27 jan 2016

O lado B da maternidade

por
Gabi Miranda

Desabafo, Destaque, Maternidade

O lado B da maternidade existe sim, mas…

http://www.danielleguentherphotography.com/

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Tenho visto pela internet, textos com a pretensão de mostrar que a maternidade não é tão romântica como se vê por aí. Muitas amigas tem vindo comentar comigo que sentem vontade de ter filho ou de ter o segundo por conta das coisas que posto nas redes sociais sobre a minha nova vida como mãe de dois, principalmente da relação que Benjamin vem construindo com a irmã. Eu já disse que ter filhos traz felicidade, e admito que apesar de tudo, acho a maternidade maravilhosa. Esse “apesar de” trata-se do lado B da maternidade. Continuo acreditando que filhos trazem felicidade sim, mas maternar é contradição, maternar é doloroso. Ao mesmo tempo que a maternidade traz consigo muitas alegrias, traz também vários sentimentos imensuráveis. Taí a culpa – essa maldição da maternidade – que não me deixa mentir.

Alguns acham que as mães, inclusive mães blogueiras, ocultam o lado B da maternidade, eu não encaro assim. Em geral, acredito que tem o lance de culpa da culpa. Explico. Eu amo ser mãe, mas é difícil admitir que às vezes eu queria ir ao banheiro em paz, comer minha comida quentinha, dormir noites inteiras, não ser interrompida numa conversa com adultos, ir à uma festa com a única responsabilidade de me divertir sem ter hora para voltar pra casa, não ter que me preocupar com quem a criança ficará durante uma semana de férias enquanto eu trabalho. É difícil maternar quando ser mãe é sinônimo de amor incondicional, dedicação exclusiva, abrir mão de si próprio.

Sim, para ser mãe é preciso abdicar. É preciso entregar-se. E isso significa desistir de tomar banhos longos, do sono, da academia, do chopp ao final do dia, muitas vezes do trabalho, da liberdade de não fazer simplesmente nada. Ser mãe é viver em conflito. Por exemplo, trabalhar ou largar o trabalho? Voltar ao trabalho significa terceirizar o filho, deixar sob os cuidados de outra pessoa. É doloroso demais deixar seu filho às 7:00 da manhã e pegá-lo às 19:00. Também é doloroso demais ficar 100% do tempo só com a criança e realizar as mesmas tarefas de sempre: trocar fralda, dar banho, amamentar. Assim como também é doloroso deixá-la. Vivemos a licença maternidade como se fosse um fardo e desejamos que ela termine logo (como se fosse longa), mas quando termina desejamos ficar mais tempo com o nosso filho.

Desejamos amamentar e fazemos esforços para isso mesmo sabendo que não estamos em condições. Queremos ver nossos filhos realizarem suas primeiras conquistas, comer, sentar, falar,  engatinhar, dar os primeiros passos. Mas também queremos conquistar o mercado de trabalho, atingir metas, realizar outras coisas além da maternidade. Não queremos perder nada e vivemos frequentemente fazendo e assumindo escolhas difíceis, inclusive a de esconder os sentimentos negativos que acompanham a maternidade. Mães reais tem vontade de gritar, chorar, largar tudo e fugir. Desejam uma hora apenas sem ouvir o chamado “mãe” e se punem duramente no minuto seguinte ao desejar isso. Mães brigam, perdem a paciência, gritam com seus filhos.

Montar enxoval é maravilhoso, publicar fotos do filho recém-nascido com declarações de amor incondicional é sublime, mas espere só até o final do primeiro mês de vida do bebê, numa noite em que você acordar para amamentar e cambaleante de sono chutar a quina da cama. O momento único e mágico transforma a vida do casal, que nunca mais serão os mesmos com a chegada do bebê. Prepare-se para uma temporada seca de vida sexual e uma lista infindável de desculpas, no topo delas está o cansaço, consequentemente o estresse. Surgem brigas, mal entendidos, distanciamento. Se marido e mulher não tiverem boa cabeça e muito amor no coração, casamentos se desfazem antes mesmo do bebê completar o primeiro aniversário. Se o marido não é um cara que contribui exercendo efetivamente seu papel também de cuidados da casa e com as crianças, esquece…

Pouco se fala sobre o lado B da maternidade. E não é falado porque sentimos vergonha de nos queixarmos já que escolhemos ser mães, já que desejamos ter o segundo (terceiro, quarto) filho. Temos vergonha de assumir esses pensamentos, as nossas fraquezas. Também, óbvio, porque as pessoas olham torto se você admite tudo isso e ganha rótulo de menas mãe. A realidade é uma só: ninguém sabe como é a maternidade até entrar nela e viver essa experiência. Então é quase humanamente impossível, falar do padecimento da maternidade, sem finalizar com as coisas boas que são maiores que tudo. Eu seria até contraditória se não fizesse isso, afinal, tive outro filho (e teria muito mais se as condições permitissem).

www.danielleguentherphotography.com/

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Acredite: sempre encontraremos motivos para reclamar, isso é o que mais tem. Talvez por isso, nós mães blogueiras, focamos no lado bom da maternidade. Afinal, ela traz felicidade sim (ainda vale aquele post), existe sim um lado poético, mas traz um impacto profundo em nossa vida e, na maioria dos casos, nos transforma para melhor. O grande problema é que as pessoas querem mudanças, mas não querem as consequências que acompanham essas mudanças.

Ter filhos dá trabalho! Dá trabalho disciplinar, dar limites, educar. Mas é um trabalho recompensador, embora seja por algumas vezes chato, é algo que fazemos com amor. Um amor tão grande que não importa, assumir francamente, que cuidar de um indivíduo para o mundo é muitas vezes exaustivo, exige de nós paciência, dedicação e ocupa nosso tempo. Maternidade é uma transformação e acho que não precisa ser desconstruída. E meu conselho, se é que é bom, só tenha filhos se for um desejo latente da sua alma e do seu coração. E se tiver, venha conversar comigo, vamos reservar uma tarde, com chá e bolo de chocolate, para falar (e reclamar!) francamente sobre as complexidades dessa escolha de ter filhos.

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Não deixe de ler: TER FILHOS TRAZ FELICIDADE?

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Uma resposta para “O lado B da maternidade”

  1. Me vi no texto! Realmente, a culpa é a maldição da maternidade e ser mãe, é viver em conflito!

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