05 ago 2015

Relato de parto: o dia que a estrela brilhou

por
Gabi Miranda

Destaque, Gravidez, Maternidade

Prepare-se, vai começar o meu relato de parto!

Há 8 dias, às 20:00, eu entrava em trabalho de parto sem ainda saber que era trabalho de parto. Naquele mesmo dia pela manhã, havíamos ido à consulta de rotina com o obstetra e saí de lá muito arrasada com a possibilidade de realizar mais uma cesárea marcada para sexta-feira, 31/07, às 22:00. Data já limite para o bebê nascer. Chorei com o meu médico, com o marido. Era um sonho indo embora, mas havia a possibilidade de acontecer algo durante a semana, quem sabe…Além de não me agradar a ideia de fazer outra cesárea, não me agradava nada ter que escolher o dia e hora do nascimento do meu filho(a). A história mais uma vez parecia se repetir, pois na gestação do Benjamin foi quase a mesma coisa. O dia passou arrastado e eu carregando certa tristeza no peito.

A noite chegou, preparei o jantar sentindo uma cólica, jantamos e então as dores chegaram. Uma dor que me abraçava pelas costas num indo e vindo infinito. Mal sabia que infinitos, seriam os números dos segundos, minutos e horas daquela noite e do dia seguinte. Por volta das 00:30 decidimos ir para a maternidade. Deixamos Benjamin nos pais do marido e lá fomos nós. Eu sentia dor e outro sentimento que não sei bem definir, não era exatamente medo, mas passava pela minha cabeça que eu não queria morrer. Desejei imensamente que minha mãe estivesse ali segurando minha mão e, por incrível que pareça, senti que ela estava ali e me assegurava que tudo daria certo. Percorri o caminho analisando o tamanho da minha dor, pois eu sabia que na maternidade me perguntariam “de zero a dez” que número eu daria para o que sentia. Cheguei à conclusão que daria nota seis e meio, pois embora a dor viesse aumentando, uma nota máxima só poderia ser atribuída para dores que não aguentamos, como aquelas que atingem a alma ao perdermos alguém e eu estava ganhando um outro alguém, eu daria à luz a uma outra vida, estava trazendo outro ser ao mundo, outras possibilidades, alegrias, outras histórias.

Chegamos na Pró-Matre e fui atendida prontamente, eu não gritava, não chorava, não gemia (sempre temi ser uma das mulheres que vi no início da gestação, que chegavam berrando no hospital. E por essa aposto que minha mãe não esperava, há!). Não me perguntaram de zero a dez o grau da minha dor, simplesmente me atenderam correndo, me examinaram e anunciaram: você está em trabalho de parto, com 1,5cm de dilatação, vamos ligar para seu médico, mas será internada. Enquanto estava em casa, fiquei me segurando pra não sair correndo, pensei que podia chegar na maternidade abafando com uns 4-5cm de dilatação e me falaram que eu tinha 1,5cm!!!! E na sexta-feira passada, dia 24/07, eu tinha 1cm, ou seja, de lá pra cá, mesmo com tantos agachamentos e caminhadas, tinha avançado M-E-I-O centímetro! Fui internada.

A noite até que não foi tão longa, porque logo deu 6:00 e fomos levados para a sala de parto normal. Ali começariam os procedimentos e acompanhamento da evolução do trabalho de parto. A essa altura eu tinha (olha que mágica!) dois, eu disse DOIS centímetros de dilatação. Imagina, horas tinham se passado, a dor aumentado e tinha dilatado apenas meio centímetro. As contrações estavam ótimas – segundo as médicas -, em intervalos de 3 minutos. E vai para banheira para aliviar a dor, sai da banheira, anda pelo quarto, deita, e vem alguém te fazer exame de toque e essa sequência só se repete. Eu sei que até o início da tarde cheguei a 4cm de dilatação e então estacionou de vez, foi quando as contrações também espaçaram o intervalo de tempo, o que não era bom, pois quanto mais contrações você tiver, melhor para dilatar. Se antes as contrações estavam ótimas e demorava o infinito para dilatar meio centímetro, quem dirá com intervalo maior. Ligaram para meu obstetra e ele autorizou entrar com ocitocina no soro. Fiquei aliviada, ele estava empenhado em me ajudar a parir o bebê da forma “normal”, nem que pra isso fosse preciso induzir.

