20 ago 2015

Por que é tão árduo criar um bebê?

por
Gabi Miranda

Bebê, Comportamento, Filhos

criar um bebê

Imagem Google

Eu havia me esquecido como é árduo criar um bebê. Quão difícil e exaustivo é cuidar de um recém-nascido, principalmente essa primeira fase de puérpera. Deus é muito sábio mesmo, nos faz esquecer algumas coisas para que possamos repeti-las. Afinal, quem teria vários filhos se lembrasse bem como é essa fase inicial? Eu acho que não teria. Tem um outro fator também: Benjamin não chorava. Ele era um bebê bem tranquilo, embora no primeiro mês tenha dado trabalho por noites inteiras porque ficava acordado.

Já Stella chora. É brava e já demonstra traços de sua personalidade, é persistente, objetiva. Chora por coisas pontuais: ou quer mamar. ou quer trocar fralda. ou quer dormir. ou quer até tomar banho. Mas até descobrir o motivo do seu choro, eu já estou chorando também. Como o choro de um bebê pode ser enlouquecedor… e não saber exatamente o que ele quer para podermos atender imediatamente e da melhor forma também é. Além do choro, uma das coisas mais difíceis pra mim é acordar diversas vezes durante a noite. Ficar com ela no colo o dia inteiro, seria moleza se ela já dormisse a noite toda.

Sinto exatamente como Laura Gutman explica em seu livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra“. O bebê se constitui de um sistema de representação da alma materna. E como é difícil controlar todos os nossos sentimentos nessa fase tão delicada. Sentimentos que estão trancafiados e vem tudo à tona nesse momento. E nem sei se devemos mesmo controlar. Acho que precisamos encontrar um equilíbrio.

Tenho um problema sério que é a ansiedade. O não conseguir me dedicar exclusivamente a uma coisa, ficar parada, não fazer milhares de coisas ao mesmo tempo. Então pra mim tem sido muito difícil e doloroso essas primeiras semanas de Stella. Além de dormir pouco, não consigo fazer outra coisa a não ser ficar com ela no colo. Então tenho buscado ser racional, no sentido de pensar que essa fase vai passar e até da parte complicada sentirei saudade.

Sempre penso nela como um bebê que precisa muito que eu esteja bem e disponível 100% para ela. Um bebê pequenino que também vai crescer. Então se nesse momento ela demanda ficar no colo o tempo todo, preciso ficar com ela no colo o tempo todo. Pois ela vai crescer e um dia nem colo mais vai querer. Tenho focado no quanto é gostosinho ter aquele ser pequeno nos braços e no quanto ele cresce demasiadamente rápido.

Tendo consciência dos meus sentimentos e das minhas fraquezas, resgatei o livro da Laura Gutman para achar esse tal equilíbrio que mencionei acima. Destaco a seguir um dos textos que esclarece bem porque difícil cuidar de um recém-nascido.

Por que é tão árduo criar um bebê? 

Todas as mães são capazes, desde que tenham um mínimo de apoio emocional, de amamentar, ninar, higienizar um bebê, de proporcionar os cuidados físicos necessários à sua sobrevivência. São treinadas para esta tarefa brincando com bonecas durante toda a infância. a dificuldade aparece quando é necessário reconhecer, no corpo físico do bebê, o surgimento da alma da mãe, em toda sua dimensão. Devem admitir sua fragilidade, como “mães-bebês”. Cuidar-se como tal. Respeitar-se com essas novas qualidades. Ser paciente nesta fase tão especial e não exigir de si um rendimento igual ao habitual. Abrir-se à sensibilidade que é aguçada e à percepção das sensações que são vividas com um coração imenso e um corpo que elas, mães sentem pequeno porque são, ao mesmo tempo, bebê e pessoa adulta.

É como ter o coração aberto, com suas misérias, alegrias, inseguranças, com todas as situações que precisam ser resolvidas, com isto é o que sou do fundo da minha alma; sou este bebê que chora.

Poderíamos considerar uma vantagem exclusiva das mulheres a possibilidade de desdobrar o corpo físico e espiritual, permitindo que as dificuldades ou as dores pessoais se manifestem com absoluta clareza.

O bebê sente como se fossem seus todos os sentimentos da mãe, sobretudo aqueles dos quais ela não em consciência. A maioria das mulheres não aproveita esta vantagem de ter a alma exposta; é arriscado encarar a própria verdade. No entanto, este é um caminho que inevitavelmente elas percorrerão, embora seja pessoal a decisão de fazê-lo com maior ou menor consciência.

Por isso, ao tentar entender o processo de compreensão dos bebês  das crianças muito pequenas, é indispensável não esquecer que o ser com quem tentamos nos comunicar é, ao mesmo tempo, a mãe que o habita. De fato, as pessoas que trabalham com crianças pequenas deveriam encontrar uma maneira de agir em união com a mãe. Sem a informação pessoal da mãe, sobretudo a informação a que se deve recorrer para que venham à tona, as manifestações das crianças carecem de sentido. Qualquer expressão incômoda do bebê é apenas a melhor linguagem que encontrou pra se comunicar. Não é o que acontece; é apenas um modo viável de se expressar.

Quando nossa alma é exposta no corpo do bebê, é possível ver mais claramente as crises que ficaram guardadas, os sentimentos que não nos atrevemos a reconhecer, os nós que continuam enredando nossa vida, o que está pendente de resolução, o que descartamos, o que é inoportuno. Às vezes as crianças expõem as crises de maneira tão contundente que só assim tomamos consciência da importância da dimensão de nossos sentimentos. Porque tendemos a não lhes dar maior atenção, a considerá-los banais e a relegá-los à nossa sombra.

Criar bebês é muito árduo porque…

…Assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamentalmente uma “mãe-bebê”. As mulheres puérperas têm a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do “mundo-bebê”.

E é indispensável que seja assim. A fusão emocional com a alma do bebê é indefectível, mesmo que este processo seja inconsciente. A decisão de trazê-lo à consciência é pessoal. Vale a pena esclarecer que este processo nos surpreende porque não o esperávamos, e em geral costumamos rotular de mil maneiras as sensações incongruentes das mães e as queixas indecifráveis dos bebês. Em muitos casos, são diagnosticadas “depressões pós-parto”, quando a única coisa que acontece é um brutal encontro da mãe com a própria sombra.

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