12 jul 2016

A maternidade é um mito, mas…

por
Gabi Miranda

Desabafo, Destaque, Maternidade

A maternidade é um mito, mas a vida é mehor com filhos

Imagem por Danielle Guenther

Imagem por Danielle Guenther

Sinto que faço certa apologia à vida materna. Eu já falei que filho traz felicidade sim e sempre falo para as amigas que filho é a melhor coisa do mundo (pra mim é realmente!). Tenho uma amiga que não tem filho (ainda) e eu vivia lhe perguntando: quando você vai ter um bebê? Coisa mais chata essa, né?! A sociedade sempre verbalizando e achando que é um dever a mulher procriar. E se ter filhos não é desejo da minha amiga? Talvez isso nem esteja em seus planos, talvez ela nem me fale nada justamente porque vivo cultuando a (minha) maternidade.

Sim, eu cultuo a minha maternidade. E a maternidade é um mito!

O mito da maternidade começa desde a gravidez. A mulher não pode nem reclamar da gestação. Tenho uma prima que não achou divertido estar grávida, mas ama ser mãe e já que ter mais filhos. Eu posso dividir minhas duas gestações em duas fases: o início que não foi nada divertido e que eu vomitava a cada 7 minutos. O meio da gestação em diante, quando enfim adorei estar grávida e vi um pouco de graça (fala que não é bom usar as filas e assentos preferenciais, ter todo mundo te paparicando?!). Pós-parto, pergunto-me se preciso mesmo listar os mitos?! Mas não resisto, vou citar o que não é mito: 25h cheirando a leite, cabelo despenteado, noites mal dormidas, aquela bendita cinta apertando nossos órgãos corpo, restrições alimentares, peso acima do normal, corpo bagunçado, seca sexual, etc, etc, etc….

Meus filhos me trazem alegrias, ser mãe me faz genuinamente feliz. Mas nem todo mundo sente o mesmo. Eu nunca imaginei que a maternidade seria o que é pra mim (tinha uma imagem até pejorativa). Talvez eu tenha mudado minha percepção devido a alguns fatores: Benjamin ser um bebê bonzinho, dormir a noite toda desde sempre, não ter tido cólicas, não ter sofrido com o nascimento dos dentes, não dar trabalho para comer, ter minha mãe me ajudando, contar com a colaboração efetiva do marido pra tudo, ter condições de pagar escolinha, enfim…(a quem possa interessar, também entrei no meu jeans preferido em um mês!) uma série de fatores que influenciam e contribuem sim para a realização da maternidade. Mas a segunda filha veio, é de um jeito tanto diferente e agora sinto um prazer imensurável ao dizer que sou mãe de dois. Ao contrário de quando nasceu o Benjamin, não tivemos muita ajuda quando Stella nasceu e não temos até hoje. E tenho que avisar: a cooperação das pessoas ao redor é fundamental, pois cuidar de um filho sozinho não é brinquedo não!

Só que ser mãe implica abrir mão de várias coisas para cuidar de um outro ser que não é você, mas parte de você. Alguns diriam que é um sacrifício, acho forte essa definição, mas para quem não tem o desejo em ser mãe, beira a isso. Não é fácil cuidar de uma criança e menos fácil ainda todas as responsabilidades que nascem junto com a cria. Sim, a maternidade é uma armadilha para todos que não a conhecem (e eu querendo jogar a minha amiga nessa arapuca!).

Antigamente, ser mãe era o papel principal da mulher. Ser mãe e cuidar do lar. Só que no século XX/XXI aconteceu a maior tendência revolucionária na humanidade: a emancipação da mulher. Passamos a pleitear direitos igualitários. E hoje somamos mais tarefas, responsabilidades e funções à nossa vida. Tornamos-nos mulheres independentes, com enormes jornadas de trabalho fora e dentro de casa + filhos. Com isso, vivemos em conflito com nós mesmas. É a cobrança da sociedade e a nossa cobrança em realizar, conquistar, ter sucesso, esse dar conta de tudo e, a insegurança de nada dar certo. E ainda sermos os melhores e mais perfeitos pais.

