29 mar 2018

A guloseima pode esperar

por
Gabi Miranda

Chefe de Papinha, Colunas, Destaque

a guloseima

Sim, vai acontecer. Um dia o seu filho vai comer chocolate, jujuba, pirulito, bolo, brigadeiro. Vai chegar o momento de experimentar a bolacha recheada, a guloseima cheia de corante, o doce que é puro açúcar. Mas não precisa ser o quanto antes e você não precisa apressar essa apresentação.

“Se já vai comer mesmo um dia, por que esperar?”. Porque paladar não é algo que nasce pronto; ele é formado. A gente começa a pintar as primeiras nuances do paladar do nosso filho quando ele ainda está na barriga. Ele nasce e esse paladar segue sendo formado, inicialmente através do leite materno e depois, a partir dos seis meses, com a introdução alimentar.

a guloseima

As escolhas alimentares feitas na primeira infância serão determinantes na vida adulta e quem colabora para a formação desse paladar é quem apresenta os alimentos para o bebê. Se logo de cara ele conhece o sabor viciante e marcante do açúcar, a competição fica injusta para o sabor verdadeiro das frutas.

Se a criança é apresentada para os sabores artificiais do tempero pronto, do macarrão instantâneo, da salsicha, a concorrência com os legumes e verduras fica desequilibrada.

O bebê nasce com o sentido do paladar funcionando mas conforme cresce e se desenvolve é que ele vai percebendo os sabores diversificados. Já nos primeiros três meses o bebê distingue o sabor doce dos azedos e amargos (e olha como pode dar confusão se você já nessa época oferecer um chá adoçado para ele “se acalmar”!).

Dos três aos seis meses, o bebê começa a colocar tudo na boca e vem a falsa ideia de que ele está passando vontade de comer as coisas que vê pela frente. Ele apenas está conhecendo o mundo pela boca – oi, fase oral! – e essa “vontade” vai aparecer para qualquer coisa – oi, terra do parquinho!

Quando completa seis meses, o bebê já consegue sentir bem os sabores e é nessa etapa que é fundamental apresentar alimentos diversificados em sua versão natural. Precisa literalmente acontecer uma explosão de sabores na boca dele, mas sabores de comida de verdade.

A partir de 1 ano, o bebê cada vez mais quer ganhar o mundo. Alguns já andam e quase todos querem comer sozinhos. Antes mesmo de completarem 1 ano, os bebês devem começar a comer a mesma comida da família e é aí que mora o perigo, porque essa comida precisa ser saudável. Bebês que fazem a introdução alimentar pelo método Baby-Led Weaning, em tese, já comem o mesmo que os pais desde os seis meses.

Junto com a ideia de compartilhar a comida da família, vem a ideia de que o bebê está liberado para comer qualquer coisa. Se você passou ilesa pelos palpites alheios até aqui, a partir daí eles surgem com força.

“Coitadinho, deixa o menino comer bolo.”

“Nossa, no meu tempo não tinha essas frescuras não, podia comer qualquer coisa e ninguém morreu.”

“Deixa ele ser criança. Criança tem que comer porcaria mesmo.”

Não, não tem. Eu entendo que isso está enraizado no pensamento popular. Comida de criança infelizmente virou sinônimo de porcaria açucarada cheia de corante ou produto alimentício artificial recheado de sódio e gordura. Só adulto que precisa se preocupar com o que come e caprichar na salada e nos integrais. A ideia de que a criança precisa da guloseima para ser feliz não é nova.

Mas, não precisa. O que traz felicidade para uma criança não é o pirulito que ela come. É o carinho e afeto que ela recebe da família. É a brincadeira com o pai e a mãe. É correr pela praia ou pelo parque com a vovó. É ser transformada em avião pelo vovô. É passar a tarde com os amigos inventando um mundo novo. Amor traz felicidade. Açúcar é açúcar.

Se você apressa essa apresentação e oferece a guloseima já com um ou dois anos, acredite, vai ser bem mais difícil fazer o seu filho continuar aceitando a comida de verdade sem reclamar. Eles já passam naturalmente pela fase da recusa alimentar. Faz parte do crescimento. Mas se o seu filho conhece o sabor forte e marcante dos industrializados, das guloseimas, antes mesmo de completar dois anos, a comida de verdade terá menos apelo para ele.

O fabricante do petit suisse coloca no rótulo que o produto é indicado para crianças a partir de 4 anos. Então, por que dar para um bebê? Salsicha está na lista de alimentos perigosos devido ao risco de engasgo. Aquele mesmo engasgo que amedronta muitas pessoas na introdução alimentar e parece ser esquecido quando a criança faz 1 ano e a pessoa logo dá um cachorro quente.

O refrigerante do rótulo vermelho surgiu como um xarope com água carbonada. E agora os buffets infantis colocam somente isso nos copos de plástico na altura das crianças – quando muito, você encontra dois copos de água ou de suco em pó.

Pode ser que na primeira vez que o seu filho comer brigadeiro ele vá amar e querer comer cinco, seis? PODE SER. Mas provavelmente ele também poderá achar muito doce ou ficar satisfeito com um ou dois. Conheço várias crianças que não gostam de bolo recheado e cheio de glacê. Crianças mais velhas que comem um pirulito e não precisam se jogar no chão pelo saco todo. Porque o vício do açúcar não foi instalado logo cedo.

Se você forma o paladar do seu filho para o sabor verdadeiro dos alimentos, lá na frente as escapadas das tranqueiras terão impacto menor sobre ele. E o melhor de tudo é ensiná-lo que essas guloseimas são exatamente isso, uma guloseima, e não um alimento. A gente não almoça nuggets com batata sorriso e janta cachorro quente toda hora. Nem toda semana. Isso não é comida.

E qual é a idade certa para liberar tudo?

A idade real do “agora pode tudo” não é com um ano, nem com dois. Se você puder esperar até os quatro, cinco anos, melhor ainda. Se você não quiser dar nem com seis ou sete anos, ótimo! Não tem idade certa para dar porcaria. Mas tem idade errada.

E quando ele começar a conhecer, a rotina alimentar não deve mudar. Porque aí se ele for brincar com o amigo e comer bolacha recheada, tudo bem. Não significa que você vai começar a dar bolacha recheada para ele de lanche. Mas essa que ele comeu na casa do amiguinho não vai mudar o que ele já está acostumado a comer em casa se você não mudar o que compra.

Isso que é fundamental quando seu filho conhecer as guloseimas. Se ele já está acostumado a comer o biscoito integral, por que você vai parar de comprar? Se ele toma bem o leite batido com fruta, por que você precisa trocar pelo achocolatado só porque ele tomou um dia e gostou? Se ele está acostumado com o macarrão tradicional, por que você vai começar a comprar o instantâneo?

Comida de criança é comida de verdade. Guloseima é guloseima. E a guloseima um dia vai chegar. Acredite, seu filho tem a vida inteira para comer. E se a vida inteira vai ser tão longa, por que ele precisa comer com um, dois anos? A guloseima pode esperar.

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