque quando ela chega, é tão arrebatadora, angustiante, dolorosa, que ficamos sem chão. Embora, já tivesse perdido pessoas queridas, só com a perda da minha mãe, vim saber, por exemplo, o que é luto. Experiência dolorosa que a cada dia arranca um pedacinho da ferida que ficou.  Todo mundo me disse “essa dor vai passar e virar uma saudade gostosa”.

Com o passar dos dias, percebi que não viraria saudade tão cedo. A dor vai aumentando, aumentando, aumentando…porque o luto é justamente um conjunto de sentimentos e emoções novas, repetitivas e involuntárias, entre elas culpa, não aceitação, revolta, que crescem a cada dia que se passa depois do enterro. Porque a cada novo dia, você ganha uma nova percepção de uma coisa que não terá mais. Desde o primeiro dia, eu chorei a morte da avó do meu filho. Só depois de algumas semanas passei a chorar a morte da minha mãe. Hoje choro pelas duas. A minha mãe não está mais aqui, não existirá mais, isso eu soube desde o momento que a vi após anunciarem sua morte.

Também não será mais a primeira pessoa a me ligar na hora em que nasci no dia do meu aniversário, não receberei mais ligações diárias dela, não estaremos juntas no dias das mães, não fará brigadeiros para o aniversário do Benjamin, não cantará mais para ele, não comerei mais o arroz dela, não terei o colo mais precioso e aconchegante do mundo, não será mais a primeira pessoa para quem vou ligar para compartilhar algo de bom (ou ruim) que tenha me acontecido, não tenho mais a pessoa que mais torce por mim na vida, nem a pessoa a quem mais confiava os cuidados do meu filho e que respeitava a educação que eu queria dar para ele sabendo dosar a avó e a mãe que ela era…e ainda terei várias primeiras comemorações sem ela. Essas percepções vamos ganhando dia a dia após enterro. Luto.

A gente nunca pensa a respeito, mas cedo ou tarde vamos passar por isso. Não posso poupar meu filho das dores do mundo. Decidi, sem pensar muito nas consequências, que ele iria se despedir da avó. Ao chegar no cemitério e me avistar, veio todo empolgado ao meu encontro. Fomos dar uma volta eu, ele e minha irmã Luana. Ele de mãos dadas a nós duas, todo espoleta, parou no momento em que eu disse o nome daquele “parque” arborizado: cemitério. Pediu colo e fomos caminhando. Tentei explicar. “Benjamin, a vovó Salete virou uma estrelinha, agora mora no céu e em nossos corações. Vai estar perto de nós de outra forma”. Ele ficou mudo, enfiou uns três dedos na boca. Fomos até uma floricultura e ele escolheu um Girassol para levar para ela. Então mostramos a ele minha mãe. Nunca vou me esquecer o timbre da voz (que quase não saiu), o tom e a ingenuidade da pergunta que ele fez naquele momento “ela tá dormindo?”. “Sim, ela está dormindo para sempre”. E ele pousou a flor sobre ela.

Não fazia questão que ele assistisse ao enterro, talvez a pior parte. Mas Benjamin quis ver, ficar ao meu lado e ainda “brigou” comigo porque eu joguei a flor que ele queria jogar. Marido arrumou outra flor e ele jogou. Foi ele a todo instante que me segurou e que tem me segurado dia após dia…

A ligação entre Benjamin e minha mãe sempre foi algo lindo e surreal. Ela passou conosco todos os dias da minha licença maternidade. Enquanto eu dormia um pouco, ouvia de fundo minha mãe conversando ou cantando para o neto de apenas alguns dias de vida. E quando eu digo conversando, é no sentido mais literal da palavra. Ela batia papo, dava vazão a imaginação, respondia a cada minúsculo gesto dele. Minha mãe foi sem dúvida, a melhor companhia dele, nos seus primeiros meses de vida. Ao ouvir tocar o tlefone de casa, Benjamin sempre sabia quando era ela e anunciava antes de atendermos. A sintonia entre eles era grande. E dói saber que isso ele não terá mais e que vai se perder no tempo, porque vai chegar o dia que ele vai esquecer.

