05 ago 2014

Família e Educação: O conflito entre ser permissivo e dizer não ao filho

Família e Educação

A pergunta que mais ouvi nos últimos dias “você viu o vídeo do menino que teve o braço arrancado por um tigre?”. Só vi o vídeo ontem cedo, ao chegar no trabalho, porque a TV próxima à minha mesa estava ligada, caso contrário não teria visto porque me permito não procurar tragédias, afinal, são muitas diariamente. Só que após ver o vídeo fui ler sobre o caso e fiquei mais indignada e impressionada.

Eu não quero julgar esse pai. Mas infelizmente, não tem como falar desse assunto sem julgar os pais dessa criança, que devem estar sofrendo muito, óbvio, pelo ocorrido e pela própria falta de discernimento. Além do fato de o menino ter ficado sem o braço, me comove também, nessa história, a falta de limite e autoridade que nós pais impomos cada vez menos aos nossos filhos. O vídeo que assisti, foi ao ar no programa do Fantástico, dia 03 de agosto, no qual em determinado momento o pai diz “as pessoas (em volta) estavam achando bacana, curtindo”. Impressiona-me as pessoas em volta assistirem (e filmarem!) e não chamarem a atenção desse pai e dessa criança. Não, não tem a menor graça, não é nada bonitinho e bacana ver uma criança alimentando e atentando animais selvagens não domesticados, ultrapassar a passagem proibida pelos visitantes onde visivelmente se vê a placa “PERIGO! Não ultrapasse”. Se eu tivesse no local, com certeza seria candidata forte a brigar com esse pai. Aí vem um oportunista, ops, um advogado e diz que a culpa é do Zoológico.

Sem querer achar culpados nessa altura do campeonato, mas as pessoas em volta deviam sim ter chamado a atenção da criança e do pai, nessa hora aonde estava um segurança, guarda ou sei lá o quê do parque (?!),  e essa pessoa que filmava (?!), e o pai… esse pai foi negligente. Infelizmente, esse é o resultado de uma educação sem “nãos”, sem limites. Porque, gente, a criança não deveria estar ali, não deveria ter pulado a grade que limita o espaço entre visitante e animal!

Abre parênteses.

Eis algumas definições de limite encontrada no dicionário Houaiss:

Limite: 1. linha que determina uma extensão espacial ou que separa duas extensões; 2. ponto extremo que não pode ou não deve ser ultrapassado.

Limitar: 1. determinar ou constituir limite, 2. fazer fronteira, restringir; 3. determinar o número, a quantidade de; 4. não ir além.

Fecha parênteses.

Toda criança precisa ter noção de limites, seja desde as coisas simples como jogar bola dentro de casa – para citar um exemplo bobo. Não pode! Jogar bola dentro de casa pode quebrar um vaso, um porta retrato, uma janela, até a televisão. Ou tudo bem quebrar a televisão só porque o filho quer jogar bola dentro de casa?! Em minha opinião, tudo bem existir doses de regras e disciplina na educação dos filhos. Eles não deixarão de nos amar por isso. Mas nos tempos atuais, pais e mães preferem a permissividade do que lidar com o aborrecimento, o choro, a birra da criança.

Quantas vezes já andei com Benjamin no colo no banco traseiro do carro… Eu que vivo pregando “os piores acidentes de automóvel podem acontecer na esquina de casa” já andei com Benjamin no colo para não ouvir toda aquela choradeira. Ok, não foram muitas vezes, dá para contar nos dedos de uma mão. Mas não pode! É proibido! É negligente! É burrice! Infelizmente, não podemos atender todos os caprichos dos nossos filhos. É melhor ouvir ele chorando todo o trajeto preso devidamente à cadeirinha (o que já aconteceu com a gente algumas vezes) ou eu lamentar o que deveria ter feito e não fiz?

Já está mais do que provado que a falta de limites tem consequências negativas para o desenvolvimento da criança – que deve aprender a se comportar, a ouvir “não”, a aceitar regras, a esperar a sua vez, a dividir. Limite também dá noção de respeito – próprio e aos outros. Os nossos “nãos” ajudam a criança a lidar com a frustração, os prepararam para lidar com as diversidades da vida adulta.

Não é nada fácil educar e estabelecer limites. Lembro do meu receio, com Benjamin ainda na barriga, de ser a mãe chata e brava. Pais casados ou separados, imagino, encontram as mesmas dificuldades. Entre os casados sempre tem o mais “bonzinho” e o “chato”. Entre os pais separados, o que não mora com a criança, é, sem dúvida, o mais legal, o que permite tudo, o que nunca diz “não” – quem passa pouco tempo com o filho quer passar esse tempo censurando?! Costumo dizer que ninguém quer fazer a parte suja, ninguém quer manchar sua imagem de bom pai (boa mãe). Mas alguém tem que fazer! Alguém tem que explicar os motivos dos “por que não pode?”. Alguém tem que brecar. Embora, acredito, deveria ser algo feito em conjunto. Queremos criar pequenos tiranos ou cidadãos com noção do certo e errado? Permissividade não é sinônimo de amor.

Abre o segundo parênteses.

Agora definição de autoridade e autoritário no mesmo dicionário:

Autoridade: 1. direito ou poder de ordenar, de decidir, de atuar, de se fazer obedecer; 2. entidade que detém esse direito ou poder; 3. autorização oficial para se realizar algo; 4. personalidade que permite exercer influência sobre pessoas, pensamentos e opiniões; 5. especialista de reconhecido mérito em dado campo de conhecimento; 6. justificativa, fundamento, base; força convincente, peso.

Autoritário: 1. relativo a autoridade; 2. que se firma numa autoridade forte, ditatorial; 3. revestido de autoritarismo; dominador, impositivo; 4. que infunde respeito, obediência; 5. a favor do princípio de submissão cega à autoridade.

Fecha o segundo parênteses.

Impor limites não significa proibir os filhos de tudo, não significa ser duro, muito menos ser autoritário, mas sim usar sua autoridade de pai e mãe com amor, carinho, respeito, atenção. Significa ser coerente (o pai do menino iria lá atazanar o tigre?! Ou seja, você faz e deixa de fazer aquilo que fala para os filhos), dialogar, explicar, apresentar os prós e os contras, mostrar que todo bônus tem seu ônus e que cada escolha (certa ou errada) trás consequência para uma vida inteira. Esse menino, por exemplo, nasceu com seus dois braços, agora terá que lidar com sua nova realidade. E a família toda terá que aprender com isso e superar esse desafio.

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Uma resposta para “Família e Educação: O conflito entre ser permissivo e dizer não ao filho”

  1. Lele disse:

    Eu ando lendo mundo e conversando muito sobre esse tema… ontem mesmo estava falando: autoridade nao pelo medo, obediência não pelo medo, pelo entendimento, pelo respeito.
    Causa e consequencia…. enfim.
    Adoro seus posts!
    beijo enorme
    Lele

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