21 nov 2014

Série: O que leva as mães pararem de trabalhar fora – 2

Desde quando comecei a pensar quais seriam os motivos que fazem as mães pararem de trabalhar fora, tomava cuidado para finalizar com “trabalhar fora“. Sinto que existe certa rivalidade (talvez nem seja essa palavra) entre as mães que trabalham fora e as que não trabalham fora. Muitas vezes, vi a segunda, referir-se como “mãe em tempo integral“, o que soa pra mim errôneo já que uma vez mãe, sempre mãe, independente de passar o dia inteiro com a cria (já falei sobre isso AQUI).

Tenho plena consciência que a mãe que não trabalha fora, trabalha tanto quanto eu dentro de casa, por isso tomei certo cuidado. Arrisco-me a dizer, não só as mães que trabalham fora, mas como a sociedade, olha de um outro jeito a mãe que decidiu não trabalhar fora. A convidada de hoje, me contou que passou a fazer cara de “sabe de nada inocente” sempre quando escuta a frase “porque ela não trabalha” OU “você trabalha?” OU variações do tipo.

Hoje quem conta sua história é a querida Patricia Cerqueira, do blog Comer para Crescer. Já conheço a Pati há um tempinho e sempre tive grande empatia por ela. Recentemente, temos tido mais contato e só aumentou a percepção que tenho dela – uma pessoa adorável e mãe dedicada dos artistas Samuel e Miguel, que acredita fielmente: Enquanto, as pessoas não mudarem a expressão para “porque ela não trabalha fora de casa”, haverá descrédito para quem faz opção de tocar a jornada dupla dentro de casa.”

 

trabalhar fora

Alma tatuada

Não sei muito bem quando uma frase da minha mãe colou no meu cérebro e na minha alma, a de “mulher tem de ter a própria renda e profissão porque não pode depender do marido nem pra comprar uma calcinha”. O que eu sei é  que faço parte da geração das filhas da revolução feminista, aquela que queimou sutiã pelos direitos das minas. E fazer parte desse universo significa ter tatuado na alma que mulher não deve depender financeiramente do companheiro. Deve dividir, contribuir, colaborar com as despesas da casa. Trabalhar fora. Ter uma profissãoo, ser “alguém” na vida (oi? que frase horrível).

E assim eu cresci, estudei, me formei como jornalista, trabalhei muito, me dediquei com afinco pois amo a minha profissão e não queria depender de marido. Casei. Dividi muita conta com o marido. Tive meu primeiro filho depois de quatro anos de casamento e uma carreira estável. Na volta da licença maternidade, as minhas certezas sobre “não depender financeiramente de homem” foram abaladas. Mas voltei. Chorei de saudade do filho bebê. Arrastei culpa por não vê-lo crescer como idealizava. O garoto crescia super bem e feliz. Tínhamos uma babá maravilhosa (ficou 6 anos com a gente). Da parte dele, tudo ia bem. Da minha também, mas rolava umas crises existenciais.

Mas eu estava feliz profissionalmente. Gostava da redação onde eu trabalhava, da minha chefe, do clima. Então, vamos seguir a vida sem fazer mimimi, né??!

Daí, que engravidei novamente. O segundinho nasceu quando o primeiro tinha quase quatro anos e depois de oito anos de casamento, mais dois de namoro. Ou seja, dez anos de convivência, parceria, contas para rachar, problemas para dividir, sonhos para somar.

A volta da segunda licença maternidade foi sem crise. Aliás, passar cinco meses em casa com duas crianças, mesmo com a babá, foi demais para mim. Queria voltar antes do fim. Foi suave, sem crise. Eu já sabia que os filhos ficariam bem, inclusive porque tínhamos (eu e marido) montado uma infraestrutura boa para os dois pequenos.

