22 abr 2014

Sou 1/3 de mãe…e agora, surto ou agradeço?

por
Gabi Miranda

Desabafo, Maternidade

Imagine uma agência recrutando profissionais para a vaga mais difícil do mundo. São 135 horas por semana, não tem hora para descanso, sem férias, sem feriado prolongado, sem hora para dormir – e mesmo quando estiver dormindo, tem que ficar alerta porque pode ser chamado. É exigência  ter conhecimentos em medicina, finanças, culinária e mais em outras coisas. Detalhe: não tem remuneração. Esse trabalho deve ser feito somente por amor. Parece absurdo, mas TODA mãe exerce essa função.

Essa foi a campanha que bombou na internet semana passada, emocionando milhares de mãe, inclusive eu.

http://www.youtube.com/watch?v=HB3xM93rXbY

Instantaneamente, ao assistir e ler a matéria sobre esse vídeo, fiz uma reflexão sobre um termo que circula por aí e que me incomoda bastante, o “mãe em tempo integral”. Pelo que entendo do contexto que já vi esse termo circular, “mãe em tempo integral” é aquela que não trabalha. Ou melhor (antes que me apedrejem), a definição correta, é aquela que não trabalha fora de casa e se dedica aos filhos.  Na maioria dos casos, ela deixou de trabalhar para se dedicar inteiramente aos filhos. E, a casa, obviamente e injustamente (ou não), vem de brinde.

Sinceramente admiro mulheres que tomaram (e tomam) essa decisão. Eu não faria, embora já tenha passado por crises maternas existenciais, vontade de largar tudo e ficar o dia todo com meu filho. Mas não daria certo. Como muitas mães admiráveis que conheço, logo eu teria que inventar alguma coisa, abrir um negócio, algo que suprisse essa lacuna profissional. Sendo assim, sou 1/3 de mãe, trabalho fora 8h, durmo 8h e nas 8h restante do dia sou a mãe do Benjamin. (e agora da Stella)

Mas por que me incomoda tanto o termo “mãe em tempo integral” já que estou certa da minha escolha? Porque em minha opinião ele é empregado erroneamente. Eu trabalho fora, saio com o marido, com as amigas, vou ao salão de beleza, lavo e passo roupa, cuido da minha casa (não tenho empregada nem diarista e, sim, é uma opção minha), faço supermercado, mais um monte de coisas que as mães “em tempo integral” batem no peito para se vangloriar, e, em nenhum desses momentos, deixo de ser mãe do meu filho. A própria campanha mostra isso, mãe é mãe full time.

Vamos desmembrar o termo:

Mãe: mulher, médica, professora, cozinheira, nutricionista, sonâmbula, meteorologista, amor, dedicação, renúncia….mulher que tem um ou mais filhos.

Tempo: é a duração dos fatos, é o que determina os momentos, os períodos, as épocas, as horas, os dias, as semanas.

Integral: inteiro, total, completo.

Resultado: mulher que tem um ou mais filhos em período completo.

O termo é utilizado errado, basta refletir:

– se o filho vai para a escola, ele deixa de ser filho em tempo integral?

– se a mãe dorme, logo ela deixa de ser mãe em tempo integral?

– se a mãe em tempo integral é aquela que não trabalha fora, mas arruma um monte de coisas para fazer, ela deixa de ser mãe em tempo integral?

– e a mãe que perde um único filho, deixa de ser mãe integral e pior (!), deixa de ser mãe?

Há dúvidas. A mãe em tempo integral existe mesmo? Penso que seria aquela que não dorme, educa os filhos em casa, nunca sai nem para o supermercado, não terceiriza o filho com escola, babá, tios, vizinhos, avós. Logo, essa mãe não existe. Nem em contos de fada.

Já disse, admiro as mães que decidem parar de trabalhar para ficar com os filhos. Mas não as acho mais mãe que eu. Algumas se descabelam tanto para bater no peito e se autointitularem “mãe em tempo integral”, que ficam menos tempo com seus filhos do que eu que trabalho 8h por dia. Admiro ainda mais as que param com afinco, com a certeza daquilo que querem de verdade e desempenham por anos sua escolha sem reclamar. Porque a impressão que tenho, é que algumas mães “em tempo integral” não são felizes, vivem reclamando que tem tanque cheio de roupa pra lavar e da falta de tempo para elas… Questiono-me, adianta largar tudo pelos filhos e viver reclamando? Não seria melhor o filho ter uma mãe feliz trabalhando do que uma infeliz em casa?

Parto do princípio que não se deve largar nada por ninguém, quando a gente toma uma decisão tem que levar em consideração que é simplesmente por nós, pela nossa satisfação, nosso bel prazer, nossa felicidade. Acho grave ouvir “larguei pelos meus filhos”. Coitados! A criança, tão inocente, não está sabendo de nada, nem tem o direito de se defender e a mãe está lá “eu faço por ele”. Não, a responsabilidade das nossas escolhas, são nossas e de mais ninguém.

Será que no fundo, inconscientemente, não abrimos mão de tudo só para parecermos super mães? Se sim, deveria fazer bem e não nos lamentarmos a todo instante que não tem tempo pra nada, nem para ir ao banheiro. O tempo  que resta, ainda usam para julgar as mães que fazem diferente. Definitivamente, não me parece coisa de gente feliz, de gente que sente que seu tempo integral de mãe está sendo bem aproveitado. Aliás, sempre acreditei que a maternidade tornasse as pessoas melhores em todos os sentidos, principalmente mais humanas. E não é isso que tenho visto por aí.