Dr. José Martins, em seu livro A Criança Terceirizada, diz que quem não está disposto a mudar sua vida para cuidar de seus filhos não os deveria ter. Ou seja, os filhos precisam de pais dispostos a exercer a função e, digo mais, de pais disponíveis emocionalmente.

No seriado Sex and the City, Miranda, advogada renomada, nunca se imaginou mãe até engravidar, querer abortar e decidir ir em frente com a gestação. Ela pariu, se tornou mãe, vive para o trabalho e apesar de tudo se sai bem na função materna. A Carrie, a amiga e personagem principal da série, ao final de um episódio, levanta a questão: Se nós nunca saíssemos da linha, nunca teríamos filhos, ou nunca nos apaixonaríamos, ou não seríamos quem somos.

Escolhas e Possibilidades. Uma questão também de nos conhecermos internamente. Compreendermos nossos desejos mais íntimos. A maternidade pode ser tudo de bom na minha vida, mas pode não ser para a vida da minha amiga e de várias outras mulheres. Descobri o quanto a maternidade é gratificante pra mim mas só depois que adentrei na vida materna. Poderia ser o contrário também. Eu poderia ter detestado ser mãe (aliás, tem dias que eu quero fugir. Quem nunca?).

A maternidade é um mito, é uma armadilha. E a partir de hoje vou me calar. Não faço mais parte do grupo de pessoas que perguntam “quando você terá filhos?”. Não quero cobrar nem impor nada a ninguém. Que as mulheres se tornem mães se desejarem ou quando achar que estão prontas (embora, nunca estaremos). Que busquem sua satisfação pessoal, profissional, financeira. Que sejam acima de tudo felizes da maneira que acreditam ser possível, seguindo seus instintos e não os conselhos de mães afetadas como eu.

Eu, por motivos muito íntimos, gostaria ainda ter mais um filho. Pra mim um é pouco, dois é mais ou menos, três seria ideal. Não existe no mundo relação mais forte que a de irmãos. Se filho é tudo de bom, irmão então…!

*

Leia também: vida materna, por que não registramos o caos em vez de buscar a cena perfeita

compartilhe!

2

comente!

2 respostas para “A maternidade é um mito, mas…”

  1. […] há mulheres que não querem ter filhos – e tudo […]

  2. patricegu disse:

    Gabis, adorei esse post. Não sei se a maternidade é um mito. Acho que o amor materno, sim. Elisabeth Badinter quase foi crucificada quando decretou que o amor materno é algo construído. Se hoje temos toda a clareza das necessidades dos filhos nos 3 primeiros anos de vida, não dá pra dizer o mesmo nos séculos anteriores, quando as mulheres tinham de lavrar, colher, cozinhar e amamentar, estarem disponível pra birras, choros e etc. Acho que muita criança morreu, abandonada, porque cansava demais uma mãe com 10 filhos. Recomendo, caso ainda não conheça, a leitura dos textos da Badinter. Confesso que ainda estranho a decisão de mulheres em não ter filhos, mas, por outro lado, sinto que pesa em nossos ombros sermos as únicos responsáveis pela “perpetuação” da espécie. Acho que, no fundo, o meu estranhamento quando escuto uma mulher não querer filhos é não entender direito como alguém pode negar a perpetuação da espécie. Logo, o que mais desejo é uma mudança tão grande na genética do ser humano que possibilite que os homens engravidem nos próximos séculos! rsrsrsrs.
    Beijos

  3. Nossa, Gabi! Compartilho totalmente desse teu pensamento. Eu tenho amigas (amigas mesmo, não apenas conhecidas) que decidiram não ser mães – e dou o maior apoio pra elas! Tenho, ainda, algumas amigas que estão na dúvida – para essas, eu digo que na dúvida é melhor não ter. Porque já é difícil ser mãe querendo muito e tendo ajuda, imagina ser mãe sem querer?
    Mas as minhas amigas que são mães e que amam ser mães, como eu… ah… com essas eu tenho conversas infinitas! hehehe

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.