Por volta das 15:00, já com soro e ocitocina na veia – o que me disseram que contribuiria para a dilatação ficar mais rápida – só dilatei MEIO centímetro. Eu já estava exausta, a dor consumia minhas energias e pensava em desistir. Para tomar a analgesia era necessário atingir 6cm de dilatação e eu parecia longe de conseguir isso. Falei para o marido que desistiria se não chegasse à dilatação necessária. Conversamos, rolou um puta de um incentivo por parte dele para eu persistir. Ele foi simplesmente incrível. Combinamos com as enfermeiras que ao invés de fazer o exame de toque dali há uma hora, faríamos depois de duas. Quando chegou a hora do exame, enquanto a enfermeira Nina (pessoa que não vou esquecer que também teve contribuição fundamental em todo processo) me examinava, não via nenhuma expressão no rosto dela que denunciasse a evolução ou não da dilatação. Quando terminou o exame ela disse: é, chegamos em 6cm! Eu que até então não havia soltado nenhuma lágrima, comecei a chorar de emoção (me dá até vontade de chorar só de lembrar), marido chorou, Nina quase chorou, todos se emocionaram.

Quem me conhece, sabe o quanto eu tenho medo de agulha, mas nunca desejei tanto tomar uma anestesia como naquele momento. Então, recebi a analgesia e toda a dor se dissipou. Eu me movimentava normalmente, apenas não sentia mais a dor. Percebi o quanto a gente não dá valor para o funcionamento normal do nosso corpo. Que alívio não sentir dor! Ainda mais aquela dor. Se você me perguntar com o que parece, não sei descrever. Sei que começa como uma cólica, depois sei lá, parece que alguém está lentamente abrindo seus ossos com as mãos. Eu sei que no dia seguinte eu estava com trauma de sentir dor, tudo eu perguntava se ia doer. Agora eu já penso “pra quem sentiu a dor do parto, dor nos mamilos (por amamentação) não é nada”.

Medicada com a analgesia, o corpo relaxa, portanto alcança mais rápido a dilatação necessária, 10cm. Chega tão rápido que você nem acredita. Só tinha um detalhe: meu bebê estava alto e não queria descer de jeito nenhum. Todos que entravam na sala perguntava: quem vem aí? Explicávamos que não sabíamos o sexo e todos se surpreendiam. Sugeriram então de dar nome ao bebê (que até o momento não tinha) sendo menino ou menina, para ver se ele(a) descia. Romperam a bolsa e nada do bebê “escorregar”. Meu obstetra chegou e disse “agora ele(a) vem, estava esperando eu chegar”. E esperamos, esperamos, esperamos…E fiz força, muita força, muita força…

O inevitável aconteceu. Depois de 24 horas em trabalho de parto, o bebê não descia. O Dr. não conseguia nem chegar no bebê. E eu sentia o bebê super alto, era como se a cada tentativa, ele se encolhesse com todas as forças lá dentro não querendo sair. E lá veio o médico com aquela cara de não tenho boas notícias para te dar e então começou dizendo o quanto eu fui durona, corajosa, mas que algumas coisas não dependiam apenas do nosso desejo, mas de algo maior como o cara lá de cima e também do bebê. E depois de conversamos, eu chorei, mas ganhei outras forças, me senti guerreira e estava profundamente orgulhosa da pessoa que percebi ser só naquele dia, da mãe e mulher que eu me tornei. Meus pensamentos se elevaram mais uma vez na minha mãe. Ela estava ali e orgulhosa de mim. Joguei a toalha, não queria mais causar sofrimento ao meu bebê. Naquele instante só pensava em segurá-lo em meus braços. Partimos para cesárea.

As juízas de plantão falarão: podia tentar mais, podia fazer fórceps, caiu no conto do vigário, blá, blá, blá… as pessoas parecem cada vez menos ter direito de escolha sem ter um dedo apontado para si. Se eu tivesse desistido quando a dilatação não avançava, me conhecendo como me conheço, tenho certeza que arrastaria comigo um sentimento ruim. Mas como fui até aonde pude ir, meu coração está tranquilo, estou muito bem resolvida e, como disse, orgulhosa de mim. Carrego mais uma marca de cesárea, uma bem diferente da primeira, tanto nos acontecimentos quanto na recuperação – que nessa está bem difícil e dolorosa. Desde o dia seguinte, sinto muitas dores, que segundo as enfermeiras eram provenientes também do trabalho de parto. Mas nada é tão gratificante que ter seu bebê saudável em casa, em seu colo. Estou feliz mesmo com o desacontecimento do meu parto normal.

