18 fev 2020

O que aprendi com a morte da minha sobrinha

por
Gabi Miranda

Desabafo, Destaque, Maternidade

Sonhei muito com esse dia ao longo de 2019. Eu ao lado da minha irmã, paramentada com aquela roupa verde clara, touquinha nos sapatos, massageando suas costas, oferecendo-lhe minha mão para que ela pudesse apertar quando a dor aumentasse, beijo na testa dizendo “respira e inspira, cheira flor e apaga vela”. Faria o papel da nossa mãe. Aliás, quando esse dia chegou, eu só queria a nossa mãe ali com a gente. Era pra ter sido tudo do jeito que sonhei, exceto por algo que estava fora do lugar…

Passaram-se 252 dias desde o dia em que minha irmã partilhou comigo a novidade. Pra ela um susto súbito. Pra mim uma alegria. Meus filhos teriam um primo (a). Enfim, eu seria tia e experimentaria o sabor desse cargo que dizem ser tão doce. Ela me perguntou: o que vou fazer agora?

Não perguntei sobre o que ela queria e acho que nem dei tempo pra ela pensar em outra alternativa. Respondi que ela faria o que fez a nossa mãe, com coragem enfrentaria cada desafio que traz a maternidade (solo) e que eu estaria ao seu lado nesse caminho. Uma criança é uma nova esperança.

O que aprendi com a morte da minha sobrinha⠀

Era 25 de dezembro de 2019, 36 semanas completas. Uma mensagem no WhatsApp. Uma ansiedade brotou em nossos corações. Seria naquele dia?! Passamos um dia tranquilo, almoçamos em família a ceia da noite anterior, levei minha irmã embora pra sua casa. Eu, marido e as crianças ainda tivemos pique para ir ver a árvore de Natal do Ibirapuera. Aquele brilho ofuscando os olhos e eu só pensava que daqui a um ano, eu estaria com meus filhos e minha sobrinha no colo naquele mesmo lugar.

Passou uns 30 minutos desde a última mensagem me contando que ela estava sentindo contrações, tinha ido para maternidade e estava com o meu cunhado, me avisaria se fosse hoje mesmo ou só alarme falso. Foi o tempo de tomar um banho e o celular tocou. Pela segunda vez minha irmã ligava com a voz embargada para dar uma notícia inesperada. A primeira vez, há 5 anos, ela ligou falando alto, confusa, “a mãe, aconteceu, ela não queria entrar no hospital e ao entrar ela teve um ataque, a mãe, Gabriela, eu tô aqui, vem pra cá”.

Parece que minha irmã foi escolhida a dedo para esses acontecimentos. Quando nossa mãe se foi, eu falei que aconteceu junto dela porque ela era mais forte que eu. Ela que já enfrenta as coisas mais absurdas em seu trabalho. Mas agora… de onde tirar força para encarar a perda de um filho?

A gente acha que sabe o futuro. Quando acordamos, achamos que sabemos como terminará o dia. Com a morte da minha mãe aprendi que a cada segundo, assim de repente, pode acontecer alguma coisa que nos fará sofrer de uma maneira que nunca haverá lágrimas suficientes.

Perdi a melhor parte de mim: minha mãe

Agora percebo: um dia a mais e é possível enxergar o milagre da vida. Para a morte não tem solução. Tem enfrentamento. Não tem milagre que faça aquela linha do coração voltar a subir e descer no mesmo compasso. A morte nos coloca frente a frente com o imponderável nunca.

Nunca. Essa palavra que a gente repete mil vezes ao dia. “Se não parar com isso, nunca mais vou falar com você”; “Eu nunca faria isso”; “Nunca mais vou voltar naquele lugar”; Nunca. Nunca. Nunca. Até que um dia a gente se confronta com um verdadeiro “nunca”. Nunca mais vou receber uma ligação da minha mãe. Nunca vou dizer para ela tudo o que eu gostaria de dizer. Ela nunca verá meus filhos crescerem.

Minha irmã nunca vai sentir o cheirinho da sua bebê. Nunca vai aconchega-lá em seus braços para acalmar um choro, nunca vai lhe cantar uma música de ninar. Nunca.