Para criança a noção do tempo é diferente. Por dias Benjamin falou que a vovó virou estrelinha e que agora morava no céu, perto da lua. Apenas um mês e pouco se passou e ele fala menos, vez ou outra pergunta dela. Na viagem à Cartagena disse que queria vir embora porque a vovó Salete estava na casa nova. Outro dia comentou alguma coisa que ela deu para ele. Essa semana mesmo encontrou o celular dela em casa e falou “o celular da vovó Salete”. Se estou ao telefone e me vê falar algo que ela falava, ele pergunta se “é a vovó Salete?”. Engraçado que várias vezes ele já fez um “uhuuu”, um gritinho de felicidade que minha mãe vivia soltando. Passou a brincar dentro do meu closet, levando alguns brinquedos, se fecha lá e fica falando sozinho, passei a dizer que está brincando com a minha mãe. E quando me vê chorar, vem enxugar minhas lágrimas dizendo para não chorar e seus olhos me dizem com sabedoria “a vovó está bem”.

Creio que Benjamin entendeu tudo o que aconteceu. Nunca tinha pensado no caso de um dia acontecer uma perda assim, a não ser no caso de acontecer algo com a Capitu nossa cachorrinha por quem Benjamin tem muito apego. Também nunca li sobre o assunto, e, recentemente, pesquisei algumas coisas na internet, parece que a partir dos 2 anos, a criança é capaz de entender a perda e/ou ausência de um animal de estimação ou de um ente querido, mas só aos 4 anos tem noção de que é irreversível. Após sentir a perda de alguém, crianças, jovens e até adultos podem apresentar mudanças no comportamento.  Eu, por exemplo, sinto que estou aérea, esqueço coisas que estou falando no meio de uma conversa, estou presente num local, mas minha cabeça está bem longe. Benjamin que não tinha mania nenhuma, se apegou ao tal paninho na hora de dormir.

Infelizmente, não temos como evitar a nossa própria dor, quem dirá a dos nossos filhos. Talvez, nem se pudéssemos deveríamos fazer isso. A vida é cheia de altos e baixos. Tenho aprendido que devemos falar sobre nossos sentimentos, e, principalmente, explicar os motivos deles para as crianças.

Leia também: a vida é uma coleção de perdas

compartilhe!

9

comente!

9 respostas para “Como lidar com a perda”

  1. Rogerio disse:

    A mãe é a pessoa mais importante que pode existir na vida de um ser humano, e talvez mais ainda para o filho homem. Muitas pessoas se desesperam pelo término de um namoro, mas elas não tem ideia do que significa a perda de uma mãe. Namoro é passível de substituição, e inclusive de iniciar um novo namoro bem mais interessante que o anterior. Na esmagadora maioria das vezes, a dor do rompimento de namoro está associada apenas ao Ego, à vaidade….Perder a mãe já é outro papo….Impossível substituir, impossível de fato superar. O único alento, é saber que a minha mãe se libertou do sofrimento causado pela doença que a matou…Mãe, esteja onde você estiver, saiba que eu te amo muito, e, lhe peço perdão por não ter sido o filho maravilhoso que você merecia que eu tivesse sido e que eu gostaria de ter sido. Só fico na dúvida se para ela valeu a pena ter sido mãe de alguém que nunca conseguiu ser o filho que queria ser e que ela merecia que eu tivesse sido. Apesar de ter tido muitas qualidades como filho, parece que para mim, os meus defeitos superaram as minhas qualidades. Mas não sei ao certo se na visão dela tive mais falhas ou qualidades.

  2. Florbela Almeida disse:

    Não paro de chorar… as suas palavras são as minhas neste momento.
    Perdi a minha mãe no dia 11 com enfarte fulminante… não houve nada a fazer… éramos inseparáveis…para todo o lado ia com a minha mãe… hoje só choro, não durmo, vem-me imensas imagens a minha cabeça e uma dor horrível que me consome… beijinhos grandes para si e que Deus lhe dê muitas forças para superar tal dor…

  3. Neta disse:

    Oi Gabi perdi minha mãe fazem 3 anos e descobrir que estava grávida 15 dias depois da sua morte. E meu filho está com três anos e ainda está sendo muito difícil para mim como deve está sendo para você. Peço a Deus força todos os dias para cuidar do meu filho e me cuidar. Sou filha única mulher tenho dois irmãos. Minha mãe não era somente minha mãe era minha melhor amiga e confidente. Ficou um grande vazio.