Só  que a vida muda. E a editora onde eu trabalhava passou por uma reestruturação e do lugar mais bacana para se trabalhar, a redação se tornou o pior lugar para uma mãe estar profissionalmente. A minha chefe bacana pediu demissão e no lugar dela entrou uma pessoa com a qual eu não tinha tanta empatia. Profissionalmente, me senti desvalorizada e sem perspectiva de aprender, pois, com 35 anos, eu era a pessoa mais velha por ali.

Como eu sou movida a paixão pela profissão e pelo aprendizado que ela nos proporciona, achei que lá não era o lugar onde eu conseguiria essas realizações. Durante uma férias, conversei com o marido e decidi tirar um período sabático de dois anos. Mas para isso acontecer a gente precisava saber se era viável financeiramente. Fizemos e descobrimos felizes que sim.

Pedi demissão no primeiro dia de retorno das minhas férias. Larguei um trabalho grande pela metade. Conversei com a minha chefe por telefone porque ela estava de férias. Ela aceitou sem impor nenhuma condição. Ufa! Abri mão de um excelente salário, plano de saúde, multa rescisória e FGTS. Eu queria fugir dali.

O meu caso me fez lembrar de uma reportagem que fiz sobre a razão pela qual as mães abrem mão de bons empregos e a maioria me disse que largou tudo para ficar com os filhos porque era infeliz no trabalho. Foi o meu caso. Não valia a pena deixar os meus meninos por um ambiente de trabalho tóxico.

Recebi apoio, além do marido, da minha mãe, aquela que me tatuou na alma não depender de homem, da minha irmã que também havia feito esse percurso, da minha cunhada, outra que havia trocado o trabalho fora de casa pelo doméstico, e de outras várias mães, que viam nessa minha possibilidade um privilégio. Não sofri preconceito de gente inteligente.

Tomei essa decisão há 8 anos. Nunca parei de ter jornada dupla. Fiz e faço trabalhos free lancers, montei um blog que virou um site com uma amiga jornalista, o Comer para Crescer. Agora tudo se concentra em casa. Não preciso me deslocar. Ainda bem, porque o trânsito de São Paulo não é de Deus!

Só  que vivo de ciclos. Hora estou bem feliz com a minha escolha e rotina. Hora estou profundamente desconfortável, infeliz. Acho o trabalho doméstico emburrecedor porque não entendo de decoração, de arrumação, mas odeio bagunça e pó. Eu me divirto na cozinha, aliás o lugar mais legal e desafiador da casa.

Já tive muita vontade de voltar a trabalhar fora de casa. Passei por altas crises por conta disso. Quando os meninos eram menores, elas iam e vinham. Eram intensas, mas eu pesava os prós e contras e o segundo sempre ganhava.  Inclusive porque nunca surgiu uma proposta legal, interessante, cativante, instigadora. O trabalho no blog e no site foi ficando mais legal e intrigante porque passei a fazer algo que eu não tinha feito antes: empreender. É difícil para caramba. Precisa de talento e treino. Ou pelo menos treino. E é isso que venho fazendo.

Minha nova crise é querer fazer uma nova faculdade, mas não encontrar tempo, horário mais adequado e coincidir com a agenda do marido porque não temos empregada doméstica (uma conquista). Então, quando um adulto está fora de casa, o outro tem de estar dentro.

Fiquei pior há algumas semanas. Mas escrevi sobre a minha tristeza materna e o macarrão ruim e acabei melhorando. Desopilei o fígado. Foi bom colocar para você e ler que não estou sozinha nessa crise. Daí que veio a pergunta: se a revolução feminina não tivesse acontecido, eu estaria nessa crise existencial? Eu teria a minha alma tatuada com a frase da minha mãe: “mulher não deve depender financeiramente de marido”? Acho que sim porque eu vivo de ciclos. Uns bons e outros ruins. Acho que isso é  vida, não?

Leia também: o que lava as mães pararem de trabalhar fora

 

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0 resposta para “Série: O que leva as mães pararem de trabalhar fora – 2”

  1. […] Leia também: a história da Patricia que parou de trabalhar fora para se dedicar mais aos filhos […]

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