17 dez 2014

Série: o que leva as mães pararem de trabalhar fora 3

por
Gabi Miranda

Comportamento, Maternidade, Trabalho

O post de hoje é da pessoa que plantou em mim essas dúvidas sobre o que move muitas mães pararem de trabalhar fora. Minha amiga pessoal, íntima, minha irmã de coração Daniela, mãe admirável do João e do Marcos e que não esconde o desejo que sente de aumentar ainda mais a família. O texto dela me emocionou bastante. E imagino o quanto foi difícil colocar no papel algo que ela não conseguia expressar pra mim em nossas milhares conversas. Agradeço imensamente o esforço que ela fez em compartilhar conosco esse relato lindo.

Série: o que leva as mães pararem de trabalhar

Os motivos pelos quais decidi parar de trabalhar fora. Ou melhor, decidi trabalhar nos cuidados daquilo que realmente importa pra mim.

Desde que a Gabis me mandou um email convidando a escrever minhas motivações para a mudança na minha rotina de trabalho que aconteceu em junho deste ano, venho me perguntando quando exatamente a decisão foi tomada. E desde quando essa necessidade ficou clara. Acho que idealizei a minha vida adulta desde a adolescência. Achava ser possível realizar tantas coisas. Estar em tantos lugares. Dar espaço pra acontecerem todos os sonhos que tinha tudo de uma vez, normal né?! Nada como ser adolescente e acreditar que tudo é possível… Mas, quando chegou o tempo de realizar, comecei a entrar em crise com as dificuldades encontradas diariamente. E entendi que além de alguns desejos não fazerem mais sentido. Ou não fazerem sentido na fase atual, outros tantos sonhos entraram na lista.

Descobri muito no primeiro ano de vida do meu primogênito. Houve uma ruptura das certezas. Principalmente daquelas que eram herança da fase adolescente descrita acima. Reaprendi no cuidar do meu João, nos medos todos que passaram a me assombrar, na coragem de escolher os caminhos… que eu tinha vivido até então uma ilusão, alimentada pela minha crença de querer é poder e eu me basto pra acreditar e fazer acontecer. Enfim, no meio de todas as alegrias maravilhosas do ser mãe, vamos observando a avalanche de sentimentos e emoções que carregamos e que precisam de espaço e reconhecimento nosso, respeito nosso, pra equilibrar o viver.

Chega o segundo filho. Meu pequeno Marcolino. E novas rupturas acontecem. A capacidade de amar já infinita, dobra (aprendi que existem infinitos de tamanhos variados e o meu nesse caso é enorme). E outras capacidades são adquiridas no pacote dessa chegada. Como entender que você e o pai são os únicos responsáveis pelo desenvolvimento das crias. Muita gente ajuda. De pediatra a avós, amigos e parentes. Torcem e dão uma mãozinha pra ajudar a dar conta de conciliar tantos papéis das mães que tem vida profissional ativa fora de casa e não aderiram por “x” motivos à creche. Mas, tudo isso é ajuda e não supre a necessidade primordial de tempo junto dos pais.

Estou contando a minha história. De jeito nenhum critico as mães que fazem opções diferentes da minha. Quando aconteceu dentro de mim a revelação de que eu estava me enganando sobre a vida que estava levando e que “não tinha” que ser assim. Com meus filhos vivendo como duas malas de viagem prontas que eu carregava dia pra minha mãe, dia pra minha sogra. Depois a perua levava pra escola, trazia pra casa da minha mãe e só lá pelas 20h é que eu ou o pai conseguíamos pegá-los. Trazer pra casa, dar janta, banho e alguma atenção com o que restava da nossa energia e paciência.

Além disso, descobri que eu precisava deles. Pra tentar voltar pro caminho da pessoa que eu sonhei ser, eles são a oportunidade, as pistas pra desvendar uma boa parte da charada desse viver. Me resgataram do mundo perdido, aquele em que eu não me ouvia, não respeitava os meus limites, não conseguia entender e nem “ler” os sinais que explicavam o que acontecia dentro da mãe, da mulher que me tornei. Eles trouxeram de volta a minha infância, me ensinam a olhar o mundo com a curiosidade e beleza dos pequenos prazeres. Conclui que eu precisava, talvez mais que eles, de ficar perto e passar por essa fase junto.

Depois dessa revelação, tudo o que acontecia ao meu redor contribuiu para o meu passo corajoso de deixar uma rotina conhecida, apesar de estressante, e abraçar outra nova. Com seus incontáveis bônus, mas com vários ônus que eu devia medir e saber se conseguiria conviver. Comecei por envolver a outra parte mais importante, o pai/marido/companheiro e futuro (na época)/ atual único provedor da casa, que precisava participar da decisão. Não apenas por ser a parte racional da relação, mas por conhecer a menina com a qual divide as angústias e sonhos desse caminho já há mais de uma dezena de anos. Ele é o grande responsável por jogar um pouco de luz sobre os momentos em que a escuridão do medo toma conta.

De leituras feitas há algum tempo e resgatadas como a Laura Gutman no encontro com a própria sombra e o Içami Tiba no Quem ama, educa!. Ou aulas de humanismo e literatura banhadas com Shakespeare e o seu Hamlet do “Ser ou não ser”, e do Pequeno Príncipe na “responsabilidade do que se cativa”. E ainda da Suzanna Tamaro com o Vá aonde seu coração mandar. Por acompanhar na web o desenrolar das histórias de mudança de vida nos blogs Feliz com a Vida e Glück Project.

