08 jun 2018

Não existe alergia a lactose

por
Gabi Miranda

Chefe de Papinha, Colunas

Você sabe as principais diferenças entre intolerância e alergia alimentar? Muitas pessoas confundem esses dois diagnósticos, achando não haver muita diferença entre eles. A verdade é que os quadros não são iguais! E um tratamento incorreto pode trazer riscos à saúde, especialmente se for uma alergia.

Para início de conversa, NÃO EXISTE ALERGIA À LACTOSE. Você pode ter INTOLERÂNCIA à lactose ou ALERGIA à PROTEÍNA DO LEITE DE VACA.

alergia a lactose

Vamos começar pela definição:

– “ALERGIA ALIMENTAR: reação adversa à proteína alimentar caracterizada por mudanças funcionais nos órgãos-alvo, mediada por um mecanismo imunológico (IgE). Geralmente transitória, de acordo com a maturação do trato digestivo (até 3 anos de idade).”

– “INTOLERÂNCIA ALIMENTAR: refere-se a qualquer resposta anormal a um alimento ou aditivo, sem envolvimento de mecanismos imunes. Normalmente deficiência de enzimas digestivas de açúcares (ex.: deficiência de enzima lactase para digerir a lactose do leite, causando intolerância).”

Um indivíduo que tem intolerância à lactose reage ao AÇÚCAR do leite, uma intolerância que ele pode levar para a vida toda e pode controlar com a ingestão de produtos sem lactose, que geralmente são alimentos que trazem a enzima lactase em sua composição.

Já no caso da alergia, tanto o tratamento quanto os sintomas são mais complexos e não basta retirar a lactose da dieta. Em crianças, especialmente bebês, o mais comum é a alergia às proteínas do leite de vaca, comumente chamada de APLV.

As manifestações clínicas mais comuns da APLV são:

Déficit de ganho de peso; Hipersensibilidade gastrintestinal imediata; Síndrome da alergia oral;  Esofagite eosinofílica; Doença do refluxo gastroesofágico; Gastroenteropatia eosinofílica; Enteropatia; Enterocolite; Proctite e proctocolite alérgica; Constipação intestinal crônica; Manifestações cutâneas.

O tratamento mais comum da APLV é a dieta de exclusão total, ou seja, excluir leite, derivados e traços. TRAÇOS?

Isto mesmo, não basta deixar de ingerir alimentos com leite e derivados, como queijos, manteiga, creme de leite e iogurtes. Também é preciso se certificar de que não haja contato com nenhum alimento que possua proteínas do leite de vaca. Em outras palavras, você precisa consumir alimentos “limpos”.

Em muitos casos é preciso garantir que haja utensílios domésticos próprios para o bebê alérgico. Inclusive, a esponja de lavar louça, para ter certeza de que aquela mesma esponja não lavou um copo onde foi servido leite de vaca, por exemplo. Na maioria das vezes, a casa toda acaba aderindo à dieta, o que ajuda na melhora do quadro.

Também é preciso ler SEMPRE os rótulos dos produtos industrializados, porque infelizmente as fórmulas mudam de tempos em tempos. Felizmente, já temos em vigor uma portaria da Anvisa que obriga os fabricantes de produtos alimentícios a informar no rótulo, em destaque, os principais alergênicos presentes no produto, mesmo que sejam somente traços. O mérito dessa nova regulamentação é das criadoras da campanha Põe no Rótulo.

No caso do bebê amamentado exclusivamente por leite materno cabe à mãe fazer a dieta, para garantir que as proteínas do leite de vaca não passem para o leite materno. Os bebês que não mamam mais vão se alimentar de fórmulas próprias para alérgicos.

Aqui em casa eu tive o caso da Gabriela, inicialmente com a minha dieta de exclusão quando ela ainda mamava no peito, e depois ela mesma fez a dieta quando completou 1 ano e tentamos fazer a introdução gradual do leite.

Hoje, a Gabi não apresenta nenhum sintoma da alergia, mas observamos que a ingestão do leite in natura e alguns derivados provoca sintomas de intolerância — dor de barriga e aumento dos gases – e também aumenta demais a produção dela de muco. Basta consumir leite por três dias e ela já começa a ficar com o nariz escorrendo, peito mais carregado.

Nossa opção hoje aqui é pelos extratos ou “leites” vegetais, que ela adora. Toma de arroz, de amêndoas, de aveia, de coco, puro ou misturado com cacau. Foi uma escolha que ela mesma fez quando experimentou leite vegetal e gostou. Ela não gosta do sabor do leite de vaca, então nem adianta comprar leite de vaca sem lactose. Nos preparos culinários, eu opto por usar derivados sem lactose, mas ela não reage tanto se consumir um prato feito com creme de leite comum, por exemplo.

Os leites vegetais são uma excelente opção de troca. Mas é fundamental conversar com seu pediatra e com um nutricionista antes de eliminar o leite de vaca da vida do seu filho sem necessidade.

O importante é não deixar de oferecer alternativas à criança apenas porque ele não pode consumir leite de vaca e derivados, sob o risco de causar deficiência de vitaminas ou subnutrição. Na alimentação, você pode preparar pães, biscoitos e bolos que não utilizam nada de leite na composição, e se jogar nas frutas, verduras e legumes.

Normalmente a APLV não se estende por muito tempo. Mas, é FUNDAMENTAL buscar ajuda e fazer o tratamento correto, inclusive na etapa de reintrodução do leite de vaca na dieta.

Existem grupos de ajuda a pais de crianças alérgicas no Facebook. Sites como o Alergia à Proteína do Leite de Vaca, com dicas de alimentos que podem ou não ser consumidos, além da lista dos ingredientes que você tem que saber identificar nos rótulos. O site Sem Glúten Sem Lactose também traz receitas excelentes para substituir o leite de vaca.

Se você suspeita que seu filho tenha APLV, converse com o pediatra, com um alergista e com um nutricionista para indicar uma boa dieta para o seu filho.

Por fim, é fundamental RESPEITAR a criança com alergia ou intolerância e não achar que é frescura. E NUNCA OFERECER UM ALIMENTO PARA UMA CRIANÇA SEM ANTES PERGUNTAR AO RESPONSÁVEL SE ELA PODE CONSUMIR AQUILO. Alergia é coisa séria!

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