19 fev 2014

Exigências e alternativas na hora das refeições

por
Gabi Miranda

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“As pessoas se comunicam melhor quando comem: as reuniões e festas são sempre acompanhadas de alimentos e bebidas, que nos dão prazer, nos relaxam e permitem um bom diálogo e o interesse pelo outro. Nos reunimos em um bar para conversar ou almoçarmos para fechar negócios. Recebemos as visitas com uma comida gostosa ou compartilhamos uma bebida com os amigos. Comer não é apenas uma questão alimentar, mas uma forma de estar com os demais”. (Laura Gutman)

Tenho escutado com certa frequência, nos horários das refeições, que mimo o Benjamin e faço tudo o que ele quer. Isso porque costumo aceitar com facilidade o fato dele não querer comer naquele exato momento.

Na infância, nunca gostei de ser obrigada a comer, permanecer à mesa até comer tudo, era um fardo, principalmente, quando esse tudo era um copo de leite. Não é a toa que quando me vi na condição de autônoma da minha vida alimentar, nunca mais ingeri um gole de leite.

Sempre me incomodou, antes mesmo de me tornar mãe, ver pais obrigando uma criança terminar de comer tudo que está no prato para então sair da mesa. Sempre me pareceu torturante e desnecessário. Um momento que era para ser prazeroso se torna insuportável e estressante tanto para os pais quanto para os filhos.

“Obrigar uma criança a ficar sentada ou a comer tudo que está no prato é uma perda de tempo e um desgaste desnecessário de energia, pois a comida deveria estar associada ao prazer de compartilhar e não à censura”. (Laura Gutman)

Obrigar ficar à mesa é outro ponto que me incomoda. É raro uma criança se interessar em ficar à mesa com os adultos. Mesmo que você ofereça alternativa, leve brinquedo, giz para que a criança possa desenhar, uma hora ela fica entediada. Não sugiro abrir mãos de regras. Acho que devemos criar o hábito de toda família sentar-se juntos à mesa, mas não vejo necessidade da criança ser obrigada além de ter que limpar o prato, ainda permanecer à mesa até o final da refeição de todos.

Por esses motivos, aceito tranquilamente quando Benjamin, após três garfadas, se recusa a comer. Não considero isso mimo, e sim, bom-senso. Não é isso que o faz “filhinho da mamãe”. Acredito que se a criança não quer comer na hora da refeição, é porque realmente não está com fome. Pelo menos é o caso aqui de casa. E acredito que deve ser considerada a necessidade da criança.

“Para as crianças, comer é parte das brincadeiras cotidianas; portanto, não é indispensável que comam sentadas à mesa e em horários fixos. Não estou sugerindo um descontrole total, mas que os hábitos sejam adquiridos por imitação e identificação. Se adultos desfrutam do encontro à mesa, se conversam e lhes interessa estar com os outros, as crianças vão se integrando ao ritmo familiar sem se dar conta”. (Laura Gutman)

Benjamin sempre se alimentou bem, mas foi só ganhar um tiquinho de autonomia na cozinha (leia-se: armários e geladeira de fácil acesso) que a rotina e os hábitos alimentares foram para o espaço. Agora que ele abre o armário e a geladeira, pensa que pode comer o que quer e a hora que bem entender (e nós pais relaxamos). Então, se ele tem fome às 11:00, ao invés de almoçar (ah, mas é cedo! Não é não, era horário de almoço quando ele era bebê. Mas depois o inserimos na nossa rotina) ou comer uma fruta, ele come um biscoito, uma bisnaguinha, queijo, qualquer besteirol. Na hora do almoço, obviamente ele não tem fome.

Se a criança tem fome, seja lá o horário do dia, é uma oportunidade para servir algo saudável (uma fruta, um cereal, uma pãozinho integral, etc). Não estou falando para banir as guloseimas, só que tem hora para tudo nessa vida. Se for perto do horário da janta, por exemplo, o ideal é aproveitar para oferecer algo nutritivo, que equivale ao jantar.  Agora, permitir uma guloseima antes da principal refeição e ainda obrigar a criança a comer tudo na hora da janta, é convite para guerra. Ainda afirmar que é “graça” da criança, está convidando a mãe para a mesma guerra.

“O interessante é que os adultos que exigem que a criança coma nem ao menos reconsideram as normas autoimpostas, tampouco avaliam o efeito que essa exigência produz na criança. E, para os pequenos, não é uma questão de querer ou de teimar; o fato é que às vezes não estão em condições emocionais, de maturidade ou de comunicação para responder à demanda tal como é apresentada”. (Laura Gutman)

Se a refeição é o momento de prazer, troca, risos, relacionamento, não devemos tornar esse momento em um campo de batalha. Além do fato da criança não estar a fim de comer, pode estar cansada, assim como os pais, o que só vai prejudicar e resultar numa lembrança traumática. O ato de comer não deve ser obrigatório, mas divertido. Não deve ser um momento onde os pais devem deixar prevalecer o seu poder de impor limites.

Segundo Laura Gutman, aos poucos as crianças se interessam a comer tudo e permanecer à mesa com os demais familiares, isso, na medida em que percebem algo interessante acontecer, as pessoas se interessando uns pelos outros, se há alegria, ninguém quer perder, por menor que seja.

“A refeição é um ritual sagrado e como tal é o momento ideal para aprender a se encontrar consigo mesmo e com os demais. Não há fórmulas mágicas para que as crianças aprendam a comer, mas, se ofereceros um espaço harmonioso para os adultos, as crianças saberão reconhecer a doçura e o calor do amor familiar”. (Laura Gutman)

E aí que esses dias fiquei me perguntando, num desses momentos que permiti Benjamin sair da mesa sem comer (e do qual fui interpelada como a que mima o menino), de onde tirei tanto discernimento para resolver internamente que estava tudo bem se ele não comesse e que isso não significava falta de limites, apenas que não queria fazer da refeição uma tortura. Lembrei-me da infância. E lembrei que leio e busco muita informação sobre educação e maternidade. Ou seja, as minhas convicções estão baseadas não só em vivências, mas em conhecimento – o que todos os pais (e mães) deveriam buscar.

*

Trechos em negrito tirados do livro “A Maternidade e o encontro com a própria sombra“, de Laura Gutman.

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