Eu nunca vou esquecer os três dias que passei com minha irmã na maternidade. Suas dores para parir uma filha que nasceu sem vida. Nunca vou esquecer da minha irmã e o meu cunhado (muito carinhoso o tempo todo com ela), segurando aquele caixãozinho branco e tão pequeno da capela à sepultura. Minha irmã chorou muito. Mais que o dia em que enterramos nossa mãe.

Perdi minha mãe e aprendi a sentir gratidão


A gente não sabe qual é o futuro. Só sabemos que de repente, tudo o que era possível se apaga. Num segundo. Enfim, não há mais nada que a gente possa fazer.

Existir é isso, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso… Há dias bons e outros ruins, dias cheios de esperança e outros completamente nebulosos.

Elis foi o nome que escolhemos pra ela. Uma sugestão minha que significa: Deus é a salvação. Coincidência ou não. O fato é que para alguns desígnios da vida, a fé é o que nos cura. Eu queria poder tirar minha irmã desse tsunami que a afundou na noite de Natal. Sinto-me impotente. Minha maior dor é essa, não poder mudar esse destino. Eu trocaria de lugar com ela. Mas como disse nosso pai, cada um tem seu tempo próprio para vencer essas ondas.

Elis foi um sopro de vida. Um sopro de esperança. Com ela aprendi: não importa se é Natal ou um dia qualquer, todo dia em que não morre alguém é um bom dia.

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8 respostas para “O que aprendi com a morte da minha sobrinha”

  1. Sandra Cristina Corocine disse:

    Nenhuma mãe deveria passar por essa dor…a perda de um filho. Senti na alma o que é perder uma mãe em pleno natal 1985, mas agradeço todos os dias por minha mãe não ter sentido essa dor. Fiquei muito abalada quando soube, e queria poder ajudar de alguma maneira, então descobri que a melhor maneira de ajudar a Luana, minha afilhada de coração, seria respeitar o seu tempo de luto e continuar a realizar minhas orações diárias que se intensificaram desde a perda de sua mãe, minha comadre. E assim continuo a fazer para a Luana, Gabriela e sua família…Agora ainda mais intensidade porque convivo com mães que perderam seus filhos devido a violência, acidentes, doenças, e vejo que a melhor forma de ajuda é a oração. Aquela oração que vem do coração. Um coração aflito e temeroso, confesso. Por pedir todos os dias da minha vida para que me poupe dessa dor dilacerante, e agradecendo todas as manhãs que acordo e posso desfrutar da presença de meus filhos e neto. A única palavra que faz sentido em te dizer Luana é que tenha FORÇA, MUITA FORÇA para prosseguir na sua trajetória de vida. Te amo.

  2. Rejane Rodrigues disse:

    Seus textos sempre nos tocando de maneira profunda. Que Deus em sua infinita sabedoria os conforte e os dê ânimo , força e coragem para seguirem em frente ….🍃🍃🌻🌻

  3. Ana Paula Teixeira disse:

    Gabi não consigo imaginar o tamanho da dor da sua irmã e a de todos vocês, mais deixo aqui toda minha solidariedade e orações. Que Deus posso dar conforto aos corações de vocês.

    • https://bossamae.com.br/novo/wp-content/themes/bossa-mae/img/img-coment.png Gabi Miranda disse:

      Ana, sabe que nem eu consigo ainda dimensionar a dor dela. A minha dor é por ela, é não poder mudar essa situação, é pela frustração do que sonhei em viver como tia. Mas nada se compara ao que minha irmã está passando. Eu queria poder eliminar esse acontecimento das nossas vidas. Obrigada pelo carinho. Super beijo

  4. MariaRosa disse:

    Sintam-se abraçadas!!!
    Sem palavras,pois, você já disse tudo.
    Que vocês continuem unidas e uma sendo rocha para outra.

  5. Renata disse:

    Não sabia da sua sobrinha… meus sinceros sentimentos Gabi… e para sua irmã tb… vc escreveu com a alma… Bjos a todos.

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