Há quem diga que ser “mãe em tempo integral” é ultrapassado, não só olhando o lado financeiro – o que para muitas famílias é fator importante -, mas pela mudança dos tempos que fez com que nós mulheres desejemos cada vez mais. A maternidade já não supre todas as nossas necessidades. Exemplo disso é o número crescente de “mães em tempo integral” abrindo seu próprio negócio. A mulher quer o mundo! E para conquistar o mundo, é preciso sair do ninho por algum período do dia.

Outro dia li: “ser mãe em tempo integral não é nada fácil”. E quem disse que ser 1/3 de mãe é? Trabalhamos fora, namoramos, deixamos o filho com a avó, fazemos supermercado, feira, vamos ao banheiro silenciosamente (para filho, nem o marido nos descobrirem), cozinhamos de verdade (mas também pedimos comida por telefone e também fazemos comida congelada), lavamos banheiro, lavamos e passamos roupa, fazemos faxina na casa, lição de casa com os pequenos, providenciamos encanador, eletricista, etc, ufa!

Então você percebe que sendo “1/3 de mãe” faz tudo e um pouco mais que as “integrais” fazem o dia todo e nem por isso seria certo dizer que é mais mãe do que elas. Mas se você trabalha fora, ainda dorme e no 1/3 que sobra dá conta de tudo, a “1/3 de mãe” é, na verdade, perfeita! Ela não abandonou nada, só acumulou e ainda faz tudo o que gosta. Ah, se fosse simples assim…

Prefiro acreditar na maternidade humanizada, onde não exista tanta competição, não precisa ser mais nem “menas”, basta ser presente, constante e eficaz, aquela que traz para si toda a responsabilidade das suas escolhas, a criação, educação, afeto e construções de valores dos seus filhos. No final das contas, nenhuma de nós temos folga, férias, sono sem interrupção…todas somos diretoras de operações. Todas temos o trabalho mais difícil do mundo, mas também o mais gratificante.

Todas somos MÃES.

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7 respostas para “Sou 1/3 de mãe…e agora, surto ou agradeço?”

  1. Aline disse:

    Amei seu texto! Achei que só eu me incomodava com esse termo.

  2. […] uma vez mãe, sempre mãe, independente de passar o dia inteiro com a cria (já falei sobre isso AQUI). Tenho plena consciência que a mãe que não trabalha fora, trabalha tanto quanto eu dentro de […]

  3. […] dia minha amiga Gabis falou sobre o termo “mãe em tempo integral” e sobre como esse conceito é equivocado já que, uma vez mãe, mãe para […]

  4. Gabi, um milhão de parabéns pra você. Talvez seja esse o melhor texto que já li nessa enorme blogosafera materna, que cresce tanto a cada dia, mas com tantas mães se achando melhores que outras, ou porque não trabalham fora, ou porque amamentaram mais tempo, ou porque tiveram um parto-humanizado-natural-perfeito. Há dias estava com esse termo “mãe em tempo integral” entalado na garganta, louca pra escrever um post sobre o assunto, e… posso falar? Você escreveu tudo o que eu pensava a respeito e muuito mais. Já te admirava, te admiro ainda mais. Eu trabalho fora há 7 anos, não parei quando o Heitor nasceu, já tive vontade de largar tudo, já chorei muito e continuo tendo essas crises às vezes. O termo é como se fosse assim: Estou trabalhando e alguém me pergunta: Você tem filhos? E eu respondo: Tenho 1, depois das 17h… hein??? nãaaao, eu tenho um filho, ele é meu filho o tempo todo e eu mãe dele por toda a vida, todo o tempo.
    Portanto, às “mães em tempo integral”, peço apenas que se refiram de outra forma, porque às vezes ofende, viu?
    Obrigada, Gabi, pelo post sensato e maravilhoso! Palmas pra você! Te adoro!

    http://www.ideiasefilhos.wordpress.com

  5. Lele disse:

    Gabis, achei seu post super lúcido e você foi além do cartesiano: isso ou aquilo. Porque não dá ne? Não vivemos mais em 1900…
    Eu também não conseguiria abrir mão do trabalho pensando em tudo o que teria que abrir mão. É meu pé na lucidez (e porque não, na loucura também).
    Enfim, ser “mãe tempo integral” e reclamar da louça, da roupa suja, da bagunça dos filhos ou, pior, ficar com eles mas estar 100% online e não sendo “mãe tempo integral” pra mim não vale… heheh
    beijos
    Lele

  6. Rose Misceno disse:

    Eu digo que sou mãe em tempo integral e que nas horas vagas, trabalha, estuda, sai com amigos, curte o marido, enfim, sou uma mãe pra lá de poderosa, né?
    Porque não abri mãe de nada, só acrescentei coisas a pessoa que eu já era antes de ser mãe!

    Adorei tudo no texto!

  7. Mariana disse:

    Todas são mães E PONTO. Amei o texto!

  8. Perfeito o texto! Costumo dizer que sou mãe integral que trabalha fora em horário comercial. Em momento algum deixo de ser mãe. Não necessariamente estou ausente da educação das minhas filhas por trabalhar fora como também uma mulher pode estar em casa e não necessariamente está presente. Também prefiro acreditar na maternidade humizadas sem “mais” nem “menas”.
    beijos
    Chris

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