De lições de moral ditas no caminho do almoço, por ruas mal cuidadas embaixo do minhocão de SP, por amigos iluminados como “o sentido é ser feliz no caminho” e outros tantos que emprestaram horas de ombro pras lamentações sobre a dificuldade de conciliar os vários papéis. De desconhecidos que me ensinam a “pensar nas opções até que a escolha seja feita. Depois disso viver a escolha como caminho que me cabe fazer dar certo e ser feliz com ela”. À família composta de avós e tias dos pequenos que me dizem que “tudo vai dar certo” e me lembram do tipo de material do qual sou feita. Tudo, tudo, tudo o que aconteceu me ajudou a me aproximar mais da vontade de dar o passo e fazê-lo com alguma segurança.

Série: o que leva as mães pararem de trabalhar

Já se passaram quase seis meses e dentro de mim cresce todos os dias o sentimento de gratidão. Primeiro a Deus, porque acredito no Seu infinito amor por nós, com todas as nossas limitações. E sei que sou muito agraciada, mesmo tão pequena e limitada. Aos meus filhos e marido, por me ajudarem a viver no agora a felicidade. Aos familiares, amigos e conhecidos que questionaram muito menos do que imaginei e apoiaram muito mais do que eu esperava.

E pra aqueles que ainda perguntam se está tudo bem, como está a vida e se pretendo voltar ao trabalho fora de casa? Respondo: Está tudo muito bem, precisando equilibrar ainda o ter menos, ser mais…e vivendo o dia a dia apreciando melhor a vista.

Acredito que vai chegar o tempo de viver o profissional novamente, mas quero esperar pra fazer a escolha quando todas as opções se apresentarem e quando for hora de dar o novo passo nessa direção.

Leia também: o levam as mães pararem de trabalhar fora?

 

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2 respostas para “Série: o que leva as mães pararem de trabalhar fora 3”

  1. Zulmira Pires disse:

    Ao ler essa história, voltei 30 anos atrás, quando vivi exatamente as mesmas emoções e as mesmas dúvidas. Acordava às 6:00h, deixava meu filho no berçário, entrava às 8:00h no trabalho, saía às 18:00h, corria pegá-lo e morria de culpa. Nos finais de semana tinha que ficar trabalhando feito louca para deixar as coisas em ordem, para começar tudo de novo na segunda feira.
    Comecei a me questionar se era isso mesmo que queria para nossas vidas. Se não seria melhor esquecer um pouco a vida profissional e me dedicar mais a minha família que tanto sonhei em construir. Confesso que foi uma decisão mais que difícil, pois nunca me imaginei somente dona de casa, e também pelo fato que viveríamos dali por diante, somente com o salário do meu marido.
    Pensei , repensei, fiz e refiz contas, antes de tomar a decisão, que eu sempre soube, não seria definitiva. Logo engravidei do meu segundo filho, – que por coincidência também era Marcos (Marcolino) – e resolvi que dali por diante eu cuidaria dos meus filhos, até que eles tivessem capacidade de se “virarem” sozinhos. Se as mães soubessem como passa rápido essa fase, talvez repensassem toda essa loucura que é fazer dos seus filhos uma mala, um leva e trás sem fim e um stress sem tamanho.
    Posso, com conhecimento de causa, falar que a experiência valeu a pena. Não só cuidava dos meus filhos, do meu lar, como também verifiquei que o dinheiro que eu ganhava, não fazia tanta falta assim. Comecei a economizar no transporte escolar (passei a ser motorista), no vestuário,(não gastava tanto dinheiro comprando roupa) na alimentação, no combustível do leva e trás e principalmente passamos a nos alimentar melhor em casa. Foi fácil? Não, confesso. Mas foi infinitamente gratificante poder estar ao lado dos meus filhos quando eles mais precisaram.
    Quando os dois estavam em idade escolar, aproveitei e também estudei, me formei e voltei a trabalhar meio período.
    Hoje, aposentada, digo que tudo valeu a pena e faria tudo da mesma forma. As mulheres só têm que ter em mente, “que o ficar em casa por um tempo” não quer dizer estagnação ou perda de tempo e sim comprometimento com os filhos e o lar.
    Obs. Em nenhum momento critico as mães que pensam ou agem de maneira diferente, pois cada caso é muito peculiar.

  2. Opi disse:

    Vivo este mesmo conflito. Deixei de trabalhar assim que a minha pequena nasceu. Curti licença maternidade e depois larguei o emprego. Fiz tudo de uma maneira super responsável, deixando todas minhas contas pagas e uma boa reserva pra comprar coisas básicas durante um bom tempo. Mas sempre me cobro um lado profissional que não está bem desenvolvido. Às vezes sinto-me subestimada por essa situação. Sinto vergonha. Percebo o quão lindo foi este gesto para a minha filha. Vejo que dificilmente as pessoas ao redor observam-na e percebem suas emoções como eu faço. Vejo quantos valores lindos tenho ensinado a ela. Percebo como sei cuidar bem e fora dos padrões capitalistas. Mas ao mesmo tempo tenho esta impressão de que pra sociedade, este meu papel não tem valor. Espero encontrar o equilíbrio em breve.

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