  4. Viviane disse:

    Achei seu blog procurando no Google por ” perdi minha mãe, o que fazer agora?”. A gente chega neste absurdo! A falta de chão de sentido na vida faz isso com a gente.
    E assim, te achei… Suas postagens são o retrato do meu sentimento. Minha mãe se foi da mesma forma que a sua… Seu coração…. E olha que eu tinha levado ela para um check up há 40 dias antes! Melhor, foi o médico ver os exames e dizer: Ela está com coração de mocinha! Que raiva! Isso me atrapalhou! Ela estava enfartando e eu achando que estava passando mal por algo que havia comigo…
    Ela se foi no último dia 10/05/15… No Dia das Mães! Quanta dor… E só piora!
    Como você está agora? Realmente melhora essa dor?
    Um beijo.

    Viviane – Varginha / MG

    • https://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabis disse:

      Oi Viviane,
      Não é que melhore, mas a dor diminui, se transforma numa grande saudade. É até irônico eu te falar isso, pois estou repetindo o que ouvi de me várias pessoas. Mas é a pura verdade. A dor se transforma numa grande saudade, fica um buraco e acho que isso não passa nunca mais. Precisamos aprender a lidar com ela.
      Estou melhor porque decidi viver, reagir, me apegar a coisas que minha mãe acreditava. Tem dias que são horríveis, mas a gente tem que ter planos para a vida. Não tem remédio, o único é viver plenamente, tentar ser feliz.
      Os primeiros meses são os mais terríveis. O primeiro ano é. Porque é um ano inteiro de “primeiras datas especiais” sem a pessoa que amamos ao nosso lado.
      Comecei a faze terapia, o que me ajuda bastante. Também procuro ler muito sobre fé, budismo, felicidade, coisas que me ajudam a seguir.
      Agora parece que não, mas você vai ficar bem. Espere só, esse buraco que parece ter aberto sob seus pés vai fechar.
      Fique bem e se precisar conversar, estou aqui.
      Um super beijo,
      Gabi

  5. Julia Costa disse:

    Gabi, querida, eu não posso deixar de dizer o quanto sinto por você. Você sabe como sempre me identifiquei tanto com você e com Ben. E não poderia ser diferente. Sou muito apegada à minha mãe e posso projetar o que está vivendo. Quando perdi minha avó, de quem era muito próxima, tinha 11 anos. Sofri bastante. E durante anos sonhava com ela frequentemente. Hoje ainda sonho, não na mesma frequência, mas sinto que ela nunca saiu dos meus pensamentos. Imagino que no caso de nossa mãe, este sentimento seja potencializada bastante. Achei bacana você ter levado o Ben. Ele pode não entender que é irreversível, mas pelo menos ele viu a avó e você teve chance de explicar que ela não acordará. Eu sinto que o Lucas já entende boa parte do que falamos. O Ben é ainda mais velho, certamente entende muito mais. Eu desejo a você força e muita luz. Que as alegrias que o querido Ben te traz amenizem de alguma forma a falta de sua mãe. Um beijo com carinho, Julia.

    • https://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabis disse:

      Ju, muito obrigada!!! Sabe que tenho pensado muito em vc nos últimos dias. Deve ser sintonia pelo carinho que você tem tido por mim nesse momento. Cara, tem sido muito importante isso pra mim. É preciso muita força para passar por isso e acho que minha força vem um pouco de cada lado, do Benjamin, da família, dos amigos, dos leitores…é doloroso demais. Obrigada! Beijo

  6. Emocionada com suas palavras… E nao sei que palavras dizer pra você. Nunca passei por uma perda dessas, nunca imaginei certas coisas que você escreveu aqui. Me deu vontade de te dar um abraço daqueles beeeeem apertados e demorados. Sinta-se abraçada. Por uma leitora que te acompanha sempre e ficou sensibilizada com suas histórias. E que aprende muito aqui nesse seu espaço. Beijos.

    Kênya Figueiredo
    http://www.ideiasefilhos.wordpress.com

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.