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7 respostas para “Relato de parto: o dia que a estrela brilhou”

  1. […] que vi as duas linhas paralelas, mas para não criar expectativas, não falava pra ninguém. E no dia do parto a revelação se tornou uma grande surpresa. Costumo dizer que ela é meu presente do céu. Ambos […]

  2. […] formados. Já pensei se o comportamento temperamental do início, era algum tipo de trauma do parto – que não foi nada fácil para nós. Mas agora tenho quase certeza que faz parte da […]

  3. Meg Couto disse:

    Nossa, lindo relato! Me lembrei de uma musica “QUEM SABE FAZ A HORA NAO ESPERA ACONTECER” Beijos

  4. Ianaê Gomes disse:

    Gabi, você foi mais uma guerreira como várias outras mães que tentaram e infelizmente como disse seu médico nem tudo depende da nossa vontade e esforço. Seu relato foi lindo e emocionante. Minha bolsa estourou, fiquei 3 horas sendo induzida e nem meio cm de dilatação e a contração absurda, porque eu estava a noite inteira em trabalho de parto e não sabia. Aí quando falo que foram duas césares várias pessoas me condenam sem nem eu contar nada. Então, deixo o julgamento para o meu último dia de vida, pois o que importa é a minha consciência. Parabéns por todo o empenho. E vc como tantas outras não tem demérito de não ter tido parto normal. Porque aguentar tudo isso e tomar a melhor decisão pelo seu filho isso sim é ser muito mulher, muito mãe e muito corajosa. Porque a verdadeira coragem é saber a hora de mudar de estratégia. Bjs

  5. Que lindo Gabi! Me lembrou o trabalho de parto do Léo! Fiquei uma semana (!) dilatando de 1 pra 4!!! Mas sem dores… Só doeu no início e depois estacionou… Pude voltar pra casa, esperar, e ainda assim induzimos. Léo também estava alto. Mas no fim ele desceu e tive o normal. Imagino o sentimento de ir pra cesárea, mas acho que você não deve explicação pra ninguém! Você foi guerreira e nem se não tivesse sido querida! Tudo é tão pessoal! Prova disso é que eu tive natural na vez da Manu, senti muita dor na expulsão, muita mesmo, mas não pensei como você no comparativo com a amamentação e suas fissuras… Pra mim, essa dor em escala chegava a 10 também, só que de um jeito diferente – sem alívio!!! Bom, da um beijo na sua estrela e parabéns pra vcs duas pelo parto! Beijocas

  6. Fabiana disse:

    Mãe da estrelinha. Você foi muito além. Superou seus medos, criou uma cumplicidade incrível com o Pfiffer e teve todo o trabalho possível. Sua mãe com certeza estava segurando a sua mão. Beijos proce é pra mascotinha!!!!!’

  7. nanna disse:

    você pariu uma filha linda, sua mãe mandou uma estrela para você, e não importa a forma que ela saiu daí de dentro. Cada uma sabe a sua hora, o seu limite. E você tem que ter orgulho da mãe que você é e nao do parto que você teve. (aliás, quantas mães conhecemos que tiveram parto sem cesárea e que nem são tão boas mães, hein?!?)
    Você é foda, menina! Acredite nisso!
    E para de fazer relato de parto uma semana depois, porque agora quem se sentiu mal fui eu!!!
    Te amo Gabs, e já amo essa estrelinha!

  8. Julia disse:

    Gabi, que relato lindo e emocionante!! O seu médico foi muito além do que a maioria dos médicos iria! E eu tenho certeza que ele tentou ao máximo, fez tudo o que era possível para que o parto fosse normal! E o que pode ser mais importante do que a Stella estar ao seu lado lindona que só ela?! 🙂

  9. Lele disse:

    Minha linda, estou chorando aqui…
    embora já tivesse conhecimento de todos os acontecimentos, lendo tudo isso assim, numa tacada só me emocionou profundamente.
    Você é (e sempre foi) muito guerreira.
    Você conseguiu!
    Não pense como um desacontecimento!
    Stella é linda, saudável e a irmãzinha do Ben. Puro acontecimento!!!!
    beijo enorme
    Lele

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